OTACÍLIO COLARES

Unicamente

Amor, desperta... Há um luar, lá fora,
por tal forma tranqüilo e derramado
que é crime adormecer assim, agora,
podendo estar-se, a dois, inda acordado.

Pensando bem, o sono me apavora
pelo que tem da morte assemelhado.
Vamos fluir da vida a cada hora
- olhar no olhar, silentes, lado a lado.

A lua é irmã, a lua é casta e pura.
Façamos dela a doce confidente
deste amor que é doença e não tem cura.

Quando o sol sobreviver, inconseqüente,
fechemos a janela e a alcova escura
será só de nós dois, unicamente...

 

Estudo em Rosa

Tens hálito de rosas, quando amas,
e caprichos pagãos, quando desejas;
cícios de jardins, se amor harpejas
ao meu ouvido, ou quando amor reclamas.

De rosa são teus seios... Quantas damas,
daquele alto padrão que tanto almejas,
queriam tê-los como tu, que ensejas
toda a emoção, com o gozo que derramas.

Róseo teu dorso, rósea a face e tudo
que tu perfumas; o ar que se respira,
que embriaga, que deslumbra e deixa mudo.

És rosa, incenso -inapagável pira -
 ardendo na emoção em que me iludo.
 E, mais me fosse um mal, mais me iludira... !

 

Soneto Infinitivo

Que mais na vida tenho que esperar
se tão feliz me dou por vos querer?
Que maior prêmio além do vosso dar,
correspondendo ao meu apetecer ?

Que mais do sonho, além do relembrar,
quando ao tempo chegarmos (sem sofrer)
de nos quedar, os dois, para aguardar
a hora final do ser ou do não ser?

E quando, no momento de um partir,
a luz divina a só verdade for
e nada houver de mal a redimir,

Consinta Deus, que é puro e puro amor,
ao que restar, que fique sem carpir;
ao que partir, que vá sem grande dor...

 

Soneto em Tons Menores

Possam outros gozar tranqüilidade
mais do que nós, e mesmo da riqueza
fruir delícias, na insinceridade
dos bens terrenos, com maior largueza.

Possam alguns, em triste fatuidade,
julgar-se donos de imortal grandeza,
tomando o quanto pela qualidade
ou o que é simples disfarce por beleza.

Aqui por onde estamos ficaremos:
nem de todo enganados nem sofridos
demais, antes com o quanto merecemos.

Para que em nós os dias já vividos,
não sendo inferno a que nos condenemos,
 também não sejam céus imerecidos...

 

Das Mãos

Dão-se as mãos quando a voz é insuficiente
e o olhar não basta a uma expressão perfeita
do quanto há que dizer-se a uma alma eleita
que se quer seja irmão, perenemente.
.
Dão-se as mãos, toda a vez que a chama ardente
 vai mais além do que a razão aceita,
Ou quando o amor - transcendental - rejeita
o que é simples, comum e conseqüente.

Dão-se as mãos quando a vida era vazia
e, num momento, como por encanto,
dois que eram sós se encontram para a vida.

Dão-se as mãos quando, ao fim, com nostalgia,
com saudade e às vezes não sem pranto,
o amor se exprime numa despedida...

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