FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

Hino Nacional cantado pelas tropas brasileiras na Catedral de Pisa,
sob bombardeio que pode ser percebido durante a gravação.
Salve Aqui

 


Instrução em San Rossore
Foto escaneada do livro "100 Vezes responde a FEB"
 Marechal José Machado Lopes

 

Uma Hora Santa

Dia 22 de outubro. Ao chegar ao acampamento o meu 11º Regimento de Infantaria, procurei os capelães Fr. Orlando, Fr. Alfredo e padre Elói, todos da unidade, e pedi-lhes que se interessassem, pois desejava que fosse rezada uma missa na Catedral de Pisa em ação de graças por havermos chegado salvos ao ponto de destino, após uma longa viagem, para a travessia do Oceano Atlântico, Mar Mediterrâneo e Mar Tirreno. Foi para nós particularmente agradável ver chegar a San Rossore, distrito de Pisa, o nosso Regimento com todos os seus componentes com a fisionomia alegre, pois pela primeira vez tropas sul americanas pisavam terras européias. Os brasileiros com a alma moça e ardorosa, vingariam nossos concidadãos, nossos patrícios, que foram mortos estúpida e traiçoeiramente nas costas do Brasil, quando viajavam pacificamente ao lado de suas famílias, compostas de jovens, crianças e senhoras indefesas. A incumbência dada aos prestimosos e amigos capelães foi com a melhor vontade solucionada junto ao vigário de Pisa, que aprovou a idéia. No dia 22, às 9,30 horas, a igreja recebia a quase totalidade do 11º Regimento e a oficialidade da 1ª D.I.E., tendo à frente o General de Divisão João Batista Mascarenhas de Morais. A igreja suntuosamente, ricamente ornamentada com as próprias pinturas, mármores, colunas notáveis, confeccionadas com material trazido da Terra Santa, estava literalmente cheia; soldados de várias unidades brasileiras e seus oficiais, soldados e oficiais estrangeiros, famílias locais e o nosso regimento que compareceu em sua totalidade. Foi um ato impressionante e marcante para a história dos dois povos: de um lado o brasileiro que, pela primeira vez, pisava o solo italiano para auxiliar sua defesa contra o inimigo audaz que tudo lhe destruiu após ter deixado de ser um amigo, transformando a Itália em terra devastada, faminta e sem poder reagir contra aquele que a dominara durante anos; do outro lado o italiano abatido, humilhado e esgotado não só pelo amigo de então, como pela luta tremenda no seu território, vendo o império se desmoronar qual castelo sem alicerce que cai aos pedaços pela sua própria fragilidade, embora de certo modo satisfeito por se ver depois dominado por um povo que compreende o que é liberdade, que sente e executa a democracia e interpreta e cumpre a lei e distribui equitativamente a justiça, como sói ser o americano. A igreja como que viveu um dos seus maiores dias, onde o esplendor, o encanto, a maviosidade do ato fizeram remanescer naquele recinto a alegria, a doçura, a pureza das horas vividas na paz espiritual daqueles momentos passados na linda Catedral que tantas vezes abrigou papas e bispos que iam, em época longínqua, render graças a Deus por terem conseguido suas intenções. Os capelães militares do Regimento que cantaram a missa e abrilhantaram com vozes educadas, estiveram felizes nesse dia, vivendo perfeitamente para o santo sacrifício da missa até o instante em que foram tangidos pelos acordes musicais do órgão maravilhoso da igreja. Ao mesmo tempo os cânticos mais tocantes eram entoados e magnificamente acompanhados pela extraordinária orquestra da Catedral de Pisa. Esse coro mavioso que se fez ouvir por ocasião da missa era composto de vozes conhecidas no meio, artístico paisano, de renome e celebridade e, de fato, todos ficaram encantados, principalmente com o tenor que dominava o ambiente, enquanto que o contra baixo tornava o conjunto extremamente belo. Antes de terminar a missa, às 10,35 horas, Fr. Orlando, um dos dignos capelães do 11º RI fez um sermão explicando as razões daquele ato solene, tendo agradado a todos os ouvintes. O auditório como que se empolgou pelos arroubos oratórios, belas imagens, sua excelente cultura, sua perfeita dicção, tudo, enfim, fez vibrar a alma dos assistentes. Estes sentiram instantes de frêmito patriótico, de saudade, de esplendor e graças, pois Fr. Orlando, o frade que acompanhou o 11º Regimento, desde S. João del Rei, com o seu verbo entusiasta e erudito, fez tocar de saudades àqueles que ouviram sua palavra fluente. Estou certo que, mesmo aqueles que, embora não falando português, escutaram sua prática, entenderam sua linguagem religiosa, sua peroração pedindo a benévola intervenção de Deus para que voltasse a paz à Humanidade e os brasileiros ao seio de suas famílias. A manhã magnificamente cheia de claridade e esplendor e ganha galhardamente pelos capelães do 11º Regimento, oferecendo uma festa religiosa aos seus soldados, causou excelente resultado; não só penetraram na história católica de Pisa, sob a proteção e a evocação do Criador, como fizeram, sob os auspícios divinos, a aproximação do povo com os soldados brasileiros que foram lutar na Itália contribuindo para sua libertação. Fr. Orlando fizera uma síntese histórica da igreja de Pisa, onde pela primeira vez pregara um sacerdote brasileiro diante de tantos patrícios seus e mostrou que aquela Catedral, que data do ano 1065, tem suas colunas a olhar-nos, como contemplando no presente seu afanoso passado. Toda vez que ergue sua voz, que olha para os céus numa súplica de carinhoso pedido ao Deus todo Bondade, contempla sem querer as figuras de artistas famosos como Giovanni Bonzano e vê diante de si, qualquer que seja o lado para onde se volta, a figura máxima de Miguel Ângelo, que perpetuou na Catedral de Pisa, com a sua arte magistral, os melhores trabalhos do mundo. Miguel Angelo e Giovanni Bonzano, aos quais Pisa tanto deve, escolheram essa igreja para ser eternamente um momento de arte. A grandeza espiritual do ato que os capelães do 11º Regimento celebraram teve maior repercussão porque recebeu um reforço de arte e de encanto. Era arte, porque foi rezada a missa num templo que, para qualquer parte que olhávamos, havia um motivo de arte que encantava e que revivia um passado, uma história, uma vida; encanto, porque em cada quadro, em cada candelabro, em cada santo, tínhamos a contemplar as mãos que executaram o pensamento dos maiores artistas de todos os tempos e que ainda vivem nas tintas, no pincel e nas realizações. Para maior esplendor da festa havia ainda o reforço que lhe trouxe com o seu concurso artístico a orquestra que soube ser uma maravilha dentro do templo maravilhoso; e, por fim, a presença das Forças Expedicionárias Brasileiras e as famílias da localidade. Antes de terminar a missa, foi intercalada uma cerimônia que causou um arrebatamento que quase fez os brasileiros exultarem de alegria, de entusiasmo patriótico: ao ser levantada a hóstia santa ouviu-se a orquestra tocar o hino brasileiro e todos os presentes cantaram-no. Essa cerimônia tornou mais encantadora a festa religiosa, que foi uma verdadeira consagração. Assistiu à missa Nossa Senhora Aparecida, Nossa Senhora do Brasil que, após terminada a cerimônia, foi conduzida em procissão em torno da igreja, terminando desse modo a festividade que consistiu em uma hora santa.

