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TASSO DA SILVEIRA |
Encantamento
A tarde jogou os seus sete véus luminosos
sobre a montanha,
e ficou toda nua dançando
com sombras de crepúsculo
a escorrerem-lhe, suaves, pela pele dourada...
...e ficou toda nua dançando
na campina
ao som da harpa encantada do silêncio...
Canção
Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.
Fronteira
Há o silêncio das estradas
e o silêncio das estrelas
e um canto de ave, tão branco,
tão branco, que se diria
também ser puro silêncio.
Não vem mensagem do vento,
nem ressonâncias longínquas
de passos passando em vão.
Há um porto de águas paradas
e um barco tão solitário,
que se esqueceu de existir.
Há uma lembrança do mundo
mas tão distante e suspensa...
Há uma saudade da vida
porém tão perdida e vaga,
e há a espera, a infinita espera,
a espera quase presença
da mão de puro mistério
que tomará minha mão
e me levará sonhando
para além deste silêncio,
para além desta aflição.
Marinha
Teu corpo é mar
com frêmitos frescos de ondas
e fosforescência de espumas.
Teu corpo é profundidade equórea,
filtrando sol,
mas cheia de sombras vivas
de sargaços, anêmonas, corais.
Quando ele me envolve, é totalmente,
mortalmente.
Anula-me no que sou.
Reduz-me a uma alga inerte
que não sabe do seu destino
no seio do imenso balouço imemorial.
E quando retorno do mergulho trágico,
teu corpo escorre de mim, como uma túnica líquida.
Só então, volto a ser de novo,
respiro o grande ar da vida.
Teu corpo é abismo equóreo,
teu corpo é mar...
Na noite transfigurada
Na
noite transfigurada só ficaram os cedros e os
ciprestes.
A lua surgiu, mas como, na lembrança, um rosto
antigo explende palidamente e depois
se apagou.
O vento veio, mas como um pássaro branco de
grandes asas fatigadas: esvoaçou, lento
entre as frondes, pousou no chão e
adormeceu.
Os outros seres perderam-se no caminho dos
milênios.
Ficaram apenas os cedros e os ciprestes e, na altura,
as estrelas.
E para além dos ciprestes e cedros há só deserto e
esquecimento.
Em todos os perdidos portos
Em
todos os perdidos portos do mundo, sob o crepúsculo
balouçam barcos mansamente.
A brisa é uma carícia lenta
nos mastros e nas velas.
A voz da água é um segredo baixinho.
É preciso não acordar os homens.
É preciso que se encha o mundo de doçura infinita,
de infinito silêncio,
porque os homens estão fatigados, fatigados...
O
Rei Destronado
Houve um tempo em que o mar, grandioso e soberano,
Sôbre o mundo imperou. Nem valado, nem serra
Nem animal, nem flor; por tôda a parte o insano
E trágico fragor que o seu rugido encerra.
Mas a luta interior, a incandescente guerra,
Convulsionando o globo - insondável arcano!
Numa glória imortal fêz ressurgir a terra
Grandiosa, a dominar a vastidão do oceano.
Hoje procura o mar, brandindo ansioso e tredo,
Conquistá-lo outra vez; contra a terra se lança,
Mas a terra lhe opõe o orgulho do rochedo.
E, em vagalhões, o oceano, agitado e profundo,
Ruge de ódio, a lembrar, num clamor de vingança
O áureo tempo em que foi dominador do mundo.
A Infinita Vigília
Senhor,
a cidade dorme,
esquecida, esquecida...
Mas ainda tem frêmitos bruscos,
palpitações obscuras
da dor imensa...
Senhor, a cidade é como
uma praia perdida
na qual se ouvem bater ainda,
sob a noite,
as grandes água soluçantes.
Senhor, a cidade dorme,
esquecida, esquecida...
Só Tu velas, paciente.
Em cada tabernáculo solitário,
no silêncio vazio,
só Tu velas ainda
sobre a angústia dos homens
infinitamente...