FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

O DESEMBARQUE


Soldados brasileiros portando o inseparável saco B.
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
de Joel da Silveira e Thassilo Mitke

"Agora em águas do Mediterrâneo, depois das despedidas dos navios-escolta brasileiros, na entrada de Gibraltar, o transporte de tropas General Meigs, da marinha dos Estados Unidos, passa a ser comboiado por belonaves inglesas. Os alto-falantes lançam novas instruções, agora sobre o desembarque em Nápoles. Foram distribuídas rações K para todos os homens, que deveriam guardá-las. Navegamos em velocidade máxima, pois a área em que nos encontramos está sob o raio de ação dos navios alemães e de seus navios fundeados em La Spezia ou qualquer outro ponto da costa italiana em seu poder. Aviões de combate passaram a cruzar o céu e passamos a avistar muitos blimps (pequenos dirigíveis) com seus cabos que impediam ataques aéreos rasantes. Segundo corre pelo navio, chegaremos a Nápoles às 11 horas da manhã. Tudo preparado para o desembarque. Milhares de homens acomodados nos vários compartimentos do grande transporte de guerra, aguardam o momento de pisar o solo italiano. A operação decorreu sem anormalidades. Todo um dispositivo aguardava os brasileiros, que foram conduzidos, logo depois do desembarque, ao rest center de Bagnole, nos arredores de Nápoles."

Texto de Joel da Silveira
"A Luta dos Pracinhas" - Joel da Silveira e Thassilo Mitke
Editora Record - 1983


Unidades do 2° Escalão da FEB desembarcam na Itália. Nápoles, 1944
Arquivo Diana Oliveira Maciel

"Amanhece. Navegamos no tranqüilo e belo Mediterrâneo. Chegamos, afinal, ao nosso destino. Adentramos a baía de Nápoles, coalhada de navios de todos os tipos, calados e tamanhos. Balões de barragem, brilham ao sol. São estarrecedores os efeitos das destruições perpetradas pelos alemães, quando de sua retirada. Edifícios portuários sem fachada, cais com os guindastes derrubados, submarinos afundados, navios parcialmente submersos, adernados, de quilha fora d'água. Alguns cascos são aproveitados como pranchas de desembarque e, até mesmo, como cais improvisado. É intenso o movimento do porto e avultado o movimento de descarga. Posso contar mais de cem navios e embarcações de variados tipos. Ao longe, o Vesúvio domina o cenário. Começa a atracação e, novamente, me vem à lembrança o meu Ceará e seus 'verdes mares bravios'."

Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira
"Tempos e Homens que passaram à História"


Unidades do 2° Escalão da FEB desembarcam na Itália. Nápoles, 1944
O segundo soldado da fila é Iório Adami
Arquivo Diana Oliveira Maciel

