OLAVO BILAC

Velhas Árvores

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas;
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem;

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

 

Via Láctea

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi , no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi :"Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

 

O Incêndio de Roma

Raiva o incêndio. A ruir, soltas, desconjuntadas,
As muralhas de pedra, o espaço adormecido
De eco em eco acordando ao medonho estampido,
Como a um sopro fatal, rolam esfaceladas.

E os templos, os museus, o Capitólio erguido
Em mármor frígio, o Foro, as eretas arcadas
Dos aquedutos, tudo as garras inflamadas
Do incêndio cingem, tudo esbroa-se partido.

Longe, reverberando o clarão purpurino,
Arde em chamas o Tibre e acende-se o horizonte...
- Impassível, porém, no alto do Palatino,

Nero, com o manto negro ondeando ao ombro, assoma
Entre os libertos, e ébrio, engrinaldada a fronte,
Lira em punho, celebra a destruição de Roma.

 

Beethoven Surdo

Surdo, na universal indiferença, um dia,
Beethoven, levantando um desvairado apelo,
Sentiu a terra e o mar num mudo pesadelo...
E o seu mundo interior cantava e restrugia.

Torvo o gesto, perdido o olhar, hirto o cabelo,
Viu, sobre a orquestração que no seu crânio havia,
Os astros em torpor na imensidade fria,
O ar e os ventos sem voz, a natureza em gelo.

Era o nada, a eversão do caos no cataclismo,
A síncope do som no páramo profundo,
O silêncio, a algidez, o vácuo, o horror no abismo...

E Beethoven, no seu supremo desconforto,
Velho e pobre, caiu, como um deus moribundo,
Lançando a maldição sobre o universo morto!

 

Benedicte

Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o teto;
E o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo;
E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto,
Fez, aos beijos do sol , o ouro brotar do trigo;

E o que o ferro forjou, e o piedoso arquiteto
Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo;
E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto;
E o que deu uma esmola ao primeiro mendigo;

E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano;
E o que inventou o canto; e o que criou a lira;
E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo,
Descobriu a Esperança, a divina mentira,
Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

 

Defesa

Cada alma é um mundo à parte em cada peito...
Nem se conhecem, no auge do transporte,
Os jungidos do vínculo mais forte,
Almas e corpos num casal perfeito:

Dormindo no calor do mesmo leito,
Voltando os corações à mesma sorte,
Consigo levam à velhice e à morte
Um recato de orgulho e de respeito...

Ficam, por toda a vida, as duas vidas
Na mais profunda comunhão estranhas,
No mais completo amor desconhecidas.

E os dois seres, sentindo-se tão perto,
Até num beijo, são duas montanhas
Separadas por léguas de deserto...

 

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

 

Fogo-Fátuo

Cabelos brancos! dai-me, enfim, a calma
A esta tortura de homem e de artista:
Desdém pelo que encerra a minha palma,
E ambição pelo mais que não exista;

Esta febre, que o espírito me encalma
E logo me enregela; esta conquista
De idéias, ao nascer, morrendo na alma,
De mundos, ao raiar, murchando à vista:

Esta melancolia sem remédio,
Saudade sem razão, louca esperança
Ardendo em choros e findando em tédio;

Esta ansiedade absurda, esta corrida
Para fugir o que o meu sonho alcança,
Para querer o que não há na vida!

 

Sonata ao Crepúsculo

Trompas do sol, borés do mar, tubas da mata,
Esfalfai-vos, rugindo, e emudecei. Apenas,
Agora, trilem no ar, como em cristal e prata,
Rústicos tamborins e pastoris avenas.

Trescala o campo, e incensa o ocaso, numa oblata.
 Surgem da Idade de Ouro, em paisagens serenas,
Os deuses; Eros sonha; e, acordando à sonata,
Bailam rindo as sutis alípedes Camenas.

Depois, na sombra, à voz das cornamusas graves,
Termina a pastoral num lento epitalâmino.
Cala-se o vento. Expira a surdina das aves.

E a terra, noiva, a ansiar, no desejo que a enleva,
Cora e desmaia, ao seio aconchegando o flâmeo,
Entre o pudor da tarde e a tentação da treva.

