HERCULANO MORAIS

Cantigas de Minha Terra  

Um dia nós exportamos
milhares de marruás.
O gado manso tangido pelos sertões
de vastos carnaubais

No lombilho do jumento
ou sobre os trilhos de aço,
a cera de carnaúba
desenvolvia o progresso.

Bendito tempo de glória...
Dentro dos sacos de açúcar
o coco de babaçu teve parte na história..

Ciclo bendito da riqueza brasileira,
velho tempo de fartura contado por meus avós.
— Pra nossos netos, Socorro,
que lembrança teremos nós?

 

O Rio de minha Terra

O rio de minha terra é um deus estranho.
Ele tem braços, dentes, corpo, coração,
muitas vezes homicida,
foi ele quem levou o meu irmão.

É muito calmo o rio de minha terra.
Suas águas são feitas de argila e de mistérios.
Nas solidões das noites enluaradas
a maldição de Crispim desce
sobre as águas encrespadas.

O rio de minha terra é um deus estranho.
Um dia ele deixou o monótono caminhar de corpo mole
para subir as poucas rampas do seu cais.
Foi conhecendo o movimento da cidade,
a pobreza residente nas taperas marginais.

Pois tão irado e tão potente fez-se o rio
que todo um povo se juntou para enfrentá-lo.
Mas ele prosseguiu indiferente,
;carregando no seu dorso bois e gente,
até roçados de arroz e de feijão.

Na sua obstinada e galopante caminhada,
destruiu paredes, casas, barricadas,
deixando no percurso mágoa e dor.
Depois subiu os degraus da igreja santa
e postou-se horas sob os pés do Criador.

E desceu devagarinho, até deitar-se
novamente no seu leito.
Mas toda noite o seu olhar de rio
fica boiando sob as luzes da cidade.

 

A Canga-o Boi

A canga e o boi
na alternância
de quem soluça
um tempo imaginário.
A canga e o boi
vaga lembrança
de um mundo
sempiterno e vário.
A canga e o boi
legenda esmaecida
na face opaca
de um tempo sem medida.
A canga e o boi
gravura como (vida)
filete sanguíneo na face
da memória... diluída.
A canga...
O boi...
Os sulcos perenes,
de rodas ringindo
na pele do tempo.
A canga...
E o boi?

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