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FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA |
A Vida diária.
Higiene e alimentação. Novos hábitos.
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Descrevendo a chegada ao quartel do 11º RI, em São João del Rei, dos soldados que vieram de outras unidades, para completarem os quadros do Regimento, rememora o General Octavio Costa: "Ao ver a indisciplina e a revolta dessa noite de chegada, tremi de pensar que aqueles seriam os nossos combatentes." A primeira prova a que se submeteram os soldados, após o período de treinamento, foi sem dúvida a viagem para a Itália, em navio-transporte. A disciplina imposta era muito dura, a rotina tremendamente monótona e a ameaça de torpedeamento do navio era constante. Os porões de alojamento superlotados; no convés, o exíguo espaço só era disponível por algumas horas já que a maior parte do tempo, por questão de segurança, a tropa ficava trancada nos seus alojamentos. Todos esses fatores e a angústia da incerteza criavam pressões que concorriam para o aparecimento de quadros psicóticos, desequilíbrio nervoso, crises histéricas e outras neuroses. O navio estava preparado para essas ocorrências. Além de uma equipe de atendimento, havia celas especiais totalmente acolchoadas onde os pacientes permaneciam sem perigo de se ferirem ou se mutilarem em momentos de crise e, sobretudo, ao ficarem segregados dos demais, evitava-se a propagação do pânico. O General Cordeiro de Farias relata que no navio que transportava a tropa sob o seu comando, ocorreram alguns casos de distúrbios psíquicos. Conversando com o oficial americano da tripulação, este o tranqüilizou dizendo: "Não se preocupe, vocês ainda estão aquém da média, ainda há duas celas vazias". os registros de casos de perturbações psíquicas, durante o transporte da FEB para a Itália, indicaram que a tropa se adaptou, reagindo bem a essa nova situação. Na chegada e nos primeiros dias de acampamento registraram-se casos de indisciplina prontamente corrigidos. Nessa ocasião, o soldado começou a entrar em contato com a realidade que o esperava: a guerra. Novo tipo de alimentação, de vestuário, de equipamento, as razões do combate e a nova experiência de relacionamento dom a população civil, povo amável, mas profundamente traumatizado pela guerra travada em seus campos e à porta de suas casas. "A FEB por um Soldado" - Joaquim Xavier da Silveira |

Gen Mascarenhas de Moraes,
Gen. Willis Crittemberg e Gen. Zenóbio da Costa
Foto escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos"
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A Força Brasileira estava acampada nos arredores de Pisa, a quatro quilômetros da cidade, no local destinado às caçadas da realeza italiana, San Rossore, oferecendo o conforto necessário para uma tropa em guerra. Desde o amanhecer de 23 de outubro a chuva caía intermitentemente, porém, contrariando-a, a instrução prosseguia como também o recebimento e a distribuição de peças de uniforme próprio para o inverno e para a chuva. A despeito do mau tempo continuava incessante a faina diária, não diminuindo seu ritmo já normalizado na vida das classes armadas, principalmente na campanha. O III Batalhão, sob o comando do Major Cândido Alves da Silva, fazia uma marcha de treinamento; o I Batalhão, sob o comando do Major Jaci Guimarães, executava tiros de toda espécie, bem assim as Companhias Regimentais, que exercitavam com seus obuses, com os seus mineiros, com os seus observadores, com os seus canhões anti-tanques; o II Batalhão, sob o comando do Major Orlando Gomes Ramagem, fazia uma marcha em sentido contrário ao III Batalhão. A chuva impiedosa colheu os batalhões em movimento e nas instruções diversas. Pela primeira vez, no dia 26 de outubro, o Regimento apareceu fardado com o uniforme americano, estando perfeitamente em condições de suportar a água abundante e o princípio do inverno que se aproximava. E assim a unidade se apresentou de "field-jack", galochão e capacete de aço, todas não usadas ate então, e agora semelhantemente fardado como os demais na Europa. Nossa tropa uniformemente