 

Vila Rica

O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre;
Sangram, em laivos de ouro, as minas, que a ambição
Na torturada entranha abriu da terra nobre:
E cada cicatriz brilha como um brasão.

O ângelus plange ao longe em doloroso dobre.
O último ouro do sol morre na cerração.
E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre,
O crepúsculo cai como uma extrema unção.

Agora, para além do cerro, o céu parece
Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu.,,,
A neblina, roçando o chão, cicia, em prece,

Como uma procissão espectral que se move.
Dobra o sino. Soluça um verso de Dirceu.
Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.

 

In Extremis

Nunca morrer assim! Nunca morrer num dia
assim! De um sol assim!
Tu, desgrenhada e fria.
Fria! Postos nos meus os teus olhos molhados,
e apertando nos teus os meus dedos gelados...

E um dia assim! de um sol assim! E assim a esfera
toda azul, no esplendor do fim da primavera!
Asas, tontas de luz, cortando o firmamento!
Ninhos cantando! Em flor a terra toda! O vento
despencando os rosais, sacudindo o arvoredo...

E, aqui dentro, o silêncio... E este espanto! E este medo!
Nós dois... E, entre nós dois, implacável e forte,
a arredar-me de ti, cada vez mais, a morte...

Eu, com o frio a crescer no coração, — tão cheio
de ti, até no horror do derradeiro anseio!
Tu, vendo retorcer-se amarguradamente,
a boca que beijava a tua boca ardente.
A boca que foi tua!

E eu morrendo! E eu morrendo
vendo-te, e vendo o sol, e vendo o céu, e vendo
tão bela palpitar nos teus olhos, querida,
a delícia da vida! A delícia da vida!

 

A Boneca

Deixando a bola e a peteca,
com que inda há pouco brincavam,
por causa de uma boneca,
duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: "É minha!"
— "É minha!" a outra gritava;
e nenhuma se continha,
nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
era a boneca. Já tinha
toda a roupa estraçalhada,
e amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
que a pobre rasgou-se ao meio,
perdendo a estopa amarela
que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
voltando à bola e à peteca,
ambas, por causa da briga,
ficaram sem a boneca...

 

  A Pátria

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! Não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
é um seio de mãe a transbordar carinhos.

Vê que vida há no chão! Vê que vida há nos ninhos,
que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera,
fecunda e luminosa, a eterna primavera!

Boa terra! Jamais negou a quem trabalha
o pão que mata a fome, o teto que agasalha...
Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este.
Imita na grandeza a terra em que nasceste!

 

A Ronda Noturna

Noite cerrada, tormentosa, escura.
Lá fora dorme em trevas o convento.
queda imoto o arvoredo. Não fulgura
uma estrela no torvo firmamento.

Dentro é tudo mudez. Flébil murmura,
de espaço a espaço, entanto, a voz do vento.
E há um rasgar de sudários pela altura,
passo de espectros pelo pavimento...

Mas, de súbito, os gonzos das pesadas
portas rangem... Ecoa surdamente
leve rumor de vozes abafadas.

E, ao clarão de uma lâmpada tremente,
do claustro sob as tácitas arcadas
passa a ronda noturna, lentamente

 

Consolação

Penso, às vezes, nos sonhos, nos amores,
que inflamei à distância pelo espaço.
Penso nas ilusões do meu regaço
levadas pelo vento a alheias dores...

Penso na multidão dos sofredores,
que uma bênção tiveram do meu braço.
Talvez algum repouso ao seu cansaço,
talvez ao seu deserto algumas flores...

Penso nas amizades sem raízes;
nos afetos anônimos, dispersos,
que tenho sob os céus de outros países...

Penso neste milagre dos meus versos:
um pouco de modéstia aos mais felizes,
um pouco de bondade aos mais perversos...

 

Cousas

Naquela casa do morro,
pintadinha de amarelo,
vivia Aninha Chichorro.
Seu marido, o Florisbelo,
ciumento como um cachorro,
tinha uma cara de Otelo.

