HOMERO HOMEM

Círculo De Giz

Por algumas mulheres transitei.
Mas em nenhuma, juro, me detive.
Filha de Catanduva, de Ninive,
atendesse por Ângela ou Maria,

Como não as amava, consolei
em versiprosa que nada dizia.
Mas a você que, eu afinal, amei,
me reflori e me tornei converso,
a você que eu amei e multiamei,
sonhei dar muito mais que amor em verso.

Duas vezes apenas me flori
na estação do amor. Círculo de giz
maravilhado, então, eu aprendi
que o verso é inútil quando se é feliz
e o poema só deflagra seus sinais
quando um dos dois murmura: "Não dá mais"

Adaga ardente que me crava o dia,
penetra o sono, fere o coração,
compreende agora, meu amor, porque
tremia tanto que, por minha mão,
florisse em verso triste a dor tardia
eterna e inútil dessa confissão.

 

Cidade do Natal

 A praia com sua saia
 De cambraia.
 A cidade no seu platô de vento.
 O verão com seu calção
 De brisa.
Natal à noite:
Marquisa iluminada
Pelos refletores dos Reis Magos
E o Farol da Mãe Luiza.

 

Conversa de Cangaceiros a Cavalo no Dia em que atacaram Mossoró

1.º Comunicado

Mossoró foi trinado de riqueza.
É canário de chama no alçapão.

2.º Comunicado

Mossoró não aguenta meia hora
De fogo. Já está sem munição.

3.º Comunicado

Mossoró, sua fama de Princesa
Do Oeste, tá no chão, meu capitão.

Último comunicado

Vambora, gente, o dia não foi bom.
Foi besteira esse ataque a Mossoró.
Não se ataca cidade com igreja
De mais de uma torre, Massilon.

Passo

De mica, luz e vento
O sol  fez meu cavalo.
De espinho de vereda
A terra me gerou.

Meu corpo, da moleira
Ao peito de gibão
Trançado a cartucheira;
O encarnado do lenço

Fechado com argolão,
As pernas de perneiras,
O chapéu estrelado
De sinos Salomão;

Das minhas apragatas
Ao loro de meu baio
Com suas sete marchas
E seu bridão de prata,

Foi meu Padrinho Cícero
Quem benzeu, quem fechou
Meu corpo e seu avesso
Quando me batizou.

Chouto

 Arriba do barbicacho
O sol tiniu de raios
De escamas de piau
E de malacacheta
A luz de meu chapéu
De couro de vaqueta.

Seca, riscar da espora
De roseta do Cão
No vazio da terra,
Encheu o meu bornal
Com um farnel de fuga.

Crivou, cravou de botes
De cascavel e agulhas
Do espinho - gravatá,
Jarrête e mocotó,
Meu jeito de pisar.
Calo duro de andar,
Prego encravado
Na croa de meu pé, cacto de espinho
Mal fechou, necessidade velha
Do homem com seu frio,
Mal choveu,
Tomou meu cobertor, deu ao vizinho.

A injustiça do pasto  para o gado
Fez o resto. Pegou o boi com fome,
Sua cria soltou no meu roçado.

Baixo

Minha escola rural
Foi o serrote. Meu professor
A onça.
Adispois, minha escola normal
Foi um mundéu
Para prear lagarto.

Na feira de propriá, pequetitinho,
Um ladrão de cavalo afanou
Minha primeira e derradeira festa:
Meu carneirinho mocho, de montar.

Como a desgraça, feito arribaçã
Não vem sozinha, mas avoa em bando,
Num fobó puxado a falta de arrespeito
Um cassaco fez mal à minha irmã.

Chapinhando no sangue, forra gêmea
Da que tingiu a saia de morim
Da mana, tirou-a da boneca e
Dos cuidados da casa e do roçado,

O fio fino da faca de ponta
Saiu do cós das calças. Seu recado
De rocega em arraia de menino,
Cortou o céu dos meus quatorze anos.
Caiu no chão os bagos do capado.

Galope - em cima-da-mão

Ai saudade que vadeia,
Ai gemeção da viola.
Grade de tua cadeia
É feita de pau que bóia.
A porta de baraúna
Amarrada com virola.

Ai caminho de Buíque,
Rodagem de Piancó.
Trilha que leva a coiteiro,
Também passa em Mossoró,
Cidade de sete igrejas,
Cada qual com sete torres

Velhas como minha Vó
Um rio de quatro pontes
Feitas de libra esterlina
Com água salobra e doce
Para lavar meu cavalo
E vau de dar na cintura.

Nascendo dos sete olhos
D'água, cunhetes de bala
E garajaus de fartura.

Galope - alto

Ai volante do crime que galopa
Pela caatinga, rumo a Mossoró.
Essa carga de seca na garupa
Com seu tropel humano de malfeito
Que arranca do lajedo cavo som
Batizado Colchete, Jararaca,
Virgulino, Sabino, Massilon,
É rodilha de cobra misturada
Com preazinho vivo, palpitante.
Caídos, todos dois, na cova em brasa
Da terra com sua fome e seu quixó.