Sozinho no Mundo

São oito horas da manhã, o General Meigs começa a atracar em Nápoles. Pouco antes do desembarque, debaixo de um frio de matar e de uma névoa fechada, o Coronel Mário Travassos, comandante da tropa embarcada no 3º Escalão, assim falou ao grosso do pessoal reunido no convés maior da popa: "Chegamos à Itália duplamente satisfeitos. Vamos nos juntar aos camaradas de ar - mas que lutam neste teatro de operações e, assim, temos a certeza de que já fazemos parte da representação do Brasil no campo de batalha. Estamos convencidos de que no Brasil nossos entes queridos pensam e sentem como nós. Estes são os fundamentos do estado moral da tropa sob o meu comando." Antes uma chuva fina, feita de agulhas penetrantes e impiedosas, nos recebera quando passávamos diante de Capri. E agora estamos diante de uma Nápoles nublada e triste. Vejo-a assim, amarfanhada e encolhida, mas penso comigo mesmo que se houvesse sol ela bem que poderia ser Salvador. Ou com ela parecer. Porque, como em Salvador, sãos duas Nápoles, a de cima e a de baixo; e, como em Salvador , as colinas se multiplicam e as ladeiras sobem ou escorregam, algumas quase verticais. Escrevo rapidamente esta reportagem precisamente quando o General Meigs inicia as manobras de atracação. Os últimos avisos e ordens já estão sendo transmitidos pelas várias e possantes bocas dos alto-falantes - algumas em inglês, a maioria em português, e todas resumem uma só orientação: a de como a tropa de mais de seis mil homens deve se comportar quando do desembarque; e, em seguida, quando de sua permanência no cais, sob a chuva fria, permanência que se calcula seja longa. Toda a tropa enverga os seus uniformes mais pesados: japonas, gorros, luvas, pesadas botas, meias de lã. Às nove horas, quando mais encrespadas se mostram as águas da baía, começamos a descer no porto entulhado de navios de toda espécie, a maioria americanos, ou de: dezenas de outros, agora apenas calcinados esqueletos de ferro, alemães e italianos, postos fora de combate pelas bombas dos Aliados. Interrompo esta reportagem - também eu tenho que descer. Sou o número 278 na ordem de desembarque, e dentro de mais alguns minutos, com mais de 50 quilos de bagagem às costas, estarei pisando num chão estranho e hostil. Despeço-me do Coronel Mário Travassos, com quem fiz boa camaradagem durante os 17 dias de viagem, ele me aperta a mão, sorri e me diz: Bem, lhe trouxe vivo até aqui. Agora, a partir do cais, é por sua conta. Você tem de chegar a Roma, segundo me diz. E de lá até Pistóia. Pois tem de fazer isso sozinho. Até breve. 
Desço, me ataranto um pouco, procuro um rumo. Tudo me parece um deslumbramento: as casas partidas ao meio, os meninos andrajosos do porto, que me estendem suas mãos magras e súplices, o emaranhado dos fios telegráficos que se enrolam nos postes como cobras, as mil tabuletas em inglês avisando, ordenando e orientando. Que devo fazer, assim largado com minha bagagem numa cidade que nunca vi, num mundo do qual jamais suspeitei? Uma folha perdida num torvelinho, um pobre e atarantado jovem de repente envolto num turbilhão. Nada aqui me pertence, nada tem a ver comigo. E no entanto aqui me jogaram para que eu cumpra uma missão - e terei que cumpri-Ia, de qualquer maneira. Nenhum desses homens, fardados ou à paisana, conquistados ou conquistadores, nenhum tem motivo para me conceder um gesto amigo. E até me falta a língua local para as necessidades mais prementes de comunicação. A bagagem me pesa, o frio é cortante - desce certamente daquelas montanhas cinzentas, de cumes gelados, que já se avistavam muito antes do navio entrar na baía; ou talvez deste céu de chumbo, fechado como uma enorme porta há muito emperrada em suas dobradiças - um céu duro, indecifrável, asfixiante. Na portaria do albergo, que me indicaram a bordo como sendo onde se reúnem os jornalistas, o homem magro, olhos úmidos e pigarro insistente, entende a custo meu italiano incipiente (aquele que vim treinando a bordo com a ajuda de um dicionário), ajuda-me a carregar os dois sacos verdes; o terceiro, carrego-o eu. Na hora de pagar, em liras que ainda a bordo já foram trocadas por dólares, ele rejeita o dinheiro; quer cigarros, chocolate, caramelos, qualquer coisa que possa comer; ou até mesmo uma peça de vestuário, uma blusa, uma suéter. Aqui vou ficar um, dois dias, até encontrar uma alma caridosa (e militar - civil não pode sair da cidade sem ordem expressa do Comando Militar) que me leve a Roma. Então isto é que é a guerra? - eu me perguntava. Ambulâncias se enfileiravam no cais, descarregavam feridos. Bandos de soldados ruidosos, meio bêbados, enchiam as ruas. E quando veio a noite - a primeira - veio completa, definitiva, camadas e mais camadas de treva e de nevoeiro. Munido da minha lanterna, arrisco andar pelo centro da cidade - aventura que me enche o coração de medo: é um desafio! Vozes e ruídos vêm da escuridão, indistintos, como um marulhar. Mulheres sorriem como autômatos, num exagero de batom, algumas vestidas apenas com os pesados casacos que as cobrem. Na praça de canteiros já sem forma, a estátua eqüestre de um herói qualquer havia perdido um pedaço do pedestal, agora transformado numa disforme ferida de cimento. E chegam do cabaré - ou music box - próximo, destinado apenas aos soldados, os sons de um blues mal tocado. Pois aqui estou eu sozinho na enorme cidade subvertida, ferida de morte, invadida e estuprada de dias cinzentos e empoeirados que cheiram a gasolina e a pus, a grande cidade talada pela guerra. Aqui estou eu sem amigos e sem direção. Então, num lampejo, tudo me pareceu adulto - inclusive eu. Era isto: tudo amadurecera subitamente, a cidade, a noite, eu, os próprios meninos (numerosos e barulhentos como um enxame de abelhas famintas) que me perseguiam de mãos estendidas, sujos, insistentes, um bando sem fim de pequenos espantalhos. Tudo está maduro, à espera da morte.