A ver-lhe a infidelidade,
preferia vê-la morta!
E quando vinha à cidade,
descendo a ladeira torta,
lá deixava em liberdade
quatro cães de fila à porta.

Mas a casa tinha fundos...
Sempre se engana a prudência
de maridos furibundos!
Rosnava a maledicência
Que... São desígnios profundos
da Divina Providência!

E o Florisbelo, coitado,
de ciúmes consumido,
vivia tonto e enganado,
pois era (pobre marido!)
pela frente respeitado,
mas pelos fundos traído.

 

Dualismo

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando, em maldições e preces,
como se a arder, no coração tivesses
o tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces...
E, rolando num vórtice vesano,
oscilas entre a crença e o desengano,
entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,
não ficas das virtudes satisfeito,
nem te arrependes, infeliz, dos crimes.

E, no perpétuo ideal que te devora,
residem juntamente no teu peito,
um demônio que ruge e um deus que chora

 

Maldição

Se por vinte anos, nesta furna escura,
deixei dormir a minha maldição,
hoje, velha e cansada da amargura,
minha alma se abrirá como um vulcão.

E, em torrentes de cólera e loucura,
sobre a tua cabeça ferverão
vinte anos de silencio e de tortura,
vinte anos de agonia e solidão...

Maldita sejas pelo ideal perdido!
Pelo mal que fizeste sem querer!
Pelo amor que morreu sem ter nascido!

Pelas horas vividas sem prazer!
Pela tristeza do que eu tenho sido!
Pelo esplendor do que eu deixei de ser!...

 

Nel Mezzo del Camin...

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
e triste; e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
e alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
da vida: longos anos, presa à minha
a tua mão, a vista deslumbrada
tive, da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
nem o pranto os teus olhos umedece,
nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
vendo o teu vulto que desaparece
na extrema curva do caminho extremo.  

 

Os Votos

Vai-se a primeira votação passada...
Vai-se outra... mais outra... enfim dezenas
de votos vão-se da Assembléia, apenas
a sessão começou da bordoada!

Sopra sobre Ele a rígida mortada...
Que saudade das épocas serenas
em que Ele e os outros, aparando as penas,
tinham apurações de cambulhada!

O seu bom senso todos apregoam...
E Ele vê que aos pombais as pombas voltam,
mas esses votos não lhe voltam mais!

 

Presente de Anos  

Diz à mulher o Vicente:
-  "Tu não achas, meu amor,
que hoje, anos do professor,
devemos dar-lhe um presente?"

-  "Com certeza, ele é tão bom.
Trata tão bem o Juquinha...
Já era lembrança minha,
mandarmos, que é de bom tom."

- "Que deve ser? Vamos, fala...
Um bom livro, alguma jóia,
aquele quadro de Goya,
um cachimbo, uma bengala...?"

E discutem, todo o almoço,
que presente deve ser.
E já, de tanto escolher,
vão formando um alvoroço.

Juquinha, que escuta quieto,
tão tola e simples questão,
prá acabar a discussão,
apresenta este projeto:

- "Nada de presentes finos.
Dêem cousa que mate a fome,
que ele é tão pobre, que come
nas panelas dos meninos."

 

Remorso

Às vezes uma dor me desespera...
Nestas ânsias e dúvidas em que ando,
cismo e padeço, neste outono, quando
calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,
sem os gozar numa explosão sincera...
Ah! Mais cem vidas! com que ardor quisera
mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que esperdicei na juventude;
choro neste começo de velhice,
mártir da hipocrisia ou da virtude.

Os beijos que não tive por tolice...
Por timidez o que sofrer não pude...
E por pudor os versos que não disse!

 

Soneto X

Deixa que o olhar do mundo enfim devasse
teu grande amor que é teu maior segredo!
Que terias perdido, se, mais cedo,
todo o afeto que sentes se mostrasse?

Basta de enganos! Mostra-me sem medo
aos homens, afrontando-os face a face:
quero que os homens todos, quando eu passe,
invejosos, apontem-me com o dedo.

Olha: não posso mais! Ando tão cheio
deste amor, que minh'alma se consome
de te exaltar aos olhos do universo...

