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FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA |
A Caminho do Desconhecido...

Embarque
das tropas do 2° Escalão da FEB
Arquivo Diana Oliveira Maciel
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"Sentia-se,
por toda a parte, a campanha do quinta-colunismo contra a preparação de nossa
tropa e seu embarque para além-mar, com os comentários mais desagradáveis
sobre as qualidades morais e físicas do soldado brasileiro, procurando levá-los
ao ridículo e ao desânimo diante dos graves riscos que os aguardavam na
travessia do Atlântico. Via-se, com desalento e tristeza, o arrefecimento dos
preparativos de embarque, por parte das autoridades brasileiras, e, não fora a
ação providencial do General Kroner, adido militar norte-americano, junto ao
seu governo e ao nosso Ministro da Guerra, não teríamos conseguido atravessar
o Atlântico com a oportunidade exigida pela marcha dos acontecimentos. O
governo começava a recuar diante das suas responsabilidades para com os
Aliados, pois a FEB, dias depois da partida do 1º Escalão de Embarque, ficou
reduzida apenas a uma Divisão de Infantaria (1ª DIE) e mais alguns órgãos de
Exército, como Depósito de Pessoal, Pagadoria Fixa, a Agência do Banco do
Brasil, o Depósito de Intendência, o Correio Regulador, os Grupos Hospitalares
e o Serviço de Justiça, em conseqüência da ordem de adiar-se sine die a
organização das 2ª e 3ª Divisões de Infantaria, o que restringiu de muito a
contribuição militar do Brasil. O êxito da operação de embarque para além-mar
condicionava-se á rapidez com que homens e material se internassem nos
transportes de guerra e à manutenção de relativo segredo. Não era possível
obter-se completo sigilo sobre uma operação dessa natureza, mormente quando as
tropas, tendo de servir-se da Estrada de Ferro Central do Brasil e utilizar-se
do Cais do Porto do Rio de Janeiro, se expunham à normal curiosidade de
populares. A primeira das condições supra-enumeradas revestia a feição de um
assunto de instrução militar. Já concentrada a 1ª DIE, realizaram-se freqüentes
exercícios de embarque e desembarque, focalizando-se a necessidade de grande
rapidez e os cuidados tendentes a evitar as acidentes. Além dessas práticas,
foram ministrados conselhos e exibidos filmes, tudo objetivando convencer aos
expedicionários de que qualquer indiscrição poderia redundar na perda de
milhares de companheiros e, como corolário, sacrificar o êxito da Expedição.
Os resultados alcançados foram brilhantes. Relativamente à obtenção do
segredo, muitos foram os recursos postos em ação. Graves e convincentes foram
os motivos que impuseram a montagem de um eficiente sistema de escolta aos
navios-transportes que conduziram os cinco escalões da FEB. Em razão da
probabilidade de intervenção dos submersíveis contrários, destróieres
brasileiros e belonaves americanas acompanhavam até o estreito de Gibraltar os
navios que transportavam nossas tropas. A viagem no Mediterrâneo realizava-se
com uma nova escolta de navios americanos e ingleses, contando com constante
cobertura aérea. Blimpes e aviões, com bases no Brasil e África, asseguravam
a cobertura desses transportes, desde os primeiros momentos da partida até o
porto de destino. Completavam as medidas de segurança as bombas de profundidade
dos destróieres, o próprio armamento dos transportes de guerra, o contínuo
funcionamento do radar e os aviões existentes nos cruzadores americanos da
escolta. Apesar de todos esses meios, eram diários os exercícios de alarma
para abandono do navio e obrigatório o uso permanente de salva-vidas. As regras
de segurança impunham também o escurecimento do navio, durante a noite. Com a
efetivação de tal medida, todo pessoal embarcado era empilhado nos
alojamentos, que se fechavam para impedir a filtração da mais fraca réstia de
luz. Desagradáveis, insuportáveis quase, eram essas noites, quentes e infindáveis,
vividas em compartimentos abafados e lotados até o teto. Além disso, a diferença
de alimentação e a agitação do mar provocavam o enjôo em grande número de
companheiros, o que tornava insuportável a vida nos alojamentos. Os freqüentes
exercícios de artilharia de bordo contra alvos aéreos interessavam muito à
tropa embarcada e constituíam um agradável passatempo. Para aliviar as
naturais preocupações da viagem e o cerceamento da liberdade, decorrente das
medidas de segurança e escurecimento do navio, os comandos dos transportes
faziam exibir alguns filmes cinematográficos e executar programas variados de
divertimentos, geralmente a cargo dos capelães de bordo. Além disso, a tripulação