fardada e equipada tomou um aspecto garboso e marcial do soldado já veterano, que se batia no front. O Regimento passou por uma transformação interessante nos seus hábitos e costumes. É importante falar de passagem na alimentação que recebeu, pois habituado a manter-se de substancias em grande quantidade ou volume, alimentava-se naquele momento de alimentos vitaminosos, variados, lácteos, gordurosos, bastante açúcar, que não enchem o estômago, porém fortificam o organismo pelos princípios científicos de que são dosados; daí, a facilidade dos Estados Unidos poderem alimentar milhões de homens igualmente, fartamente, sadiamente e higienicamente. Essa questão de alimentação do povo é vital para os governos que tudo devem envidar para que resolvam o magno problema, como sabiamente fizeram os Estados Unidos. Para que possamos fazê-lo é preciso plantar racionalmente em grande escala; desenvolver as indústrias em todas as zonas (grandes e pequenas indústrias); educar o povo como deve alimentar-se. Outro hábito adquirido pelos nossos soldados é a higiene; em qualquer parte em que está a tropa deve encontrar-se o mesmo ambiente de uma casa de residência, porque o quartel, ou acampamento, é a casa dos que se acham momentaneamente servindo às forças armadas. Não se vê um fósforo, uma ponta de cigarro, um escarro, uma casca de fruta ou um pedaço de papel no chão, porque para qualquer desses casos, há um vaso próprio ou ele desmancha a ponta do cigarro e o desfaz com o pé colocando os restos no vaso. As fossas são as mais higiênicas possíveis e ali há tudo que se pode necessitar no momento e abundância de desinfetante.
As cozinhas de campanha são tão limpas como se fossem de casa de família e uma não ficaria devendo à outra. Há apenas marmita para oficiais e praças da tropa e existem três depósitos próximo ao rancho: um para lavagem na água fervendo, outro na água com sabão e outro com água para última lavagem, ficando desse modo a marmita completamente higienizada, pois seca ao ar livre.
A tropa fardada com os seus novos uniformes e com a mudança de clima e de alimentação estava-se apresentando bem, com o moral alevantado e se instruindo nos novos terrenos, apenas aguardava com serenidade sua entrada na linha de fogo, porém antes deveria passar por outro campo de instrução onde pudessem ser feitos exercícios com tiros reais e em conjunto o Grupamento de Combate (Combat-team). Tivemos uma permanência de 40 dias na área de estacionamento submetendo-se o Regimento a um programa de instrução que visava a instrução física, geral e técnica. Devido à existência de minas em grande quantidade nos arredores, não era possível realizar exercícios táticos. Foram feitos Cursos de informação, de guerra química, de minas e de comandante de pelotão sob a direção de oficiais americanos, não só na própria cidade de Pisa, como em Caserta, próximo a Nápoles. A instrução de tiro teve grande intensidade, bem como a dos especialistas e, mais ainda, um estágio de 3 a 4 dias na linha de frente, junto ao 6º RI para oficiais e sargentos. No dia 20 o Regimento marchou para Filletolle, 12 kms ao Norte de Pisa, afim de fazer exercícios táticos durante uma semana. No último dia do exercício, na manhã de 27, às 8 horas, já o III Batalhão deixava a área com destino à linha de frente. A 27 e 28 os I e II Batalhões ultimavam seu treinamento e foram transportados para Lustrola e Granaglione de onde, também, seriam transportados para a linha de frente. No dia 23 de outubro teve lugar a visita do General Mark Clark às Forças Expedicionárias Brasileiras. O General Clark era o Comandante do V Exército Americano, do qual fazia parte o IV Corpo, ao qual pertenciam as tropas do Brasil. Todas as unidades estavam formadas e o General Clark, ao lado dos Generais Mascarenhas de Morais, Cordeiro e Falconière, passou revista, tendo aquele chefe militar declarado sua boa impressão dizendo que "a tropa estava com muito bom aspecto". A chuva continuava a cair abundantemente. No dia 29 o General Mascarenhas de Morais mandou rezar uma missa na Catedral de Pisa, em ação de graças por toda a Divisão. Foi interessante o ato, tendo o capelão chefe feito uma bela oração sob o tema: "a Cesar o que é de Cesar, é a Deus o que é de Deus". Estiveram presentes à missa os Generais de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais, Euclides Zenóbio da Costa, Oswaldo Cordeiro de Faria e Olímpio Falconière da Cunha e representantes de todas as unidades da 1ª DIE. "O
