OTACÍLIO DE AZEVEDO

A Flor do Maracujá

Sintetiza essa flor, de uma estranha estrutura,
de um simbolismo em outras flores nunca visto,
todo o poema de amor que encerra, em miniatura,
vida, paixão, tortura e trespasse de Cristo !

Sobre o cálix, ao centro, a hóstia de etérea alvura
é de luz e pureza impressionante misto.
Cinco chagas em flor desabrocham... Fulgura
a estrela, o emblema ideal pelos Magos previsto.

Postos à forma de um triângulo perfeito
os três cravos. A esponja, a coluna, o martelo
e a aguda lança cruel que lhe rasgara o peito.

E a contornar a flor, alva como os arminhos,
fulge, evocando o horror do supremo flagelo,
como um círculo rubro, a Coroa de Espinhos !

 

Morria o Sol no Ocaso

Morria o sol no ocaso e o olhar de minha amada
qual rubro sol distante, a rutilar, morria...
Gemia o seu soluço errando pela estrada
e errando pela estrada eu, mísero, gemia!

Perdia o sol tombando, a clara luz doirada
e o vulto dela, ao longe, aos poucos, se perdia.
Fugia o meu olhar no curso da jornada
e o seu magoado olhar tristíssimo fugia...

O sol tombou no poente em nuvens de oiro e arminha,
e Cleonice, chorando, à curva do meu caminho,
entre as sombras da noite, exânime tombou...

Entanto, o mesmo sol que desmaiara outrora,
vem todas as manhãs ao despontar da aurora,
só ela, nunca mais, oh! nunca mais voltou!

 

Carro de Boi

Rodam, tardas, gemendo, as rodas, arrastando
os pesados pranchões de pau-d'arco. Angustiado
ora altivo e roufenho, ora moroso e brando,
todo carro de bois é um soluço abafado...

A hora viúva e glacial do crepúsculo quando
o sol desce, o seu canto é tão doce e magoado
que ora nos prende à terra, ora nos vai levando
na asa de oiro de sonho a um longínquo passado.

Choram, tristes, à frente, os bois mortos de sono...
Há uma vaga tristeza, uma ansiedade em tudo
e a paisagem dir-se-ia um por-de-sol, no outono...

Oh! Natureza - Mãe! Sei quanto sofres, pois
vejo, ansioso, rolar todo o teu pranto mudo
pelos bons olhos melancólicos dos bois.

 

Catavento

Alto, de frente ao revoltoso oceano,
e exposto à eterna rispidez do vento,
levanta-se ao prestígio soberano
dos músculos de ferro, o catavento.

Pulsa-lhe a vida a cada movimento
e parece oxidar-lhe o desengano,
quando se lhe transforma num lamento
todo o seu vão clamor, vezes humano.

Pregado ao solo, numa infinda mágoa,
de mil sonhos, talvez, sobre os escombros,
chora, enchendo de pranto a caixa d'água...

É que ele, preso à angústia de existir,
sente a revolta de suster, aos ombros,
asas de ferro, e não poder subir!

 

Soneto VII

Voltei, tudo era festa! A natureza inteira
era um sacrário enorme inteiramente aberto!
- o monte, o vale, o bosque, a múrmura ribeira,
desde a campina verde ao matagal deserto,

tudo me recordava o passado... A cachoeira
entre pedras rolava. E de prantos coberto
desde o primeiro plano à serra derradeira,
meu tristíssimo olhar se prolongava incerto...

Contemplei, de relance, o velho engenho, a seara
onde, ao vir do arrebol, há seis anos partindo,
pela primeira vez, cheio de dor, chorara...

- No oiro do oriente em febre, o rubro sol surgindo
toda a antiga floresta ao longe iluminara
como um leque de luz em crispações abrindo!

 

Cleonice

Tão alegres que fomos no passado,
tão venturosos no passado fomos...
E porque hoje, Cleonice, é desolado
tudo em que os olhos tristemente pomos?

Qualquer coisa morreu... ai qualquer cousa
cujo profundo mal minha alma junca;
se a minha pena descrever não ousa,
a tua boca aromal não dirás nunca...

Se rompemos o azul da mocidade
como dois cisnes meigamente unidos,
viveremos, agora, da saudade
como dois nautas pelo mar perdidos!

E veremos, Cleonice, o rio, as fontes,
onde deixavas a tremer de anseios
meu olhar descobrir mil horizontes
na morna aurora de teus mornos seios...

Quando formos, mais tarde, bem velhinhos,
torturados por mórbidos desejos,
encheremos de prantos os caminhos
onde, outrora, floriram nossos beijos...

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