Texto de Joel da Silveira
"A Luta dos Pracinhas" - Joel da Silveira e Thassilo Mitke
Editora Record - 1983


Pracinhas brasileiros nos arredores Nápoles
F
oto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
de Joel da Silveira e Thassilo Mitke
 

Enfim... Nápoles!

No dia 6, ao levantar-me do leito escutei nitidamente o alto falante anunciar que estávamos entrando no porto de Nápoles. Uma alegria pouco comum se transmitiu instantânea e indistintamente a todos aos primeiros sinais de terra, após treze dias a bordo. Nápoles! Enfim, Nápoles! Era a exclamação que se ouvia de toda parte. Enquanto percorríamos a baia, víamos do lado esquerdo as primeiras casas da ilha de Capri, famosa por ter sido a eleita entre as demais para vilegiaturas e amores dos imperadores romanos. Além, à direita, as casas vão aumentando. A baia de Nápoles, cercada de morros vai-se alargando pouco a pouco. Ao fundo, o Vesúvio, a aparentar absoluta calma, altaneiro, majestoso e traiçoeiro, pronto a despejar suas lavas e cinzas. Foi triste a primeira impressão: barcos, navios, lanchas, submarinos avariados e retorcidos pelo efeito de pesadas bombas, afundados em parte; as fábricas com as suas chaminés sem fumo, bombardeadas, outras sem dano, porém sem trabalho; no cais, homens que querem trabalhar em troco de qualquer alimento ou de um cigarro; muitas casas sem teto, outras com ostensivas demonstrações de bombardeio (grandes rombos nas paredes e nos assoalhos, nos tetos), como no edifício do Controle do porto que estava a cair. O navio transporte General Meigs entra primeiro que o General Mann, aproxima-se do cais e atraca. O relógio do cais está parado precisamente na hora em que recebeu o bombardeio, isto é às 8 hs 35 min. Próximo ao porto está situado o Castelo do Ovo e ao fundo, em cima do morro, está edificado o Castel San Elmo. Somente no dia 7, pude sair do General Meigs e ir ao centro da cidade e arredores. A população, lia-se nas fisionomias, estava sofrendo, inquieta, atravessando rude fase de sua história. A miséria da cidade de Nápoles consternava. As dificuldades reinantes na Itália, motivadas pelo curso das operações militares, pois estavam pisando seu solo ingleses, americanos do norte, brasileiros, outras nacionalidades e os próprios italianos combatentes, faziam com que esse povo sofresse mais que qualquer outro. Sofreu dos próprios aliados alemães em retirada; sofreu a ocupação benfazeja dos americanos, que procuravam restabelecer a ordem, impondo uma dominação necessária e absoluta. As quantidades de tropas, de materiais de guerra, o incalculável movimento de veículos, davam bem a impressão da capacidade americana e o vulto das operações na Itália. No centro da cidade viam-se amostras das tropas que estavam lutando neste teatro de operações, pois cruzavam, a cada instante, ingleses, franceses, americanos (brancos e pretos), brasileiros, sul africanos, australianos, todos distinguindo-se pelos uniformes, diferentes do italiano e do tedesco, a que o povo já se habituara, dado o tempo que os alemães permaneceram na Itália. 

