FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 


Vista do interior da localidade após a conquista de Montese
Arquivo Diana Oliveira Maciel

"O combate de Montese foi a etapa de maior importância para a ofensiva da primavera. Objetivos foram perseguidos e conquistados, e mais terreno não foi ocupado porque perdera significação, face aos acontecimentos ocorridos no setor da 10ª Divisão da Montanha. A batalha de Montese contribuiu significativamente para o êxito do conjunto: fixou tropas numa região de grande importância, obrigou o inimigo a fazer enorme consumo de munição (mais de 3 200 projéteis de canhão foram atirados). Foi uma vitória muito dura. Os três dias de luta causaram à tropa brasileira 426 perdas, entre mortos e feridos, custo alto em vidas humanas, acentuando a importância que o próprio inimigo deu à posse da posição conquistada pelos brasileiros. O próprio General Mascarenhas, em suas Memórias, afirmou que Montese foi palco da mais árdua e sangrenta vitória das armas brasileiras na Itália."

"A FEB por um Soldado"
Joaquim Xavier da Silveira


Cordeiro de Farias em ação
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
Joel Silveira e Thassilo Mitke

Montese pode ser invadida agora, disse o general Cordeiro de Farias, após o martelar da cidadela em poder dos alemães. A FEB entrou na cidade sob o fogo dos nazistas, que se retiraram para Montello, mais ao norte.

"A Luta dos Pracinhas" 
Joel Silveira e Thassilo Mitke


Montese
Arquivo
Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira


O Esquadrão de Reconhecimento, sob o comando do Capitão Plínio Pitaluga, entra em Montese após o bombardeio
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas" - Joel Silveira e Thassilo Mitke

Montese foi, para mim, a mais árdua das missões da guerra. Fala-se muito de outros combates, mas eu considero que duro mesmo, foi MONTESE."

Marechal Cordeiro de Farias

 


Montese - 14/04/1945
Arquivo Diana Oliveira Maciel

"Na jornada de ontem, só os BRASILEIROS mereceram as minhas irrestritas congratulações; com o brilho de efeito e seu espírito ofensivo. A Divisão Brasileira está em condições de ensinar às outras como se conquista uma cidade."

General Willis Critenberger, Comandante do IV Corpo de Exército
sobre a tomada de Montese

 


Vista do interior da localidade após a conquista de Montese
Arquivo Diana Oliveira Maciel

"Mas a infantaria brasileira, continuadora da glória imorredoura de SAMPAIO, foi de todas as armas a mais sacrificada. Foi a ela que coube, em arrancada fulminante, pelo fogo ou pela baioneta, desalojar o inimigo de suas posições dominantes e poderosas, quebrar-lhe a fúria selvagem. A pé, de armas na mão, abnegado e estóico, arrastando-se na lama ou no gelo, ascendendo por penhascos através de vales profundos, indiferente às minas e aos fogos traiçoeiros, a um só tempo marchando e lutando, superior às intempéries e à fadiga, vai o infante brasileiro, em busca do inimigo, onde quer que ele esteja."

Marechal Mascarenhas de Moraes

 


