HILNÉ COSTA LIMA

Evidências

Muralhas intransponíveis
que anulam perspectivas.
Por toda parte, biombos que separam
e tapumes que abafam a voz.

O encontro é difícil,
a vida incompleta.
resta amordaçar o coração,
racionalizar o sentimento
e despejar-se do alto
na incerteza do desconhecido.

 

Valeu a pena

Eu plantei roseira mas não tive tempo
de colher as rosas.
Namorei os pássaros mas não me deixaram
escutar seu canto.
Cheia de ilusões eu semeei sonhos.
Só colhi saudades...

Caminhei ao léu e cobri de pó
a minha alma inteira.
Cultivei paixões, amarguei seus frutos,
masa valeu a pena.

Eu deixarei filhos - único tesouro -
e alguns rabiscos que escrevi chorando.
Valeu a pena.
Valeu.

 

Pretéritos

Fui lírio intacto que despetalaste.
Servi de imagem para conheceres
Toda a beleza de um ser desabrochando.
Fui brisa mansa que te fez carícias,
Fui sombra amiga, mitiguei-te enfados.
Fui tempestade, sacudi-te a alma,
E fui bonança que aplacou procelas.

Fui fortaleza nas vacilações,
Fui débil caule que se curva ao vento,
Dei-te calor nas madrugadas frias,
Dei-te alegrias, afastei-te as lágrimas.
Fui terra fértil que engravida e pare,

 Fui milagreira, eu fecundei vidas.
Fui mar tranquilo em que navegaste,
Fui porto certo, esperei regressos.
Fui estiagem, evitei torrentes,
Em céu nublado eu fui sol teimoso,
Te abri clareiras, deslindei caminhos,
Servi de escudo contra desatinos.

Fui grão de areia, para seres praia,
Fui pigmeu, para te fazer gigante,
E fui vassala, para seres rei.
Eu fui norte, fui sul e fui fronteira,
Servi de passadiço, bússola e farol.
 Fui perdulária - esbanjei afeto,
Fui peregrina do amor, inutilmente.

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