Galope - em cima-da-mão

Mossoró de mororós,
Cidade de sete igrejas,
Cada qual com sete torres,
Um rio de quatro pontes.
Mossoró de mororós,
Trilhas de vinte quilates,
Rodagem de vinte mil contos.

Galope - alto

Nasci - cresci parido pelo mato.
Meu principal brinquedo foi assar
Sodoro, quebrar coco-catolé.
Vesti roupa feita de saco de farinha.
Nunca senti na prancha do meu pé
A comichão gostosa, a pisadura
Engraxada e maneira da botina.
Minha ponta da língua cresceu virgem
Do gosto chique do queijo de coalho,
Da paçoca de carne, do azedinho
Da umbuzada com leite de turina.

Meu embornal de guerra e de comida,
Munição fria, me arrepuna as tripas.
As cartucheiras, duas, encruzadas
Como ferro de gado, traves tronchas
De um cruzeiro coalhado de romeiros,
Rebrilham como velas de promessa.

Minha primeira arma de defesa
Foi um canivete Aço Corneta.
Em caiçara do Rio do Vento,
Numa encrenca de porteira da Fazenda
Cortei até a munheca dizer Chega!

Adispôs, num joguinho de bozó
Ganhei a lazarina.
Seu primeiro papoco,
Coice de cavalo
Cruzado com jumenta,
Me jogou em riba de um mororó de cerca.
Lasquei o mororó e o pau da venta.
O segundo papoco foi aposta.
Um tiro a doze braças da caveira
Duma rês, espetada numa estaca.
Errei. Acertei num vira-bosta.

Fui menino mofino. Falei tarde.
Não tive poço d'água, nem mergulho,
Nem o perfume, nem a boniteza
Do mufumbo florido na barranca,
Nem baronesa engrinaldando o rio.
Nem o pau-darco, nem a oiticica
Em seu chapéu de altura me assubiu.
Leite, nem de peito de mãe,
Nem de jumenta.
Só o perfume do pereiro branco
Me entrou, infância adentro, pela venta.
De meu tive dois paus pra minha rede.
Me fiz duro serrote entre lajedos.
Nem corgo nem cacimbas merejaram
Minha borracha d'água e minha sede.

Nem levei bolo, nem matei charada
Do a-e-i-o-u, na carta de ABC.
Meu desasnar foi trabalhar de enxada,
Pegar a cascavel, tirar o guiso,
Saltar pra riba
Evitando o bote,
Como o casal de carcará, nos ares,
Ajuda o homem na limpa do chão.

Maradonava

No jirau do quintal, ouvindo bufo
E bramido de onça, sentindo o bafo
Quente da sua fome fresca, no panasco
Ajantarando bofe de marrã.
Acordava com o miar de sua sede
Encarnada, como o capucho da manhã,
Pedindo pote e meio do meu sangue.

Safadeza do mundo conheci
Dês que cai da rede, engatinhei.
Deitei com mulher-dama, engaliquei
jumenta.
Sarei com benzedura e garrafada.

Ai rebordosa, voltas desse mundo.
"Criança",
Mal dei baixa dos cueiros, entrei no bando,
Ganhei esse apelido.
Meu batismo de fogo, em Petrolina
Rendeu um polvaril, dois queijos do sertão
Um cornimboque com tampo amarelo,
Um cunhete de bala e um parabelo.

Carreira

Mossoró, cada janela,
A torre de São Vicente,
O muro do Cemitério,
Cada rua de trincheira,
O beiral de cada casa
É um pente - cartucheira
Vazio, recarregado
Com 100 balas de fuzil.
Tabuada que não sei,
Lição que tarde aprendi,
A bala que me derruba
Como coice de cavalo,

É aquele porco sangrando
Na Sexta de sacrifício,
Na carne para lingüiça.
É a passagem de um vau
Com duas bandas de rio.
Uma, ilha de carniça,
Alegria do urubu,
Cemitério de cavalos.

A outra,
De mulungu,
Bóia sete cangaceiros
Comidos de tapuru
No redemunho do rio.

 

Pés de Frei Damião

Em repouso, já fora das sandálias,
No estradinho com fronha e travesseiro
Os pés de Frei Damião são retirantes
Arranchados à sombra do ingazeiro.
Revestidos de pó e couro cru,
Palmilharam caatingas, arruados,
Serrotes do sertão, adros de fé,
Santas Missões de ex-votos e esconjuro.

Os pés de Frei Damião sem as palmilhas
São ilhas de repouso merecidas,
Varandas brancas, redes de dormir,
Alpendres sertanejos, velhos pousos.

No estradinho , libertos das sandálias
Os pés de Frei Damião soltos no pasto
na madorna
São dois jumentos livres da cangalha.

Os pés de Frei Damião no tabuleiro
São ovelhas senis. Alvas marrãs
De pêlo penteado a carrapicho,
Já deram carne tenra e branca lã.