11º RI na 2ª Guerra Mundial" |

Uma das cozinhas da FEB
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira
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Os
componentes do segundo e terceiro escalões desembarcaram em Nápoles no dia 6
de outubro e no dia seguinte seguiram em barcaças tipo LCI para o porto de
Livorno, onde chegaram no dia 11 de outubro. A tropa foi então transportada de
caminhão para o local do acampamento. Dessa vez não houve problemas, pois tudo
foi cuidadosamente preparado pelo comandante americano na Quinta San Rossore,
nos arredores de Pisa. A esta altura, o primeiro escalão (Destacamento FEB) já
estava em contato com o inimigo no Vale do Serchio. A maior parte da Divisão,
cerca de 10 mil homens, ia começar a ser equipada para entrar em ação; havia
inclusive prazo para que a tropa recebesse o material a ser empregado no
treinamento tático intensivo mas, por motivo alheio à vontade do comando, o
equipamento não chegou na data marcada. O atraso foi de 35 dias. O General Mark
Clark determinara que somente após a chegada do material seriam realizados
os exercícios durante 15 dias e para os quais a tropa se deslocaria de San
Rossore para a região de Filetole, local mais adequado. Com o atraso ocorrido
na entrega do armamento, todo o esquema ficou prejudicado. Atento ao problema, o
General Mascarenhas determinou que oficiais, sargentos e praças das
unidades de Infantaria do segundo e terceiro escalões estagiassem na frente,
com o Destacamento FEB, enquanto o pessoal da artilharia faria o mesmo com as
unidades de artilharia americana em posição. O comando FEB ainda se preparava
para completar seu armamento quando foi realizada a conferência de Passo de
Futa, em 30 de outubro de 1944, com todos os comandantes de unidades do V Exército.
Ficou decidido que a tropa brasileira deveria ser deslocada para o Vale do Reno,
para atender à diretriz do General Mark Clark, que desejava desencadear ao
longo da estrada Pistóia - Bolonha, operações ofensivas, com o objetivo de
capturar essa última cidade. Diante desse novo quadro, urgia que a tropa
brasileira, mesmo sem treinamento completo, mudasse para o setor indicado e
entrasse em linha. Foi assim que a FEB terminou seu treino em combate, o
"on the job training", fórmula que os americanos usaram mais de uma
vez com suas próprias tropas, forçados por contingências da guerra. A ordem
de batalha determinava que a Divisão brasileira se agrupasse no Vale do Reno,
na região de Porreta Terme, afim de iniciar a luta contra os alemães
fortificados em Monte Castello. O deslocamento se processou dentro do
planejamento do comando brasileiro. No dia 9 de novembro, o General Mascarenhas
assumiu a chefia do setor Marano - Riola, onde se desenvolveria grande parte dos
combates. A FEB, com todos os seus elementos completos, constituía-se uma Divisão
de Infantaria prestes a iniciar os duros combates travados naquela região e que
iriam marcar a história da campanha na Itália. |

Gen. Zenóbio da Costa e Gen. Willis Crittemberg (16/09/1944)
Foto de Thompson do V Exercito, escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos"
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O perfil do soldado brasileiro é bastante complexo devido à miscigenação. Embora não haja um biótipo definido, é possível encontrar traços comuns ou mais acentuados quando observamos os usos, os costumes e o comportamento. Através da história e das observações feitas na campanha da Itália, pode-se afirmar que o soldado brasileiro tem uma alegria espontânea, aceita a hierarquia militar, tem imensa capacidade de adaptação, e, quando bem liderado, demonstra espírito combativo e coragem pessoal. "A FEB por um Soldado" - Joaquim Xavier da Silveira |
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