Patrulha brasileira na região do Montese
Arquivo Diana Oliveira Maciel

A Morte de Montese

Estive aqui em Montese pela primeira vez três dias atrás, quando esta pequena cidade - singela como um presépio - ainda era para os pracinhas brasileiros uma conquista incerta. Os soldados do 11º Regimento de Infantaria já tinham se apoderado de mais da metade da cidade e dominado os últimos pontos de resistência dos alemães. Mas os nazistas, espalhados pelos montes em derredor, jogavam sobre a cidade, minuto após minuto, uma chuva interminável de morteiros. Nosso jipe - meu, de Egydio Squeff e de Thassilo Mitke - teve que correr como um foguete pela estrada quase impraticável, e assim mesmo tendo o cuidado de não sair um centímetro sequer fora da margem, toda ela minada. Até agora não sei como o motorista Adão - um fero cabo de São Borja - soube cumprir a dupla e ingrata tarefa de andar a 50 milhas por aquele caminho amaldiçoado. Encontramos em Montese apenas vestígios - ou melhor, resíduos - de uma cidade que em tempos de paz deveria ter sido um belo, um carino lugarzinho equilibrado numa crista suave, com a sua torre medieval, esguia como um pinheiro, o vale estendendo-se lá embaixo, suas coloridas bancas de jornal e seus monumentos antigos. Brasileiros e alemães, no contraponto da luta ofensiva e defensiva, reduziram Montese a ruínas. Durante horas, os homens do 11º Regimento lutaram de casa em casa, até que os últimos cinco alemães foram mortos diante da igreja, velha de séculos. Há quatro dias que Montese já está definitivamente em mãos dos brasileiros, mas ainda é um lugar sem sossego. Suas ruas estão desertas. Ontem à noite o que restava da torre veio abaixo - vítima de um morteiro alemão. O Posto de Socorro Avançado brasileiro, onde há três dias estivemos em visita aos pracinhas feridos, foi hoje pela manhã atingido por uma granada incendiária - e ainda agora arde como uma imensa fogueira que ninguém se preocupa em apagar. Nestes últimos três dias as coisas não mudaram muito em Montese. Os alemães continuam em suas casamatas, fincadas nas grimpas a menos de um quilômetro da cidade, e ainda não podemos andar a descoberto ou atravessar sem cuidado as ruas entulhadas de destroços. Muitas destas ruas, na parte sul da cidade, a que escorrega até o Vale do Panaro, bem lá embaixo, continuam bloqueadas, com suas casas desmoronadas e seus quarteirões minados. Se, por exemplo, quisermos passar aqui de onde estamos, do lado direito da Via Augusto Righi, para o outro lado, teremos, que fazer isso numa disparada, pois a menor demora ou descuido e um convite a uma certeira e raivosa rajada das metralhadoras "lurdinhas" dos alemães, ou a uma maciça concentração de tiros de morteiros. Escrevo esta reportagem do Posto de Comando do Major Henrique Oest, nesta que foi a rua principal de Montese. O andar superior do prédio onde me encontro simplesmente não existe mais, de forma que o major teve que alojar num quarto dos fundos, dos raros que sobraram, escuro como se fosse noite, todos os seus apetrechos de guerra, mapas, telefones, caixas de munição e de comida enlatada. As portas estão todas protegidas por sacos de areia, que também se acumulam no piso lá em cima. São precisamente 11 horas da manhã: escuto os morteiros alemães explodindo em diferentes pontos da cidade. Outros ruídos, diferentes e desiguais, me dizem aos ouvidos já acostumados com a voz da guerra que um outro muro ou casa de Montese foi abaixo e que uma nova cratera fumegante foi cavada nas proximidades. Quando os alemães fizerem uma pausa no seu trabalho, e eu conseguir dar uma espiadela lá fora, é mais do que certo que irei ver novos indícios da guerra que está acabando com Montese. Possivelmente o prédio que era a farmácia não existirá mais; e o esverdeado balcão da bela casa da esquina, debruçado sobre o vale, também já terá desaparecido. Ali, na paz, é o que me conta o velho contadino, os homens bebiam vinho, discutiam política e futebol. E as moças, nas tardes dos sábados e domingos, mostravam seus melhores vestidos. Se esta concentração de fogo alemão continuar, e o nosso PC começar a ser alvo fácil, o remédio é descer até a adega - um corredor úmido e sem luz onde os alemães deixaram enterrados litros e litros de um grosso e purpúreo vinho espumante. E se o tiroteio demorar, a solução é provar do vinho e deixar que ele, como um sangue novo, ponha em forma alma e nervos tensos e atormentados. Depois voltaremos para o mundo lá em cima, e o PC retomará a sua rotina: o major atenderá a incansáveis telefonemas de seus superiores ou subordinados, receberá e transmitirá ordens, pedirá tiros de nossa Artilharia sobre as cotas ainda dominadas pelos alemães, dirá alguns palavrões e blasfêmias, e repetirá 10 ou 20 vezes mais, neste resto de dia, a sua frase habitual: Eles não podem com a gente. Não podem mesmo.

"A Luta dos Pracinhas"
 Joel Silveira e Thassilo Mitke

 


Blindado e coluna de marcha da 1ª DIE na região de Montese
Arquivo Diana Oliveira Maciel


Interior da cidade de  Montese
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

Montese era a última resistência alemã, propriamente organizada nas montanhas.  Foi o extremo esforço que fizeram para conter a avalanche que descia implacavelmente sobre o Vale do Pó. Em Montese eles consumiram mais munição do que nas frentes das outras quatro divisões do IV Corpo. Ali jogaram sua cartada final. Depois veio a fuga desesperada. Quem não pudera resistir nas montanhas, contando com o auxílio do terreno, que esperança podia ter na planura? Montese é o último capítulo da Epopéia dos Apeninos, de que Monte Castello fora o primeiro. os frutos compensadores iam ser colhidos na planície, dentro de poucos dias, mas o esforço decisivo fora de Monte Castello a Montese. Com lances de bravura, destemor e sangue frio, pondo à prova todos os valores morais de nossa gente, a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária acabava de escrever a gloriosa e imorredoura Epopéia dos Apeninos, cujos feitos heróicos serão gravados com palavras de ouro na História de nossa Pátria.

"A Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos

 


Montese em ruínas
Foto escaneada do livro "100 Vezes responde a FEB" - Marechal José Machado Lopes

 

 

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