Rudes pés de aliança tão antigas...
Viram sóis e luares, seus colapsos.
Guiaram pelos céus as avoantes
Das bênçãos, confissões, apocalipses.

Os pés de Damião, velhas rodagens
Transportaram volantes de socorro
A fazendas e sítios, cariris,
Grotas de solidão, abas de morro.

Carmelitas Capuchos Franciscanos,
Gerações de famílias caminheiras
E de avoengos Adões espirituais
Dormem nos cemitérios desses pés.

Os pés de Frei Damião são como a obra
Da ema correndo pelo descampado,
Preparando o sertão para o inverno,
Limpando várzeas e comendo cobras.

Despidos das sandálias, no banquinho
Os pés de Frei Damião, velhos vaqueiros
Conduziram rebanhos bem guardados
Pelas trilhas de aboio e cangaceiro.

Pias de carne e osso, velhas plantas
De amor e fé em Deus itinerante,
São água-benta, potes de matar
A sede espiritual do retirante.

Espantalho do Cão com suas tretas
Os pés lavados de Frei Damião
São loções de limpeza e de esconjuro
Vertidas na moleira do Capeta.

Já fora da bainha das sandálias
Os pés exaustos de Frei Damião
São ainda punhais, santas peixeiras
Cravadas no vazio do Bandalha.

Onde não chega a luz da Prefeitura
Nem o luar a gás dos candeeiros,
As plantas de Damião em terra escura
Deram safras de velas nos Cruzeiros.

Trilha agreste de cacto e xiquexique,
Via Sistina no sertão dos rudes,
Os pés de Frei Damião com as alparcas
São aguadas, marrecas nos açudes.
Do cafundó à costa das salinas,
Nos carneiros e lousas desses pés
dormem as velhas gerações meninas
De um Brasil de apragatas e buréis.

Chão de mocó e vale da caiana,
As solas de Damião no massapé
Cresceram como partidos de cana,
Deram o de vestir e o de comer.

Os pés dormentes de Frei Damião
São velhos alquebrados; são os cacos
Das moringas, já secas, dos cassacos,
Espalhados e inúteis pelo chão.

Os pés de Frei Damião já foram bilros
Tecendo renda fina de almofada
Pela mão das rendeiras. Alugados
Preparando leirões com as enxadas.

Os pés de Frei Damião são horizontes
De arribaçãs voando em formação,
Tesouras recortando vento Leste,
Asas do agreste, pios do sertão.

Os pés de Frei Damião são caritós
Filhas da Imaculada Conceição,
Enfeitando presépios de Natal,
Ensaiando lapinhas de São João.

Os pés de Frei Damião são camorins
Desovados na calma das gamboas,
Guiando seu cardume de filhotes
Pelas bocas do mar, rumo ao Sem-Fim.

Arca da boca apenas com dois sisos,
Os pés de Damião são Lázaros velhos
Vestidos de silêncio, já chegados
À casa do Senhor, para o Juízo.
Sem o porém das meias e o conforto
Das sandálias de couro de carneiro,
Os pés de Frei Damião são sesmarias,
Horto dos simples, porto do romeiro.

Carregados das marcas e dos selos
Das topadas e lanhos recebidos
No serviço de Deus; e da carícia
Dos ungüentos dos dias percorridos,

Filhos já velhos de Nosso Senhor
Na modéstia infinita do cansaço,
Os pés de Frei Damião adormecido,
No tabuleiro caminham no andor.

 

O Pescador e o Vento

Numa canoa de sol
A manhã me faz ao largo.
À noite tiro meu peixe.
Um pargo.
Moreia Sete Dentadas
Cortantes como rocega
Vento Nordeste, na volta
Me pega.
Ostra da arrebentação,
Me lanha a tábua do queixo,
Crava dente, tira bife
Na gengiva do arrecife.
Vento filho de uma grota,
Como uiva.
Aracati de uma figa,
Como briga.
No Pontal do Sirigado
Com seu chicote queimado
Me surra.

Na Croa da Água Bela
Com seu anzol de barbela
Me fisga.
"Desgraçado, toma umas
& outras, morre a teu gosto"
Sopra o terral no seu buso
Em agosto.
"Dente ciso cariado,
Cera do Dr. Lustosa,
Japona, chapéu de palha,
Talagada de aguardente
Com siri de tira-gosto,
Tudo isso é bom encosto"
Sudeste, vento aloprado.
Desarruma qualquer rota.
Dá nó na barba do mar,
Entorta vôo de gaivota.
Vento ruim, bandoleiro,
Sobrosso de terra e costa.
Na Praia do Cotovelo,
Já sem força no revólver
Dispara bala de vento.
O tiro bate no ar,
Ricocheteia na Lua,
No relento se dissolve.
Na Ponta da Pedra Lisa
Já de porre,
Vira brisa, assovia
Lento, morre.
Numa rede de cem braças,
Velha
E suja,
Fedendo a mijo de arraia,
Debaixo do cajueiro
como qualquer um de nós
Se enterra o Vento
Na praia.

 

 

 

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