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HAROLDO DE CAMPOS |
Soneto de Bodas
Luar
de copas e marfins renhidos
Tua nudez a riste contra o mar.
Violetas roucas sobre os teus soluços.
E rosas tênues e papoulas de ar.
Um novo deus conjura os vaticínios,
E eu sorvo o mês, em taças, contra o mar,
Tua nudez orçada em meus espelhos,
E rosas tênues e papoulas de ar.
Quem te ensinara o diapasão das noivas
Embevecido em lírios de ninar?
Ó Bem-Amada, quem te apascentara
Nos mansos trigais desse apascentar?
Plumas de outono para as tuas bodas
Que defloresces nos porões do mar.
Rima Petrosa - 1
uma
bruteza
límpida
que em nada se detém
uma crueza
lâmina
que se apaga em ninguém
uma lindeza
nítida
que a si mesma sustém
uma ingênua fereza
feita só de desdém
uma dura candura
que nem loba que nem
uma beleza absurda
sem porquê nem porém
um negar-se tão rente
que soa um shamisen
uma causa perdida
um não vem que não tem
hieróglifo para mario schoenberg
o olhar transfinito do mário
nos ensina
a ponderar melhor a indecifrada
equação cósmica
cinzazul
semicerrando verdes
esse olhar
nos incita a tomar o sereno
pulso das coisas
a auscultar
o ritmo micro -
macrológico da matéria
a aceitar
o spavento della materia (ungaretti)
onde kant viu a cintilante lei das
estrelas
projetar-se no céu interno da ética
na estante de mário
física e poesia coexistem
como asas de um pássaro -
espaço curvo -
colhidas pela têmpera absoluta de volpi
seu marxismo zen
é dialético
e dialógico
e deixa ver que a sabedoria
pode ser tocável como uma planta
que cresce das raízes e deita folhas
e viça
e logo se resolve numa flor de lótus
de onde
- só visível quando damos conta -
um bodisatva nos dirige seu olhar
transfinito.
Se
se
nasce
morre nasce
morre nasce morre
renasce
remorre renasce
remorre renasce
remorre
re
re
desnasce
desmorre desnasce
desmorre desnasce desmorre
nascemorrenasce
morrenasce
morre
se
2000
os
portais do terceiro milênio
(do vestíbulo
do)
rodam sobre seus rodízios de três zeros
acoplados em c a u d a de cometa
a um dois redondo
rodam os signos do zodíaco
atiçando a cósmica
esfagulhante
tocha augural
o princípio-esperança
pilastra esquerda do portal
e a moura-desespero
pilastra à direita
sustentam ambas
(discordante concórdia)
os portões que rangem
sobre os três
zeros esféricos
onde o sûnya o
vazio búdico
esbranca
como olho de águia
absorto em redondos
plenissóis:
o olho e o astro
se contrespelham
um dois brônzeo
dupla garra de gonzos
articula os portais
enquanto os rodízios cantam
a música plangente dos batentes
que se entreabrem
no engaste dobradiço
dos quícios bronzefúlgidos
o anjo-esperança
e a gárgula-desespero
se confrontam
no aprazado convergir do
calendário
ao longo do estepário
do futuro que se entre-
mostra vaziopleno de latentes
acasos
o anjo e a gárgula se defrontam
do mais fundo
dos séculos a voz do sábio melancólico
soa ainda
ressoa
ainda
como antes
no entrecéu do porvir
que sibila seu enigma:
a voz velha do sabedor-
-das-coisas repete
seu refrão que o trânsito
das centúrias só fez
confirmar como caixa-
-de ecos:
"e eu me voltei
eu / e vi /
toda a opressão //
que é feita / sob o
sol ///
e eis o choro dos oprimidos /
e não há para eles / conforto //
e da mão que os oprime /
força //
e não há para eles /
conforto"
o anjo-esperança recua
em sua armadura de diamante
a gárgula-desespero jubila
no seu gótico esqueleto de pedra
: "aquilo que já foi /
é aquilo que será //
e aquilo que será //
e aquilo que foi feito //
aquilo /
se fará ///
e não há nada de novo /
sob o sol" -
prossegue o-que-sabe
por entre as névoas
do nada
o arcanjo-esperança
tomado de sagrado
furor
flameja sua espada
multicentelhante
e rasga um claro
no ob-
nubilado
horizonte onde
se engendra o
f u t u r o
a gárgula guincha
no seu nicho de pedra -
na lâmina
coruscante do gládio lê-se
cravejado em estrelas :
"a esperança existe
por causa dos desesperados"
Provença : Motz e L. Son
contra
uma luz
sem falha
o olho
se esmeralda
o olho
(contra uma luz
sem falha)
se esmigalha
o olho de esmeralda
à luz: migalha
(que esmigalha)
e concrescia a luz
som de cigarra
Nosferatu: Nós / Torquato
putresco
putresco
putresco
torquato: teus últimos dias de paupéria me
vermicegos enrolam a substância da treva
vampiros cefalâmpados
(disse)
mas agora put
resco
put
(horresco
referens)
resco
sco
sc
o
Transideração
Ungaretti
Conversa com Leopardi
Um
leão: ruivando arde -
na voz do leão - Leopardi
(céu noturno em Recanati)
virando constelação:
Odi, Melisso... E o leão
resgata a um fausto de estrelas
caídas, a lua jamais cadente
e a Ursa, magas centelhas.
Depois, o leão (a Leopardi
tendo dado o que lhe cabe)
passa a medir o infinito
ou desmedi-lo: ao longe
daquela estrela (tão longe)
ao longe daquela estrela.