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FERREIRA GULLAR |
Traduzir-se
Uma
parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte;
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
João
Boa Morte
Cabra Marcado para Morrer
Essa guerra do Nordeste
não mata quem é doutor.
Não mata dono de engenho,
só mata cabra da peste,
só mata o trabalhador.
O dono de engenho engorda,
vira logo senador.
Não faz um ano que os homens
que trabalham na fazenda
do Coronel Benedito
tiveram com ele atrito
devido ao preço da venda.
O preço do ano passado
já era baixo e no entanto
o coronel não quis dar
o novo preço ajustado.
João e seus companheiros
não gostaram da proeza:
se o novo preço não dava
para garantir a mesa,
aceitar preço mais baixo
já era muita fraqueza.
"Não vamos voltar atrás.
Precisamos de dinheiro.
Se o coronel não quer dar mais,
vendemos nosso produto
para outro fazendeiro."
Com o coronel foram ter.
Mas quando comunicaram
que a outro iam vender
o cereal que plantaram,
o coronel respondeu:
"Ainda está pra nascer
um cabra pra fazer isso.
Aquele que se atrever
pode rezar, vai morrer,
vai tomar chá de sumiço".
Madrugada
Do
fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite
a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes
Ocorrência
Aí
o homem sério entrou e disse: bom dia.
Aí outro homem sério respondeu: bom dia.
Aí a mulher séria respondeu: bom dia.
Aí a menininha no chão respondeu: bom dia.
Aí todos riram de uma vez
Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores
as paredes, o relógio, a lâmpada, o retrato, os livros
o mata-borrão, os sapatos, as gravatas, as camisas, os lenços.
Galo Galo
O
galo
no salão quieto.
Galo galo
de alarmante crista, guerreiro,
medieval.
De córneo bico e
esporões, armado
contra a morte,
passeia.
Mede os passos. Pára.
Inclina a cabeça coroada
dentro do silêncio:
-- que faço entre coisas ?
-- de que me defendo ?
Anda.
No saguão.
O cimento esquece
o seu último passo.
Galo: as penas que
florescem da carne silenciosa
e duro bico e as unhas e o olho
sem amor. Grave
solidez.
Em que se apóia
tal arquitetura ?
Saberá que, no centro
de seu corpo, um grito
se elabora ?
Como, porém, conter,
uma vez concluído,
o canto obrigatório ?
Eis que bate as asas, vai
morrer, encurva o vertiginoso pescoço
donde o canto rubro escoa
Mas a pedra, a tarde,
o próprio feroz galo
subsistem ao grito.
Vê-se: o canto é inútil.
O galo permanece - apesar
de todo o seu porte marcial -
só, desamparado,
num saguão do mundo.
Pobre ave guerreira!
Outro grito cresce
agora no sigilo
de seu corpo; grito
que, sem essas penas
e esporões e crista
e sobretudo sem esse olhar
de ódio,
não seria tão rouco
e sangrento
Grito, fruto obscuro
e extremo dessa árvore: galo.
Mas que, fora dele,
é mero complemento de auroras.
Poemas Neoconcretos I
verde verde verde
verde verde verde
verde verde verde
verde verde verde erva
Poemas Neoconcretos II
mar azul
mar azul marco azul
mar azul marco azul barco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
mar azul marco azul barco azul arco azul
ar azul
Poema Sujo
Mas na cidade havia
muita luz,
a vida
fazia rodar o século nas nuvens
sobre nossa varanda
por cima de mim e das galinhas no
quintal
por cima
do depósito onde mofavam
paneiros de farinha
atrás da quitanda,
e era pouco
viver, mesmo
no salão de bilhar, mesmo
no botequim do Castro, na pensão
da Maroca nas noites de sábado,
era pouco
banhar-se e descer a pé
para a cidade de tarde
(sob o rumor das árvores)
ali no norte do Brasil
vestido de brim.
E por ser pouco
era muito,
que pouco muito era o verde
fogo da grama, o musgo do muro, o
galo
que vai morrer,
a louça na cristaleira,
o doce na compoteira, a falta
de afeto, a busca
do amor nas coisas.
