O Bicho Manjaléu

Monteiro Lobato


No meio do caminho encontrou três irmãos brigando por causa duma bota, duma carapuça e duma chave. Indagando o valor daquilo, soube que eram uma bota, uma carapuça e uma chave mágicas.

Quando alguém dizia à bota: - Bota, bote-me em tal parte! a bota botava.

E se diziam à carapuça: - Carapuça, encarapuce-me! a carapuça encarapuçava, isto é, escondia a pessoa.

E se diziam à chave: - Chave, abre! a chave abria qualquer porta. O moço ofereceu pelos três objetos o dinheiro que trazia e lá se foi com eles. Logo adiante parou e disse:  - Bota, bote-me em casa de minha primeira irmã. Mal acabou de pronunciar tais palavras, já se achou na porta de um palácio maravilhoso. Falou com o porteiro. Pediu para entrar, dizendo que a dona do palácio era sua irmã. A irmã soube de sua chegada, acreditou em suas palavras e o recebeu muito bem. - Mas como conseguiu chegar até aqui, meu irmão?
- Por meio da bota mágica - respondeu ele. E contou toda a história de sua partida e do encontro dos três objetos mágicos. Tudo correu muito bem, mas assim que começou a entardecer a irmã pôs-se a chorar. - Por que chora, minha irmã?
- Ah, respondeu ela, choro porque sou casada com o Rei dos Peixes, um príncipe muito bravo que não quer que eu receba ninguém neste palácio. Ele não tarda a chegar, e mata você, se enxergar você aqui... O moço deu uma risadinha, dizendo: - Não tenha medo de nada. Com a carapuça mágica saberei esconder-me.


O rei chegou e logo levantou o nariz para o ar, farejando: - Sinto cheiro de gente de fora!, mas a rainha mostrou que não havia por ali ninguém e ele sossegou. Tomou um banho e se desencantou num lindo moço. Durante o jantar a rainha fez esta pergunta: - Se aparecesse por cá um irmão meu, que faria vossa Majestade?
- Recebia-o muito bem, disse o rei, porque o irmão da rainha cunhado do rei é. E se ele está por aqui, que apareça. O irmão encarapuçado apresentou-se, sendo muito bem recebido. Contou toda a sua história, mas não aceitou o convite de ficar morando ali por ter de continuar pelo mundo em procura das outras irmãs. O rei olhou com inveja para as botas mágicas, dizendo: - Se eu as pilhasse, iria ver a rainha de Castela. Na hora da partida o rei deu-lhe uma escama: - Quando estiver em apuros, pegue nesta escama e diga: Valha-me, Rei dos Peixes! O moço agradeceu o presente e lá se foi depois de dizer à bota: - Bota, bote-me na casa de minha segunda irmã, e imediatamente se achou defronte de outro palácio, onde foi recebido pela segunda irmã, que era a esposa do Rei dos Carneiros. - Meu marido logo chega por aí, a dar marradas a torto e a direito, e você não escapa.
- Com a minha carapuça escapo, respondeu o rapaz, rindo-se. E contou a virtude da carapuça encantada. E de fato foi assim, correndo tudo direitinho como lá no palácio do Rei dos Peixes. 

Na hora da partida o Rei dos Carneiros disse: - Tome este fio de lã. Quando estiver em apuros, basta que pegue nele e diga: Valha-me, rei dos Carneiros! Em seguida, olhou com inveja para as botas mágicas. - Se as pilhasse, iria ver a rainha de Castela.
Logo que o moço se viu na estrada, parou e disse à bota. - Bota, bote-me em casa da minha terceira irmã, e a bota botou-o no portão dum terceiro palácio ainda mais belo que os outros. Era ali o reino do Rei dos Pombos, onde tudo aconteceu como no reino do Rei dos Peixes e no reino do Rei dos Carneiros.

Foi muito bem recebido e festejado, até que na hora da partida o Rei do Pombos suspirou olhando para as botas, e disse: - Se eu pilhasse essas botas, iria ver a rainha de Castela. Em seguida deu ao moço uma pena, dizendo: - Quando estiver em apuros, pegue nesta pena e diga: Valha-me, Rei dos Pombos!

Continua

 

 

Voltar