dos transportes, desde o marujo ao comandante, esmerava-se em gentilezas de toda
ordem, tudo envidando para dissipar o turbilhão de saudades e apreensões. Marechal
Mascarenhas de Moraes |

General
Oswaldo Cordeiro de Farias
Arquivo Diana Oliveira Maciel
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"Exatamente às 12.45 horas do dia 22, atravessamos a barra, rumo ao mar alto, em busca de um destino para todos desconhecido e que para alguns seria bem amargo. Alguns milhares de homens, que navegavam para uma terra estranha, onde iriam combater contra um povo também estranho. Ao sentir desaparecer a faixa de terra brasileira, fiquei olhando para o mar; meu pensamento voou até minha casa - vi mamãe, papai, minha irmã, meu lar, meus amigos. Quando voltaria para tudo isso? Sob meus pés sentia o pulsar dos motores que levavam o navio para bem longe, para a guerra, para o desconhecido, vendo esconder-se no horizonte o monumento do Cristo Redentor." Joaquim
Xavier da Silveira |

Vapor
"General Meigs"
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira
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O Primeiro Dia Escrevo esta minha primeira reportagem após 22 horas a bordo do transporte que nos desembarcará dentro de 16 dias em Nápoles. A mim e a cerca de seis mil soldados brasileiros que comigo seguem para a guerra. É um mundo estranho e misterioso que possivelmente levará muito tempo para ser revelado. Ando pelos porões do imenso navio, perco-me em seus corredores que parecem não ter fim, e cada porta de ferro se abre para uma nova surpresa. Os avisos e os alto-falantes que se multiplicam por todos os compartimentos são guias orais e explícitos do que se deve e não se deve fazer. Estamos em guerra, somos uma multidão que segue para a guerra, e muita coisa não se deve fazer: não se deve, por exemplo, atirar qualquer coisa ao mar. Sou apenas um recruta, bisonho e desprevenido como todo recruta, um pobre e indefeso civil em poucas semanas transformado em soldado da ativa, e me emaranho e me confundo num mundo que nunca foi o meu. Os pracinhas, no convés nus ou nos corredores lá embaixo, olham sem compreender para o meu distintivo (um C graúdo pregado numa farda de oficial), não sabem se devem ou não me prestar continência. Respondo, encabulado, à saudação de alguns poucos, mas o Tenente Justino Vieira, companheiro de camarote (durmo no beliche de cima, ele no do meio e no de baixo o Tenente Plínio Pitaluga), já me garantiu que tenho credenciais de oficial. Sou agora um "capitão"; dentro de mais duas semanas serei "capitano". A verdade, porém, é que cometo gafes que matariam de vergonha qualquer oficial de verdade. Já falei com um "major" que era um coronel e ontem misturei a calça de um uniforme com a túnica de outro. Mas esta gente que viaja comigo é simpática e compreensiva, e só posso ficar comovido com a maneira gentil, quase paternal, às vezes divertida, com que soldados veteranos e oficiais tratam o recruta que uma remota "linha de tiro" , não conseguiu militarizar. O Tenente Antônio Caldeira Vitral, oficial de ligação, me leva até o gabinete de comando, num dos compartimentos superiores, e me enche de dados sobre o que sou agora. Vejo-me de repente transformado numa série de números. Sou agora o CG (a partir de Roma, esse CG - Correspondente de Guerra - se transformará em "War Correspondent"), instalado no camarote coletivo número 107, beliche 146. Em caso de perigo já sei o que tenho a fazer: não perder a calma, ajeitar o salva-vidas e, se houve tempo, correr para o lifeboat 9, a bombordo. Seriam meus companheiros no barco salva-vidas o Capitão Ítalo, o Capitão Mário, o Capitão Darcy, o Tenente Justino, o Tenente Puente, o Tenente Waldyr e os funcionários do Banco do Brasil Berenguer e Messeder, todos companheiros deste apinhado 107, onde bato estas linhas estirado no colchão duro, a máquina portátil equilibrada de qualquer maneira sobre as coxas .Também não devo esquecer, todas as sete da manhã, de aproveitar o máximo possível os variados pratos da primeira refeição do dia, já que a próxima, para o grupo de oficiais da primeira mesa (entre os quais fui incluído), acontecerá somente às cinco da tarde, apenas com variadas de chocolates e caramelos comprados por preço de banana nas cantinas de bordo. Manhã cedo, portanto, mergulhei decidido no que me ofereceram: ovos, bacon, grossas fatias de presunto e queijo, muito pão, laranjada, café e creme de leite, manteiga farta que contentaria perfeitamente, durante uma semana, qualquer dona de casa. Tudo de esplêndida qualidade - tudo americano. Há quase dois dias que estou a bordo, mas a verdade é que continuamos atracados, e o Rio, com suas luzes