"O 11º RI na 2ª Guerra Mundial"
General Delmiro Pereira de Andrade
Biblioteca do Exército - 1950


A Chegada da Correspondência
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
Joel da Silveira e Thassilo Mitke

A Correspondência

Nada é tão necessário na FEB para manter o bom humor, a alegria e fortalecer o animo do combatente brasileiro do que a correspondência. Esta tem a força inigualável do bem e derrama sobre as pessoas um fluído ameno nascido de coração saudoso e distante, cheio de anseio, de puro sentimento. Cada letra é um característico que exprime uma súplica, uma saudade, uma prece, uma lágrima e elas se volatilizam e atravessam mares, cadeias de montanhas, vales e rios procurando um simples e pobre agasalho no coração que sofre a separação imposta pelo dever. É incalculável, portanto, quanto é serviçal, como causa bem estar a correspondência do expedicionário, que recebe notícia da progenitora, da esposa, da filha, da noiva ou de um amigo, causando a maior satisfação, trazendo calma e paz para o seu espírito, consolação para seu isolamento, resignação nos momentos em que combate, satisfação pela tranqüila conformação da família e conforto pela elevação de sentimentos dos entes queridos. Os exércitos modernos, reconhecendo o valor inestimável de uma carta, de um simples recado pela radiofonia ou telefonia, instituíram serviços indispensáveis como esses e o correio, para que seja amenizada um pouco a distância entre o combatente e a família. As forças brasileiras em operações, acompanhando o progresso de suas congêneres, organizaram também o serviço de correio para as suas tropas. O desejo de bem servi-las criou paralelamente a transmissão por meio da radiofonia e da telefonia e ambas desempenharam valiosa contribuição em combinação com a Rádio Nacional e a Guanabara. No Rio de Janeiro a LBA. se multiplicava para que o expedicionário recebesse sempre presentes e tivesse constantes notícias das pessoas da família e amigos e, assim, além de se interessar para que o serviço de correspondência fosse o mais rápido possível, ainda organizou um trabalho especial de transmissão de mensagens aos expedicionários, que causou magnífico resultado e foi uma interessante criação dessa magnânima instituição. Deficiente e moroso o serviço de correspondência proporcionou, entretanto, ótimo efeito. Não é calculável, facilmente, a satisfação que pode causar o recebimento de uma notícia das pessoas da família, quando alguém está longe da Pátria, dos entes queridos e em guerra. Somente quem estiver em situação semelhante poderá avaliar como é benfazeja uma carta, mesmo que seja pequena. É um bálsamo, é um conforto, é um calmante, principalmente a primeira carta que normaliza um coração cheio de ansiedade, de aflição, de impaciência. E quando se escuta distante a voz do ente querido? A emoção transforma de tal modo que muitos não podem falar. Na voz daquele que pela primeira vez escuta alguém ouve bem nítido o soluço da saudade. É um grande benefício, e merece os maiores elogios dos técnicos do Exército Brasileiro, que prestaram tão relevantes serviços ao expedicionário.