Não nas pessoas:
nas coisas, na muda carne
das coisas, na cona da flor, no
oculto
falar das águas sozinhas:
que a vida
passava por sobre nós,
de avião.
Não tem a mesma velocidade o domingo
que a sexta-feira com seu azáfama
de compras
fazendo aumentar o tráfego e o
consumo
de caldo de cana gelado,
nem tem
a mesma velocidade
a açucena e a maré
com seu exército de borbulhas e
ardentes caravelas
a penetrar soturnamente o rio
noutra lentidão que a do
crepúsculo
que, no alto,
com sua grande engrenagem
escangalhada
moía a luz.
Outra velocidade
tem Bizuza sentada no chão do quarto
a dobrar os lençóis lavados e
passados
a ferro, arrumando-os na gaveta da
cômoda, como
se a vida fosse eterna.
E era
naquele seu universo de almoços e
temperos
de folhas de louro e de
pimenta-do-reino
mastruz para tosse braba,
universo
de panelas e canseiras entre as
paredes da cozinha
dentro de um surrado vestido de
chita,
enfim,
onde batia o seu pequenino
coração.
E se não era
eterna a vida, dentro e fora do
armário,
o certo é que
tendo cada coisa uma velocidade
(a do melado escura,
clara
a da água a
derramar-se)
cada coisa se afastava
desigualmente
de sua possível eternidade.
Ou se se quer
desigualmente
a tecia
na sua própria carne escura ou
clara
num transcorrer mais profundo que
o da semana.
Por isso não é certo dizer
que é no domingo que melhor se
vê
a cidade
- as fachadas de azulejo, a
Rua do Sol vazia
as janelas trançadas no silêncio
-
quando ela
parada
parece flutuar.
E que melhor se vê uma cidade
quando - como Alcântara
todos os habitantes se foram
e nada resta deles (sequer
um espelho de aparador num
daqueles
aposentos sem teto) - se não
entre as ruínas
a persistente certeza de que
naquele chão
onde agora crescem carrapichos
eles efetivamente dançaram
(e quase se ouvem vozes
e gargalhadas
que se acendem e apagam nas
dobras da brisa)
Mas se é
espantoso pensar
como tanta coisa sumiu, tantos
guarda-roupas e camas e mucamas
tantas e tantas saias, anáguas,
sapatos dos mais variados modelos
arrastados pelo ar junto com as
nuvens,
a isso responde
a manhã
que com suas muitas e azuis
velocidades
segue em frente
alegre e sem memória
É impossível dizer
em quantas velocidades diferentes
se move uma cidade
a cada instante
(sem falar nos mortos
que voam para trás)
ou mesmo uma casa
onde a velocidade da cozinha
não é igual à da sala (aparentemente
imóvel
nos seus jarros e bibelôs de porcelana)
nem à do quintal
escancarado às ventanias da
época
e que dizer das ruas
de tráfego intenso e da circulação do
dinheiro
e das mercadorias
desigual segundo o bairro e a
classe, e da
rotação do capital
mais lenta nos legumes
mais rápida no setor industrial,
e
da rotação do sono
sob a pele,
do sonho nos cabelos?
e as tantas situações da água
nas vasilhas
(pronta a fugir)
a rotação
da mão que busca entre os
pentelhos
o sonho molhado os muitos lábios
do corpo
que ao afago se abre em rosa, a
mão
que ali se detém a sujar-se
de cheiros de mulher,
e a rotação
dos cheiros outros
que na quinta se fabricam
junto com a resina das árvores e
o canto
dos passarinhos?
Que dizer da circulação
da luz solar
arrastando-se no pó debaixo do
guarda-roupa
entre sapatos?
e da circulação
dos gatos pela casa
dos pombos pela brisa?
e cada um desses fatos numa velocidade
própria
sem falar na própria velocidade
que em cada coisa há
como os muitos
sistemas de açúcar e álcool
numa pêra
girando
todos em diferentes ritmos
(que quase se pode
ouvir)
e compondo a velocidade
geral
que a pêra é
o mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas
compõem
(nosso rosto refletido na água do
tanque)
o dia
que passa
- ou passou -
na cidade de São Luís.