Ouço em tudo teu nome, em tudo o leio:
e, fatigado de calar teu nome,
quase o revelo no final de um verso.

 

Soneto XII

Sonhei que me esperavas. E, sonhando,
saí, ansioso por te ver: corria...
E tudo, ao ver-me tão depressa andando,
soube logo o lugar para onde eu ia.

E tudo me falou, tudo! Escutando
meus passos, através da ramaria,
dos despertados pássaros o bando:
"Vai mais depressa! Parabéns!" dizia.

Disse o luar: "Espera! que eu te sigo.
Quero também beijar as faces dela!"
E disse o aroma: "Vai, que eu vou contigo!"

E cheguei. E, ao chegar, disse uma estrela:
"Como és feliz! Como és feliz, amigo,
que de tão perto vais ouvi-la e vê-la!"

 

Soneto XIV

Viver não pude sem que o fel provasse
desse outro amor que nos perverte e engana:
porque homem sou, e homem não há que passe
virgem de todo pela vida humana.

Por que tanta serpente atra e profana
dentro d'alma deixei que se aninhasse?
Por que, abrasado de uma sede insana,
a impuros lábios entreguei a face?

Depois dos lábios sofregos e ardentes,
senti duro castigo aos meus desejos:
o gume fino de perversos dentes...

E não posso das faces poluídas
apagar os vestígios desses beijos
e os sangrentos sinais dessas feridas!

 

Soneto XV

Inda hoje, o livro do passado abrindo,
lembro-as e punge-me a lembrança delas.
Lembro-as, e vejo-as, como as vi partindo:
estas cantando, soluçando aquelas.

Umas, de meigo olhar piedoso e lindo,
sob as rosas de neve das capelas.
Outras, de lábios de coral, sorrindo,
desnudo o seio, lúbricas e belas...

Todas, formosas como tu, chegaram.
Partiram... e, ao partir, dentro em meu seio
todo o veneno da paixão deixaram.

Mas, ah! Nenhuma teve o teu encanto,
nem teve olhar como esse olhar, tão cheio
de luz tão viva, que abrasasse tanto...

 

A Mocidade

A mocidade é como a primavera!
A alma, cheia de flores resplandece.
Crê no Bem, ama a vida, sonha e espera,
e a desventura facilmente esquece.

É a idade da força e da beleza.
Olha o futuro, e inda não tem passado...
E, encarando de frente a Natureza,
não tem receio do trabalho ousado.

Ama a vigília, aborrecendo o sono.
Tem projetos de glória, ama a Quimera.
E ainda não dá frutos como o outono,
pois só dá flores como a primavera!

 

Ao coração que sofre

Ao coração que sofre, separado
do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
não basta o afeto simples e sagrado
com que das desventuras me protejo.
 
Não me basta saber que sou amado,
nem só desejo o teu amor...Desejo
ter nos braços teu corpo delicado,
ter na boca a doçura de teu beijo.
 
E as justas ambições que me consomem,
não me envergonham, pois maior baixeza
não há que a terra pelo céu trocar.
 
E mais eleva o coração de um homem,
ser de homem sempre e, na maior pureza,
ficar na terra e humanamente amar.

 

  Defesa  

Cada alma é um mundo à parte em cada peito...
Nem se conhecem, no auge do transporte,
os jungidos do vínculo mais forte.
Almas e corpos num casal perfeito:  

dormindo no calor do mesmo leito,
voltando os corações à mesma sorte.
Consigo levam à velhice e à morte
um recato de orgulho e de respeito...  

Ficam, por toda a vida, as duas vidas,
na mais profunda comunhão estranhas,
no mais completo amor desconhecidas.  

E os dois seres, sentindo-se tão perto,
até num beijo, são duas montanhas
separadas por léguas de deserto...  

 

As Estrelas

    Quando a noite cair, fica à janela,
e contempla o infinito firmamento.
Vê que planície fulgurante e bela!
Vê que deslumbramento.

Olha a primeira estrela que aparece além,
naquele ponto do horizonte...
Brilha trêmula e vivida...
Parece um farol sobre o píncaro do monte.