"O 11º RI na 2ª Guerra Mundial"
General Delmiro Pereira de Andrade
Biblioteca do Exército - 1950


Pracinhas brasileiros no rest center de Bagnole, nos arredores de Nápoles.
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
de Joel da Silveira e Thassilo Mitke

"Estamos novamente entre o céu e o mar. Cai a noite e com ela, os que ainda resistiam ao enjôo. A embarcação salta de todo jeito. Range, estala, geme e treme. Sacode tudo e tudo vira de pernas para o ar. Mergulha a proa, inclina para bombordo, afunda a popa, inclina para boreste, eleva a proa, salta sobre a onda. Aos primeiros clarões subo a tempo de ver a ilha de Elba, donde saiu Napoleão Bonaparte para os seus gloriosos 100 dias. Avisto Livorno, cerca de 14:00 horas. Brilhando ao sol mais de 10 balões de barragem. Afinal, o LCI lança ferro e fica preso pela popa. A arrebentação tenta arrastá-lo para a praia e, como não consegue, a popa emerge da água, provocando uma desagradável trepidação. Afinal chega nossa vez de avançar até o porto onde cautelosamente navegamos entre mastros, pontes de comando e quilhas de oito navios afundados. Às 12 horas do dia seguinte, conseguimos afinal pisar em terra firme. Uma neblina incomodativa aumenta o lamaçal e nos encharca o uniforme. Nova espera carregando a mala. Afinal, trepamos nos caminhões e nos largamos mastigando os biscoitos da Ração K. Atravessamos uma planície interminável, coberta de relva e ponteada de grupos de arvores. Aos lados da estrada, grandes depósitos de material e uma atividade incessante. Nas portas das casas, o povo gritando, sorrindo e correndo para apanhar os chocolates e cigarros que a soldadesca lhes atira. Homens rotos e maltrapilhos, vestindo uniformes verdes dos italianos. Penetramos nos arrabaldes de uma cidade. Cruzamos uma ponte de campanha. Há outras, destruídas. São evidentes os sinais de combate. Olho para a direita e vejo a Torre Inclinada. Estamos em Pisa. Acabamos de cruzar o Rio Arno. Chegamos ao acampamento, na Quinta Real de San Ressore."

Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira
"Rasgando Papéis - Reminiscências"


De Nápoles a Livorno
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

 

De Nápoles a San Rossore

O dia 9 de outubro foi de expectativa, aguardando-se o transporte da tropa do 2º escalão para a área de treinamento (Stating Area) de San Rossore. Devíamos deixar o transporte General Meigs e seguir para Livorno nos barcos transporte. Somente as 11 horas deram início ao desembarque e nesse momento entravam no porto e atracavam os LCI (Landing Craft Infantry). O 11º Regimento deveria marchar juntamente com o 1º Grupo de Artilharia, que formariam um "combat team" para atuar nas operações de guerra. Esse grupo de Artilharia estava sob o comando do Ten. Cel. Waldemar Levi Cardoso. Coube ao Regimento um certo número de barcos transportes, num total d 28, lotando cada barco, de acordo com a sua capacidade variável, entre 178 e 200 homens. Às 13 horas, o Regimento iniciava seu embarque interrompendo-o porém, devido dificuldades de atracação de um dos barcos, que prejudicou a dos outros. A operação terminou às 20 horas e meia. Coube ao comando do regimento o barco 589, cujo comandante era um moço americano, muito agradável, de 22 anos apenas. Um dos barcos tinha a tripulação de 22 jovens, de 20 a 22 anos.

"O 11º RI na 2ª Guerra Mundial"
General Delmiro Pereira de Andrade
Biblioteca do Exército - 1950

 


A Caminho de Livorno - da direita para esquerda: 
Tácito Theóphilo e Eurico Capitulino de Barros
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

Um mês após o desembarque, o 1º Contingente já se achava concentrado e subordinado ao V Exército dos EUA, sob o comando do General Mark Clark, no Campo de Planadores de Tarquínia. O Comandante brasileiro Mascarenhas de Moraes, em companhia de Zenóbio da Costa e outros oficiais compareceu ao Quartel General do V Exército americano, em Cecina, onde prestou continência de praxe, recebendo manifestações de simpatia e apreço. Sir Wiston Churchill, Primeiro Ministro da Inglaterra, foi recebido, também, em Cecina, sob forte guarda de honra, referindo-se, no ato, à cooperação do Brasil no palco de operações de guerra.


Os LCI
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

Um Herói nunca morre!

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