HUMBERTO DE CAMPOS

Miritiba

É o que me lembra: uma soturna vila
olhando um rio sem vapor nem ponte.
Na água salobra, a canoada em fila...
Grandes redes ao sol, mangais defronte...

De um lado e de outro, fecha-se o horizonte...
Duas ruas somente... a água tranqüila...
Botos no prea-mar... A igreja... A fonte
e as grandes dunas claras onde o sol cintila.

Eu, com seis anos, não reflito, ou penso.
Põem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
minha mãe, pela noite, agita um lenço...

Ao vir do sol, a água do mar se alteia.
Range o mastro... Depois... só me recordo
deste doido lutar por terra alheia!

 

Nirvana

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
sem amor, sem anseios, sem carinhos...
Livre de angústias e felicidades,
deixando pelo chão rosas e espinhos.

Poder viver em todas as idades;
poder andar por todos os caminhos,
indiferente ao bem e às falsidades,
confundindo chacais e passarinhos...

Passear pela terra, e achar tristonho
tudo que em torno se vê, nela espalhado.
A vida olhar como através de um sonho.

Chegar onde eu cheguei... subir à altura
onde agora me encontro - é ter chegado
aos extremos da Paz e da Ventura!

 

Retrospecto

Vinte e seis anos, trinta amores: trinta
vezes a alma de sonhos fatigada.
E, ao fim de tudo, como ao fim de cada
amor, a alma de amor sempre faminta!

Ó mocidade que foges! brada
aos meus ouvidos teu futuro, e pinta
aos meus olhos mortais, com toda a tinta,
os remorsos da vida dissipada!

Derramo os olhos por mim mesmo... E, nesta
muda consulta ao coração cansado,
que é que vejo? que sinto? que me resta?

Nada: ao fim do caminho percorrido,
o ódio de trinta vezes ter jurado
e o horror de trinta vezes ter mentido!

 

Beatriz

     Bandeirante a sonhar com pedrarias
     Com tesouros e minas fabulosas,
     Do amor entrei, por ínvias e sombrias
     Estradas, as florestas tenebrosas.

     Tive sonhos de louco, à Fernão Dias...
     Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas
     Selvas, o outro encontrei, e o ônix, e as frias
     Turquesas, e esmeraldas luminosas...

     E por eles passei.  Vivi sete anos
     Na floresta sem fim.  Senti ressábios
     De amarguras, de dor, de desenganos.

     Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,
     Com o rubi palpitante dos seus lábios
     E os dois grandes topázios dos seus olhos!

 

Dor

"Há de ser uma estrada de amarguras
a tua vida. E andá-la-ás sozinho,
vendo sempre fugir o que procuras
disse-me um dia um pálido advinho.

"No entanto, sempre hás de cantar venturas
que jamais encontraste... O teu caminho,
dirás que é cheio de alegrias puras,
de horas boas, de beijos, de carinho..."

E assim tem sido... Escondo os meus lamentos:
É meu destino suportar sorrindo
as desventuras e os padecimentos.

E no mundo hei de andar, neste desgosto,
a mentir  ao meu íntimo, cobrindo
os sinais destas lágrimas no rosto!

 

Pero Coelho
(Descobridor do Ceará)

Na umidade do cárcere de Olinda
- Enjaulado jaguar que a vida acaba
Lembrando a selva rumorosa e linda -
Sonha o conquistador da Ibiapaba.

O sonho é o resto da jornada: é a vinda;
E a morte; é a sede; é o desespero; a taba
Toda investindo.  A terra em fogo.  Um baba;
Outro cai; outro fica; outro se finda...

Dois filhos morrem nos seus braços: vede!
E nem, sequer, irmão de Agar, tem perto,
Nos olhos água que lhes mate a sede!

E, ao fim de tudo, acusações e gritas...
Ah! por que não tombara no Deserto
Abraçado com os seus israelitas!?...

 

Semente do Deserto

No alto sertão da minha terra
Cai, misteriosa, uma semente
Que a outras sementes move guerra.

onde ela nasce, de repente,
- Seara de mão cruel e ignota -
A relva murcha, suavemente.

E nas planícies onde brota,
E onde nem sempre é conhecida,
Toda a campina se desbota...

(Semente bárbara e remota,
Quem te semeou na minha vida?)

 

Poeira...

Poeira leve, a vibrar as moléculas: poeira
Que um pobre sonhador, à luz da Arte, risonho,
Busca fazer faiscar: pó, que se ergue à carreira
Do Mazepa do Amor pela estepe do Sonho.

Para ver-te subir, voar da crosta rasteira
Da terra, a trabalhar, todas as forças ponho:
E a seguir teu destino, enlevada, a alma inteira
O teu ciclo fará, seja suave ou tristonho.

Não irás, com certeza, alto ou distante. O insano
Pó não és que, a turvar o céu claro da Itália,
Traz o vento, a bramir, do Deserto africano:

Que és o humílimo pó duma estrada sem povo,
Que, pisado uma vez, pelo ambiente se espalha,
Sente um raio de Sol, cai na terra de novo.

 

Tempestade Amazônica

O calor asfixia e o ar escurece. O rio,
Quieto, não tem uma onda. Os insetos na mata
Zumbem tontos de medo. E o pássaro, o sombrio
Da floresta procura, onde a chuva não bata.

Súbito, o raio estala. O vento zune. Um frio
De terror tudo invade... E o temporal desata
As peias pelo espaço e, bufando, bravio,
O arvoredo retorce e as folhas arrebata.

O anoso buriti curva a copa, e farfalha.
Aves rodam no céu, num estéril esforço,
Entre nuvens de folha e fragmentos de palha.

No alto o trovão repousa e em baixo a mata brama.
Ruge em meio a amplidão. Das nuvens pelo dorso
Correm serpes de fogo. E a chuva se derrama...

 

O Irapuru

Dizem que o irapuru, quando desata
A voz - Orfeu do seringal tranqüilo -
O passaredo, rápido, a segui-lo,
Em derredor agrupa-se na mata.

Quando o canto, veloz, muda em cascata,
Tudo se queda, comovido, a ouvi-lo:
O canoro sabiá susta a sonata,
O canário sutil cessa o pipilo.

Eu próprio sei quanto esse canto é suave;
O que, porém, me faz cismar bem fundo
Não é, por si, o alto poder dessa ave:

O que mais no fenômeno me espanta,
É ainda existir um pássaro no mundo
Que se fique a escutar quando outro canta!

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