"O 11º RI na 2ª Guerra Mundial"
General Delmiro Pereira de Andrade
Biblioteca do Exército - 1950


Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
Joel da Silveira e Thassilo Mitke

O ANJO POSTAL

O Serviço Postal aqui na frente está localizado em apenas duas salinhas repletas de caixotes e embrulhos. Lá dentro, dia e noite, estão o terceiro sargento Ivan Montezano de Matos, um rapaz de Jacarezinho, no Paraná; o cabo Antônio Alves de Souza, de Caçapava, em São Paulo; o cabo Eduardo Cardoso; o soldado Euclides Baglioli, de Curitiba e o soldado José Gonçalves Vieira Neto. São os donos da Seção do Correio. Há ainda a Seção Telegráfica onde trabalham o terceiro sargento Eudaro Mendy Ruiz (ele mora na rua Gustavo Sampaio, 58, no Leme, D. F.); o cabo Humberto David, rua General Caldwell 202, no Rio; o cabo Olavo Gomes Correia, rua Zamenhoff, 61, no Rio e o soldado Luiz Felipe Nery, rua da Passagem 230, no Botafogo. São apenas homens e soldados, se vestem como nós, comem nas horas do "rancho" e poderão, perfeitamente passar despercebidos numa multidão de pracinhas. Mas, às vezes é possível descobrir uma auréola de santo sobre a cabeça de cada um. E às vezes é também possível enxergá-lo como figuras demoníacas, com cauda, chifres e demais características de Satanás. O sargento Ivan, por exemplo, vira Santo Ivan quando nos recebe com um sorriso encantador e nos diz: "O senhor não é fulano? Pois aqui tem uma carta para o senhor". Amanhã Santo Ivan pode nos aparecer inteiramente transformado. Basta que qualquer um de nós, pracinhas, sargentos, tenentes, majores ou coronéis, estejam sem notícias de casa há mais de vinte dias e receba do sargento Ivan uma informação assim, rápida e fatal: "Não tem nada ainda para o senhor. Há quinze dias que não vem mala". Por estas duas salinhas passa toda a correspondência que vem do Brasil para a frente. A carta da namorada do pracinha, da esposa do tenente, do filho do sargento, dos nossos amigos, amados, parentes, rogos, incentivos, pedidos, tristezas, alegrias, notícias de nascimentos e de mortes, tudo. Os caminhões esperam na porta e distribuem tudo isto pela frente. A carta que veio de Guaratinguetá, por exemplo, passou pelo Rio, tomou lá o avião, saltou em Nápoles, de Nápoles seguiu para Livorno, de Livorno veio aqui para o Recuado. Do Recuado seguirá para seu destino certo: um ponto qualquer num ponto mais avançado da frente, um "foxhole", um "PC", um esquadrão de reconhecimento. Os envelopes se acumulam nos bornais ou nos largos bolsos dos fardamentos, e muitas vezes são relidos diariamente, como uma necessidade. Uma noite dessas eu estava num ponto qualquer da frente quando um grupo de soldados e um sargento voltava de uma patrulha. Estavam todos cansados e cobertos de neve. Alguém, então, avisou ao soldado: "Chegou uma carta para você". Os olhos do soldado brilharam muito e ele esqueceu todos os seus cansaços e frios. Nem chegou a tirar o pesado capacete: foi para um canto, perto do fogo, e ficou lá minutos e minutos, perdido nas acanhadas notícias que vinham de sua casa. O fogo derretia a neve que encharcava seu capote, havia lama grossa nos seus sapatos, mas aquele era um homem feliz. E já que falamos em cartas, citemos aqui um exemplo mais próximo e concreto: o exemplo deste pobre correspondente. Vinte e dois dias sem uma única notícia, e eis que hoje pela manhã o Santo Ivan mandou me avisar: "Tem uma carta para o senhor". Modestas e discretas linhas de um amigo não muito íntimo, apenas conhecido. Notícias gerais do Brasil, tudo muito enfarinhado. Mas é como se fosse um tesouro. O sargento Ivan está com a resplandecente auréola dourando sua cabeça de paranaense de Jacarezinho. Sobre recebimento ou não de cartas, aliás, já apareceu por aqui a paródia de um samba cuja letra ainda não consegui pegar direito. É mais um lamento triste do que uma caricatura alegre, já que não pode haver no front, pracinha mais desgraçado do que aquele que não sabe como vão as coisas em sua casa e sua terra.

"A Luta dos Pracinhas" - Joel da Silveira e Thassilo Mitke

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
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