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No
meio do caminho encontrou três irmãos brigando por causa duma bota,
duma carapuça e duma chave. Indagando o valor daquilo, soube que eram
uma bota, uma carapuça e uma chave mágicas.

Quando
alguém dizia à bota: - Bota, bote-me em tal parte! a bota
botava.

E se
diziam à carapuça: - Carapuça, encarapuce-me! a carapuça
encarapuçava, isto é, escondia a pessoa.

E se
diziam à chave: - Chave, abre! a chave abria qualquer porta. O
moço ofereceu pelos três objetos o dinheiro que trazia e lá se foi
com eles. Logo adiante parou e disse: - Bota, bote-me em casa
de minha primeira irmã. Mal acabou de pronunciar tais palavras, já
se achou na porta de um palácio maravilhoso. Falou com o porteiro.
Pediu para entrar, dizendo que a dona do palácio era sua irmã. A irmã
soube de sua chegada, acreditou em suas palavras e o recebeu muito bem. -
Mas como conseguiu chegar até aqui, meu irmão?
- Por meio da bota mágica - respondeu ele. E contou toda a história
de sua partida e do encontro dos três objetos mágicos. Tudo correu
muito bem, mas assim que começou a entardecer a irmã pôs-se a chorar.
- Por que chora, minha irmã?
- Ah, respondeu ela, choro porque sou casada com o Rei dos
Peixes, um príncipe muito bravo que não quer que eu receba ninguém
neste palácio. Ele não tarda a chegar, e mata você, se enxergar você
aqui... O moço deu uma risadinha, dizendo: - Não tenha medo de
nada. Com a carapuça mágica saberei esconder-me.

O rei chegou e logo levantou o nariz para o ar, farejando: - Sinto
cheiro de gente de fora!, mas a rainha mostrou que não havia por
ali ninguém e ele sossegou. Tomou um banho e se desencantou num lindo
moço. Durante o jantar a rainha fez esta pergunta: - Se aparecesse
por cá um irmão meu, que faria vossa Majestade?
- Recebia-o muito bem, disse o rei, porque o irmão da rainha
cunhado do rei é. E se ele está por aqui, que apareça. O irmão
encarapuçado apresentou-se, sendo muito bem recebido. Contou toda a sua
história, mas não aceitou o convite de ficar morando ali por ter de
continuar pelo mundo em procura das outras irmãs. O rei olhou com
inveja para as botas mágicas, dizendo: - Se eu as pilhasse, iria ver
a rainha de Castela. Na hora da partida o rei deu-lhe uma escama: - Quando
estiver em apuros, pegue nesta escama e diga: Valha-me, Rei dos Peixes!
O moço agradeceu o presente e lá se foi depois de dizer à bota: - Bota,
bote-me na casa de minha segunda irmã, e imediatamente se achou
defronte de outro palácio, onde foi recebido pela segunda irmã, que
era a esposa do Rei dos Carneiros. - Meu marido logo chega por aí, a
dar marradas a torto e a direito, e você não escapa.
- Com a minha carapuça escapo, respondeu o rapaz, rindo-se. E
contou a virtude da carapuça encantada. E de fato foi assim, correndo
tudo direitinho como lá no palácio do Rei dos Peixes.

Na
hora da partida o Rei dos Carneiros disse: - Tome este fio de lã.
Quando estiver em apuros, basta que pegue nele e diga: Valha-me, rei dos
Carneiros! Em seguida, olhou com inveja para as botas mágicas. -
Se as pilhasse, iria ver a rainha de Castela.
Logo que o moço se viu na estrada, parou e disse à bota. - Bota,
bote-me em casa da minha terceira irmã, e a bota botou-o no portão
dum terceiro palácio ainda mais belo que os outros. Era ali o reino do
Rei dos Pombos, onde tudo aconteceu como no reino do Rei dos Peixes e no
reino do Rei dos Carneiros.

Foi
muito bem recebido e festejado, até que na hora da partida o Rei do
Pombos suspirou olhando para as botas, e disse: - Se eu pilhasse
essas botas, iria ver a rainha de Castela. Em seguida deu ao moço
uma pena, dizendo: - Quando estiver em apuros, pegue nesta pena e
diga: Valha-me, Rei dos Pombos!
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