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FRANCISCA JÚLIA |
Paisagem
Dorme
sob o silêncio o parque. Com descanso,
Aos haustos, aspirando o finíssimo extrato
Que evapora a verdura e que deleita o olfato,
Pelas alas sem fim da árvores avanço.
Ao fundo do pomar, entre folhas, abstrato
Em cismas, tristemente, um alvíssimo ganso
Escorrega de manso, escorrega de manso
Pelo claro cristal do límpido regato.
Nenhuma ave sequer, sobre a macia alfombra,
Pousa. Tudo deserto. Aos poucos escurece
A campina, a rechã sob a noturna sombra.
E enquanto o ganso vai, abstrato em cismas, pelas
Selvas a dentro entrando, a noite desce, desce...
E espalham-se no céu camandulas de estrelas...
Carlos Gomes
Essa
que plange, que soluça e pensa,
Amorosa e febril, tímida e casta,
Lira que raiva, lira que devasta,
E que dos próprios sons vive suspensa.
Guarda nas costas uma escala imensa,
Que, quando rompe, espaço fora, arrasta
Ora do mar as queixas ora a vasta
Sussurração de uma floresta densa.
Ei-la muda, mas tal intensidade
Teve a música enorme do seu choro
O dilúvio orquestral dos seus lamentos.
Que muda assim, rotas as cordas há de
Para sempre vibrar o eco sonoro
Que sua alma lançou aos quatro ventos.
À Noite
Eis-me
a pensar, enquanto a noite envolve a terra,
olhos fitos no vácuo, a amiga pena em pouso.
Eis-me, pois a pensar... De antro em antro, de serra
em serra, ecoa, longo, um requiem doloroso.
No alto uma estrela triste as pálpebras descerra,
lançando, noite dentro, o claro olhar piedoso.
A alma das sombras dorme; e pelos ares erra
um mórbido langor de calma e de repouso...
Em noite assim, de repouso e de calma,
é que a alma vive e a dor exulta, ambas unidas,
a alma cheia de dor, a dor cheia de alma...
É que a alma se abandona ao sabor dos enganos,
antegozando já quimeras pressentidas
que mais tarde hão de vir com o decorrer dos anos
Noturno
Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo
funéreo
Se arrasta em direção ao negro
cemitério...
À frente, um vulto agita a caçoula do
incenso.
E o cortejo caminha. Os cantos do
saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede
suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao
lenço;
Chora no ar o rumor de misticismo
aéreo.
Uma ave canta; o vento acorda. A
ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da
lua...
Uma estrige soluça; a folhagem
farfalha.
E enquanto paira no ar esse rumor das
calmas
Noites, acima dele em silêncio, flutua
O lausperene mudo e súplice das almas.
Anfitrite
Louco,
às doudas, roncando, em látegos, ufano,
O vento o seu furor colérico passeia...
Enruga e torce o manto à prateada areia
Da praia, zune no ar, encarapela o oceano.
A seus uivos, o mar chora o seu pranto insano,
Grita, ulula, revolto, e o largo dorso arqueia;
Perdida ao longe, como um pássaro que anseia,
Alva e esguia, uma nau avança a todo o pano.
Sossega o vento; cala o oceano a sua mágoa;
Surge, esplêndida, e vem, envolta em áurea bruma,
Anfitrite, e, a sorrir, nadando à tona d'água,
Lá vai... mostrando à luz suas formas redondas,
Sua clara nudez salpicada de espuma,
Deslizando no glauco amículo das ondas.
Ângelus
Desmaia
a tarde. Além, pouco e pouco, no poente,
O sol, rei fatigado, em seu leito adormece:
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece
Do Ângelus ao soluço agoniado e plangente.
Salmos cheios de dor, impregnados de prece,
Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente.
E enquanto o vento chora e o crepúsculo desce,
A ave-maria vai cantando, tristemente.
Nest'hora, muita vez, em que fala a saudade
Pela boca da noite e pelo som que passa,
Lausperene de amor cuja mágoa me invade,
Quisera ser o som, ser a noite, ébria e douda
De trevas, o silêncio, esta nuvem que esvoaça,
Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda.
Musa Impassível
I
Musa!
um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.
Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.
Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;
Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.
II
Ó
Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.
Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.
Transporta-me de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,
E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.
Rústica
Da
casinha, em que vive, o reboco alvacento
Reflete o ribeirão na água clara e sonora.
Este é o ninho feliz e obscuro em que ela mora;
Além, o seu quintal, este, o seu aposento.
Vem do campo, a correr; e úmida do relento,
Toda ela, fresca do ar, tanto aroma evapora
Que parece trazer consigo, lá de fora,
Na desordem da roupa e do cabelo, o vento...
E senta-se. Compõe as roupas. Olha em torno
Com seus olhos azuis onde a inocência bóia;
Nessa meia penumbra e nesse ambiente morno,
Pegando da costura à luz da clarabóia,
Põe na ponta do dedo em feitio de adorno,
O seu lindo dedal com pretensão de jóia.
Sonho Africano
Ei-lo
em sua choupana. A lâmpada, suspensa
Ao teto, oscila; a um canto, um velho e ervado fimbo;
Entrando, porta dentro, o sol forma-lhe um nimbo
Cor de cinábrio em torno à carapinha densa.
Estira-se no chão... Tanta fadiga e doença!
Espreguiça, boceja... O apagado cachimbo
Na boca, nessa meia escuridão de limbo,
Mole, semicerrando os dúbios olhos, pensa...
Pensa na pátria, além... As florestas gigantes
Se estendem sob o azul, onde, cheios de mágoa,
Vivem negros reptis e enormes elefantes...
Calma em tudo. Dardeja o sol raios tranquilos...
Desce um rio, a cantar... Coalham-se à tona d'água
Em compacto apertão, os velhos crocodilos...
Voz dos Animais
-
O peru, em meio à bulha
De outras aves em concerto,
Como faz, de leque aberto?
- Grulha.
- Como faz o pinto, em dia
De chuva, quando se interna
Debaixo da asa materna?
- Pia.
- Enquanto alegre passeia
Girando em torno do ninho,
Como faz o passarinho?
- Gorjeia.
(...)
- Quando a galinha deseja
Chamar os pintos que aninha,
Como é que faz a galinha?
- Cacareja.
- A rã, quando a noite baixa,
Que faz ela a toda hora
Dentre os limos em que mora?
- Coaxa.
(...)
- Que faz o gato, que espia
Uma terrina de sopa
Que fumega sobre a copa?
- Mia.
(...)
- Cheia a boca da babuge
Do milho bom que rumina,
Que faz o boi na campina?
- Muge.
(...)
- A voz tremida do grilo
Que vive oculto na grama,
A trilar, como se chama?
- Trilo.
Mas, escravos das paixões
Que os fazem bons ou ferozes,
Os homens têm suas vozes
Conforme as ocasiões.