Com o crescer da treva,quantas estrelas
vão aparecendo!
De momento em momento, uma se eleva,
e outras, em torno dela, vão nascendo.

Quantas agora!... Vê noite fechada...
quem poderá contar tantas estrelas?
Toda a abóbada está iluminada,
e o olhar se perde e cansa-se de vê-las.

Surgem novas estrelas imprevistas...
 Inda outras mais despontam...
Mas acima das últimas, as que avistas,
há milhões que não se contam...
 
Baixa a fronte e medita:
Como sendo tão grande na vaidade,
diante desta abóbada infinita
é tão pequenina e fraca a humanidade.

 

Os Rios

Magoados, ao crepúsculo dormente,
ora em rebojos galopantes, ora
em desmaios de pena e de demora,
rios, chorais amarguradamente.

Desejais regressar... Mas, leito em fora,
correis... E misturais pela corrente
um desejo e uma angústia, entre o nascente
de onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa e, a um tempo, da lembrança,
pois no vosso clamor, que a sombra invade,
há o vosso pranto, que no mar se lança.

Rios tristes! Agita-se a ansiedade
de todos os que vivem de esperança...
De todos os que morrem de saudade...

 

O Pássaro Cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão
E, em breve, uma avezinha descuidada,
batendo as asas cai na escravidão.
Dás-lhe então, por esplêndida morada,
a gaiola dourada;
dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos e tudo.

Por que é que, tendo tudo,
há de ficar o passarinho mudo,
arrepiado e triste sem cantar?
É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
sem que os homens os possam entender...

Se os pássaros falassem,
talvez os teus ouvidos escutassem
este cativo pássaro dizer:
Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
na mata livre em que a voar me viste.
Tenho água fresca num recanto escuro
da selva em que nasci.
Da mata entre os verdores, tenho frutos e flores
sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola,
pois nenhuma riqueza me consola,
de haver perdido aquilo que perdi...
Prefiro o ninho humilde construído
de folhas secas, plácido, escondido.

Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pombas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes?

Solta-me, covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade!
Não me roubes a minha liberdade...
Quero voar! Voar!

Estas cousas o pássaro diria,
se pudesse falar...
E a tua alma, criança, tremeria,
vendo tanta aflição...
E a tua mão tremendo lhe abriria
A porta da prisão...

 

Tercetos

Noite ainda, quando ela me pedia
entre dois beijos que me fosse embora,
eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

- "Espera ao menos que desponte a aurora!
Tua alcova é cheirosa como um ninho...
E olha que escuridão há lá por fora!

Como queres que eu vá, triste e sozinho,
casando a treva e o frio de meu peito
ao frio e à treva que há pelo caminho?!

Ouves? é o vento! é um temporal desfeito!
Não me arrojes à chuva e à tempestade!
Não me exiles do vale do teu leito!

Morrerei de aflição e de saudade...
Espera! até que o dia resplandeça,
aquece-me com a tua mocidade!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
repousar, como há pouco repousava...
Espera um pouco! deixa que amanheça!"

E ela abria-me os braços. E eu ficava.

II

E, já manhã, quando ela me pedia
que de seu claro corpo me afastasse,
eu, com os olhos em lágrimas, dizia:

- “Não pode ser! Não vês que o dia nasce?
A aurora, em fogo e sangue, as nuvens corta...
Que diria de ti quem me encontrasse?

Ah! nem me digas que isso pouco importa!
Que pensariam, vendo-me, apressado,
tão cedo assim, saindo a tua porta.

Vendo-me exausto, pálido, cansado,
e todo pelo aroma de teu beijo
escandalosamente perfumado?

O amor, querida, não exclui o pejo...
Espera! até que o sol desapareça,
beija-me a boca! mata-me o desejo!

Sobre o teu colo deixa-me a cabeça
repousar, como há pouco repousava!
Espera um pouco! Deixa que anoiteça!"

E ela abria-me os braços. E eu ficava.

Um Beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento.
Contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante.
Por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto.
Beijo divino! e anseio, delirante,
na perpétua saudade de um minuto...

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