brilhando perto, o Cristo iluminado e as ilhas da Baía, continua muito vivo dentro de todos nós. Num canto do salão dos oficiais, um capitão me confessou que seria melhor que o General Meigs fosse logo embora: "Enquanto a gente, tem a certeza de estar perto de casa, e sem poder ver ou falar com os nossos, fica sempre com vontade de telefonar." Saber a hora e o dia em que o transporte deve se desgrudar do armazém isolado do resto do cais por uma reforçada guarda militar, e ganhar o mar alto, é problema crucial. Um marinheiro americano me garantiu num inglês quase mímico que seria ontem de madrugada, e hoje, logo cedo, um dos garçons me segredou na cozinha que "a coisa não ia passar do meio-dia". O Presidente Getúlio já nos visitou, na véspera, e num pequeno discurso deixou suas despedidas. Por coincidência eu estava no meu camarote, tentando transportar a confusa bagagem de campanha (mais de 50 quilos, divididos em dois sacos, o A e o B) do passadiço do navio para o 107, correndo como um maluco navio adentro, subindo e descendo escadas, me perdendo aqui e ali, até chegar ao meu destino - por coincidência, dizia, acabava de chegar ao meu camarote quando ele, Getúlio, entrou ali com sua comitiva. Sorriu para todos, mais ou menos perfilados, disse qualquer coisa a um major, despediu-se com um aceno. Lembro-me de que a primeira camaradagem que fiz a bordo foi com um tenente vindo da Bahia e que, mal o Presidente deixou o camarote, me apresentou um apressado croqui que fez dele, Getúlio. Perguntou se devia ou não mostrar o desenho ao desenhado. Sugiro que faça a pergunta a um oficial mais graduado - a um oficial de verdade, e ele corre pelo corredor, um tanto aflito. Não quer perder o homem. As horas vão passando -melhor, escorrendo - e já agora posso fazer uma lista de amigos novos: o Tenente Nestor Lício é um deles, oficial-dentista e que também, diz, já trabalhou em jornal. Falamos de A Manhã, de Mário Rodrigues, de A Pátria, jornais onde ele trabalhou, e ele me pede que na minha primeira correspondência para os Diários Associados mande abraços para Osório Borba e Bezerra de Freitas, seus amigos. Estão mandados. Outro bom companheiro, além do Tenente Plínio Pitaluga, que já conhecia antes de virar "soldado", é o Tenente Milton da Rocha Alencar, a quem conto, em primeira mão, uma complicada história de troca de bagagem. Acontece que recebi da Intendência do Exército, como todo oficial expedicionário, um saco A, um saco B e - ia esquecendo deste, o mais pesado de todos - um saco C. Mas não recebi conjuntamente uma espécie de rol que acompanha a entrega da bagagem e no qual vem muito bem explicado o que deve ser arrumado nos três sacos. O resultado é que guardei cuidadosamente nos sacos B e C, que vão para o porão e que só me serão devolvidos na Itália, tudo de que necessita uma criatura normal, mesmo um recruta, para as suas precisões diárias: aparelho de barbear, sabão, toalha, pasta para dentes e respectiva escova, coisas assim. O Tenente Milton ouve atentamente a minha história, narrada num tom profundamente melancólico, e solta uma gargalhada. E de repente a história já é conhecida de todos ali no camarote - o que não deixou de ser uma solução: requisito de alguns companheiros um pouco de tudo o que me falta, o que me deixa tranqüilo. Hoje pela manhã me surgiu pela frente a primeira exigência militar. O Capitão Ítalo, comandante do compartimento, nos reuniu a todos e nos avisou que iria distribuir as tarefas referentes à faxina. Isto significa que cada oficial do 107, inclusive o correspondente e os funcionários do Banco do Brasil, terá o seu dia de muito trabalho: varrer o camarote, limpar as pias, forrar as camas, arrumar as bagagens etc. A escalação é feita conforme a idade, cabendo aos mais moços as tarefas do primeiro dia. Sou o terceiro da lista, o que significa dizer que amanhã vou ter um dia cheio. O Tenente Mendonça me felicita pela sorte, pois que, segundo ele, dentro de poucos dias, com o navio andando e a turma enjoando, a coisa vai ser muito pior. Como somos 18 no camarote, nutro sólidas esperanças de não repetir, até a chegada a Nápoles, o castigo que me espera amanhã. Bem, meu nome é Joel Silveira, jornalista de 26 anos, e estou indo para a guerra. Voltarei? Lembro-me das palavras de Assis Chateaubriand, meu patrão, quando dele me fui despedir, já devidamente fardado: "Seu Silveira, me faça um favor de ordem pessoal. Vá para a guerra, mas não morra. Repórter não é para morrer: é para mandar notícias." Prometi obedecer cegamente a suas ordens, e tenho de cumprir a promessa. Texto de
Joel Silveira |

Rumo à Itália, no 5º escalão da FEB, a bordo do General Meigs.
