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A
DERROTA DO SHERLOCK HOLMES
Arrumação
da cena:
Uma cadeira de espaldar alto, toda em couro, antiga;
1 tapete; 1 sofá; mesinha chic de centro;
floreira; candelabros; quadro.
Personagens: criado, Sherlock, condessa, cadáver.
Uma sala de
visita luxuosa. Sobre o tapete o cadáver do Conde. Sentada em uma
poltrona, a cabeça pendida sobre o peito, imóvel, a condessa. Em
seu rosto uma grande expressão de dor. A cena inicia e fica assim
durante algum tempo, até que a porta do fundo se abre e entra o
criado acompanhado pelo detetive, com uma pasta de couro debaixo do
braço. Sherlock Holmes se detém no fundo da sala. O criado avança
e a um metro da condessa pára e se perfila.
Criado:
O Sr. Sherlock Holmes já está aqui, senhora condessa.
Condessa
(suspirando sem voltar a cabeça):
Em Fortaleza?
Criado:
Nesta sala, senhora condessa.
Condessa
(erguendo-se subitamente):
Ele estava aqui na sala e você não me avisou logo, Reginaldo? (avança
para o detetive)
Queira-me desculpar senhor Holmes. Esses criados querem que as
patroas adivinhem tudo...
SH:
Oh! Não se preocupe com essas pequenas coisas... Assim que recebi o
seu telegrama tomei o meu avião particular e voei com velocidade máxima,
sem escalas... Estou às suas ordens, senhora condessa.

Condessa:
Muito obrigada (faz
uma pequena pausa e suspira).
Não sei se mandei dizer no meu telegrama que mataram meu marido e
roubaram do cofre todas as minhas jóias, avaliadas em cem milhões
de cruzados...
SH:
Mandou dizer sim. E como estou informado de tudo, vou agir
imediatamente para prender o assassino.
Condessa:
Desculpe-me senhor Sherlock Holmes. Eu preferia que o senhor agisse
para prender antes... as minhas jóias. Sem as minhas jóias eu me
sinto completamente viúva.

SH:
Farei o possível (Abre
a pasta e tira uma enorme lente. Coloca a pasta sobre um móvel).
Antes de analisar o cadáver
vou estudar o local do crime (observa
com a grande lente o cinzeiro).
OH!!!
Condessa:
Descobriu as jóias?
SH:
Descobri uma ponta de cigarro.
Condessa:
É minha. Fumei um cigarro há pouco para esquecer...
SH:
Pena! Se não fosse seu, nem do conde, nem dos criados, nem das visitas, nem
meu, teríamos uma pista, porque seria o cigarro do assassino (deita-se
no chão e examina com a lente o tapete).
Oh!!!
Condessa:
Descobriu as jóias?
SH:
Descobri a liga da meia do assassino (ergue-se
radiante e mostra a liga toda enfeitada à condessa).
Veja: é uma liga de luxo, com um brasão de conde bordado. O assassino é um
conde! Estou com a chave do mistério nas unhas!
Condessa:
Mas... Senhor Sherlock Holmes! O senhor não se lembra mais que o meu marido
era conde e que essa liga só pode ser dele? Eu não lhe disse que o conde
viva perdendo as ligas?
SH:
A senhora condessa não me esclareceu o bastante sobre os hábitos da pobre vítima.
De qualquer modo a liga está desligada das nossas pesquisas... Examinemos o
cadáver... (abaixa-se de
novo examinando o rosto do cadáver com a lente).
Oh!!!
Condessa:
Descobriu as jóias?

SH:
Descobri o sexo do assassino. É uma mulher, senhora condessa. Há marca de
rouge no rosto da vítima. Quem roubou as jóias e matou o senhor conde
deu-lhe também um beijo. A lógica não falha, nunca falhou e nunca falhará!!!
Condessa:
Mas quem beijou meu pobre Gugu fui eu, senhor Sherlock Holmes. Procure que
também encontrará lágrimas no rosto do meu inesquecível Gugu. Eu
adorava o meu bom Gugu...
SH:
Pena! Se esse rouge não fosse seu, nem das criadas, nem das suas amigas, o
assassino seria uma assassina e teríamos uma pista (põe
a lente sobre o tapete).
Vou revistar o cadáver. Quem sabe?...
Condessa:
Veja se ao menos descobre as jóias no bolso do meu saudoso Gugu (suspira).
(O detetive põe a mão no bolso interno do cadáver)

Cadáver (soltando uma gargalhada nervosa):
Ai, ai, não faz cócegas. Eu grito, ai. Tira a mão dai... (grita
bem naturalmente enquanto o detetive lhe faz cócegas).
Condessa (furiosa):
Pronto! (põe a mão na
cintura) O Fernando
estragou toda a comédia!
Cadáver (levantando-se):
Também quem manda esse idiota me fazer cócegas debaixo do braço?
SH:
Fiz cócegas nada. Você é que não dá para teatro; é um desmancha
prazeres. Está arranjando desculpas. Bem que eu queria que o Felipe fizesse o
papel de cadáver.
Condessa:
Discussões não adiantam. A comédia está estragada mesmo e é melhor acabar
logo com isso. (voltando-se
para o público) Respeitável
público. O espetáculo está suspenso devido as cócegas do Fernando. Pedimos
desculpas e prometemos repetir a peça no próximo Natal, com um grande ator
no papel de cadáver.
SH (adiantando-se):
Um ator que não sinta cócegas.
Cadáver:
Esse Sherlock Holmes é um tapeador, respeitável público. Ele viu que não
podia descobrir o meu assassino e me fez cócegas debaixo do braço para
acabar com a história.
SH (enfurecido, avançando
para o cadáver): Vai me
pagar caro, seu bandido.
(O cadáver foge,
perseguido pelo detetive. Ambos desaparecem da cena. Ouve-se ainda ao longe
ruidos da briga dos dois)
Condessa ( nervosa,
esfregando as mãos): Que
vergonha! (põe as mãos
no rosto) Que vergonha!
Abaixa o pano, Murilo. Depressa, abaixa o pano. Mais depressa.
(o pano cai
violentamente).
Atores
Sherlock Holmes: Carlos Meton
Condessa: Júlia Beatriz
Cadáver: Fernando Meton
Criado: Leonardo
Mariinha Mota
Peça escrita para a festinha de Natal de seus netos.
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