YOLANDA GADELHA THEÓPHILO

Yolanda Gadelha Theóphilo Gaspar de Oliveira, escritora cearense, casada há setenta anos com o General Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira, também escritor e historiador, dedicou sua inteligência e criatividade às letras. É impossível separar Yolanda e Tácito Theóphilo. Seu amor recíproco e inconteste lembra-me um poema de Castro Alves:

 

As Duas Flores

São duas flores unidas,
são duas rosas nascidas
talvez do mesmo arrebol.
Vivendo no mesmo galho,
da mesma gota de orvalho
do mesmo raio de sol.

Unidas bem como o pranto
que em parelha descem tanto
das profundezas do olhar.
Como o suspiro e o desgosto,
como as covinhas do rosto,
como as estrelas do mar.

Unidas bem como as penas
de duas asas pequenas
de um passarinho ao léu.
Como um casal de rolinhas,
como a tribo de andorinhas,
da tarde no frouxo véu.

Unidas ai, quem pudera,
numa eterna primavera,
viver qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
na rama verde e florida.
Na verde rama do amor!


O casal Yolanda e Tácito em 19/08/2009, na comemoração de seu 70º aniversário de casamento

 

Yolanda Gadelha Theóphilo estudou no Rio de Janeiro, no Colégio "Sacré Coeur de Jesus", na Tijuca. Aprimorou-se em cursos de extensão universitária nos Estados Unidos, Rio de Janeiro e Brasília. Lançou, em 2007, o seu décimo primeiro livro e já prepara o décimo segundo. Autora premiada, brindou a literatura brasileira com: "Eu e o Tio Sam", "Longa Tarde sem Manhã", "As Acácias estão florindo" (relançado com alterações em março de 2008) , "Instante dentro do Tempo", "Maré Alta", "Os Náufragos", "À Sombra das Distâncias", "Sargaços", "Tempo de Amor", "Vidas de Minha Vida". Suas obras tem recebido honrosas apreciações de escritores e críticos. Fugindo de sua linha de produção literária, em 1989 publicou "Momentos de Vida e Emoção" com poemas e crônicas rabiscados ao longo de sua vida e nunca divulgados antes:

"Achei que era hora de esvaziar as gavetas, rasgar papéis, aliviar a bagagem que a gente vai deixando para trás", esclareceu a autora.

Apresento a vocês alguns poemas de Yolanda Gadelha Theóphilo.

Porque te Amei

Porque te amei,
fiz da tua vida a minha vida.
Teu olhar imerso nos meus olhos
foi rastro de luz, etéreo,
a clarear as pupilas negras
dos meus negros olhos!

Tuas vitórias foram as minhas recompensas;
teus embates meu contínuo despertar .

Só não fiz das tuas lágrimas
as minhas lágrimas,
porque nunca choraste,
mas fiz das minhas lágrimas
as tuas lágrimas...

Asas

Deus me deu duas asas para voar.
Uma inteirinha:
destinada às grandes alturas.
Outra partida:
para aumentar a minha angústia
de querer e não poder!...

Eu Choro

Eu choro
por aquela nuvem perdida na amplidão do céu.

Eu choro
porque o sol fez o céu mais azul.

Eu choro
e não sei porque choro
neste esplendor de dia
com que o Senhor me contemplou!

Eu não Queria

Não.
Eu não queria morrer.
Bastava-me
esta pouca vida,
gratuita vida
metade tristeza, metade alegria
que sem pedir, ganhei
- de graça.

Ah! meus sapatos usados!
Meu vestido caseiro
ao que o velho corpo
se adaptou.
Meus livros imersos
em sabedoria alheia.
Minha cadeira
onde já não me sinto
o todo que eu fui...

Mas da terra vim
e à terra voltarei.
Não me cruzem
as mãos sobre o peito.
Roxas e crescidas mãos,
presença maior da morte
na imensa presença do morto.

Uma rosa pousada
de leve
entre dedos graciosamente dispostos.
Nem me cubram o corpo de flores.
Ponham-me um vestido de festa,
 fluido,
como as vestes dos anjos.

Irei,
hirta e surda,
aos apelos da vida.
Sem adeuses
e sem choro;
na tarde turva
chegarei aos esplendores
da eternidade!...

 

A Chuva Cai

A chuva cai,
pingo a pingo,
e vai retinindo
dentro de mim
a revolver queixumes
e tristezas
dos quardados da vida.

Mas, amanhã,
quando o sol balançar os danos de hoje,
varrendo as nuvens escuras
e trazendo de volta
as cores da benquerença
ao céu e à terra,
banhar-me-ei na luz
esplendorosa
do mundo redescoberto.

Vestido de Noiva

Fui buscá-lo agora
cinqüenta anos depois...
Teve seu dia de glória
o vestido de noiva.
Pérolas,
rendas,
que os anos não pouparam...

Quebraram-se as pérolas,
amarelaram-se rendas e tule.
O véu é um amarfanhado
de sonhos e de esperanças
que a vida fugaz
a todos dispersou...

Anseios e Indagações

II

Vivi tão fora da vida
que quando quis entrar na vida
a vida não me quis...

VIII

Entrei na vida para logo sair
sem nem ao menos reparar
que aquilo era vida...

IX

Deus me deu um belo sorriso
para sorrir a vida inteira.
Mas de lágrimas vieram
dois sulcos profundos
que deviam ser de risos somente!...

XII

Choro de saudade.
Mas é uma saudade tão grande
e tão profunda,
que chega a ser
saudade de mim mesma!

XV

Tristeza maior não há:
Ter a vida nas mãos
tão cheinhas de vida
e não saber
o que fazer da vida.


Yolanda e Tácito Theóphilo em sua última viagem a Paris

 

 

 

 

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