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
Joel Silveira e Thassilo Mitke
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O Mundo é muito pequeno No fim da
tarde de ontem, ainda ancorados diante do armazém, um tenente da infantaria
surgiu com uma vitrola. Sambas, rumbas, tangos (particularmente tangos) e
valsas entraram pela noite a dentro, a última noite carioca. Mais tarde,
pelas vinte horas, um regional de pracinhas ganhou um dos compartimentos de
cima, e os cavaquinhos e cuícas, dezenas deles, abafaram por completo os
lamentos de Libertad Lamarque. Adormeço precisamente quando um grupo de
oficiais, no salão ao lado e defronte de um piano incansável, inicia um
programa coral que possivelmente se estenderá por algumas horas, já que,
excepcionalmente, não nos foi dito hoje quando devemos nos recolher ao
compartimento e apagar as luzes. Perco inteiramente as esperanças de, às
vinte e duas horas, aproveitar o salão vazio e bater na máquina estas minhas
primeiras impressões. Escrevo, portanto, começo da manhã, depois que, com a
largada do navio, deixo Copacabana, o Leblon e Ipanema perdidos na névoa
grossa e cinzenta. O alto-falante onipresente nos avisa,que poderemos ganhar o
convés, para o espetáculo da saída da baia. Lá vai ficando o Pão de Açúcar,
lá está o Cristo, altíssimo e enrolado em nuvens-pardas, e jamais
esquecerei a última visão do Rio que me ficou nos olhos: a linha certa das
casas do Leblon e a pedra da Gávea. O capitão, ao meu lado, derrama os olhos
cismarentos na cidade que vai se afundando e me pergunta, num tom de confidência: "Tira
o saco Descubro
conhecidos a bordo: um oficial que foi meu companheiro de ginásio, em
Sergipe, e um terceiro sargento, ex-colega do curso primário de D. Carlota,
em Aracaju. "Isto significa que o mundo é muito pequeno", me diz o
capitão, vizinho do beliche 146, e passa a me contar uma série de histórias
semelhantes. Uma delas se refere a um companheiro de armas, que ele deixou
cabo no Pará, em Santarém, e foi encontrar primeiro-tenente no sertão de
Mato Grosso. Outro velho conhecido é o primeiro-tenente da Moto-Mecanização,
que, há dois anos atrás, numa reportagem movimentada e dolorida, me estraçalhou
o corpo dentro de um "jeep" e de um tank de 13 toneladas, lá para
os lados da Vila Militar. Ele me bateu no ombro, no primeiro dia a bordo, e
perguntou: "Como vão as dores ?" Indubitavelmente o mundo é muito
pequeno. Texto de
Joel Silveira |

Cerimônia de batismo, realizada pelo "padre" na presença de Netuno, o Rei dos Mares.
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas" -
Joel Silveira e Thassilo Mitke
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Netuno
no Transporte de Guerra Texto
de Joel Silveira |
Generais Mascarenhas
de Moraes e Zenóbio da Costa posam cercados dos oficiais da FAB e pracinhas.
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas" - Joel Silveira e Thassilo Mitke
Um Herói nunca morre!
Simples
História de um Homem Simples
As
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