E do mesmo modo
que há muitas velocidades num
só dia
e nesse mesmo dia muitos dias
assim
não se pode também dizer que o dia
tem um único centro
(feito um
caroço
ou um sol)
porque na verdade um dia
tem inumeráveis centros
como, por exemplo, o pote de água
na sala de jantar
ou na cozinha
em torno do qual
desordenadamente giram os membros da família.
E se nesse caso
é a sede a força de gravitação
outras funções metabólicas
outros centros geram
como a sentina
a cama
ou a mesa de jantar
(sob uma luz encardida numa
porta-e-janela da Rua da Alegria
na época da guerra)
sem falar nos centros cívicos, nos
centros
espíritas, no Centro Cultural
Gonçalves Dias ou nos mercados de
peixe,
colégios, igrejas e prostíbulos,
outros tantos centros do sistema
em que o dia se move
(sempre em velocidades diferentes)
sem sair do lugar.
Porque
quando todos esses sóis se
apagam
resta a cidade vazia
(como Alcântara)
no mesmo lugar.
Porque
diferentemente do sistema solar
a esses sistemas
não os sustém o sol e sim
os corpos
que em tomo dele giram:
não os sustém a mesa
mas a fome
não os sustém a cama
e sim o sono
não os sustém o banco
e sim o trabalho não pago
E essa é a razão por que
quando as pessoas se vão
(como em Alcântara)
apagam-se os sóis (os
potes, os fogões)
que delas recebiam o calor
por que em São Luís
donde as pessoas não se foram
ainda neste momento a cidade se
move
em seus muitos sistemas
e velocidades
pois quando um pote se quebra
outro pote se faz
outra jarra se faz
outro homem
se faz
para que não se extinga
o fogo
na cozinha da casa
O que eles falavam na cozinha
ou no alpendre do sobrado
(na Rua do Sol)
saía pelas janelas
se ouvia nos quartos de baixo
na casa vizinha, nos fundos da Movelaria
(e vá alguém saber
quanta coisa se fala numa cidade
quantas vozes
resvalam por esse intrincado
labirinto
de paredes e quartos e saguões,
de banheiros, de pátios, de
quintais
vozes
entre muros e plantas,
risos,
que duram um segundo e se apagam)
E são coisas vivas as
palavras
e vibram da alegria do corpo que
as gritou
têm mesmo o seu perfume, o gosto
da carne
que nunca se entrega realmente
nem na cama
senão a si mesma
à sua própria
vertigem
ou assim falando ou
rindo
no ambiente familiar
enquanto como um rato
tu podes ouvir e ver
de teu buraco
como essas vozes batem nas paredes
do pátio vazio
na armação de ferro onde seca
uma parreira
entre arames
de tarde
numa pequena cidade
latino-americana.
E nelas há
uma iluminação mortal
que é da boca
em qualquer tempo
mas que ali
na nossa casa
entre móveis baratos
e nenhuma dignidade especial
minava a própria existência.
Ríamos, é certo,
em torno da mesa de aniversário
coberta de pastilhas
de hortelã enroladas em papel de
seda colorido,
ríamos, sim,
mas
era como se nenhum afeto valesse
como se não tivesse sentido rir
numa cidade tão pequena.
O homem está na cidade
como uma coisa está em
outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade
mas variados são os modos
como uma coisa
está em outra coisa:
o homem, por exemplo, não
está na cidade
como uma árvore está
em qualquer outra
nem como uma árvore
está em qualquer uma de
suas folhas
(mesmo rolando longe dela)
O homem não está na cidade
como uma árvore está num
livro
quando um vento ali a
folheia
a cidade está no homem
mas não da mesma maneira
que um pássaro está numa árvore
não da mesma maneira que um
pássaro
(a imagem dele)
está/va na água
e nem da mesma maneira
que o susto do pássaro
está no pássaro que eu escrevo
a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa
cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma
a cidade não está no homem
do mesmo modo que em sua
quitandas praças e ruas
Um Sorriso
Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas
Quando
com o meu aceso archote e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?
No Corpo
De
que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.