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A
guerrilha do Araguaia é um episódio militarmente pífio mas que
adquiriu uma aura mítica na história recente do Brasil. A esquerda
radical costuma citá-la como exemplo de heroísmo, em que
militantes lutaram até o último homem, tendo o Exército sumido
com os corpos de todos os que morreram em combate. Os militares, por
seu turno, se orgulham de ter evitado a proliferação de grupos
terroristas como os que durante tanto tempo infernizaram a vida de
outras nações sul-americanas. Os livros publicados sobre o assunto
em geral ficam no tom panfletário, em que os episódios são
contados ao sabor da ideologia do autor. Não existe um relato
oficial da supressão da guerrilha no Araguaia. Sucessivos governos
vêm renovando o sigilo sobre os arquivos do período.
Operação Araguaia – Arquivos Secretos da Guerrilha (Geração
Editorial; 636 páginas; 59 reais), escrito pelos jornalistas Eumano
Silva e Taís Morais, é a primeira obra sobre o assunto calcada
primordialmente em documentos. O livro é valioso. Ele se baseia em
1.167 páginas de relatórios militares coligidos por Taís, filha
de um oficial do Exército, que se valeu de relações familiares
para ter acesso aos papéis secretos, com o compromisso de preservar
a identidade dos que os forneceram. Os autores complementaram o
trabalho entrevistando vários dos envolvidos. Alguns poucos
documentos incluídos no livro já haviam sido publicados no jornal
Correio Braziliense, para o qual Eumano trabalha, mas a maioria é
rigorosamente inédita e está sendo exibida em primeira mão nesta
reportagem de VEJA. Em duas semanas, a íntegra dos relatórios e
documentos feitos pelos militares brasileiros que combateram os
guerrilheiros estará disponível na internet no site da editora
(www.geracaobooks.com.br). O livro questiona mitos, confirma
suspeitas, mas, sobretudo, mostra que a luta foi mais encarniçada
do que até hoje se supunha. Na virada dos anos 60 para os 70, parte
da esquerda brasileira pegou em armas contra a ditadura militar. Mas
só o Partido Comunista do Brasil, o PCdoB, conseguiu estabelecer,
de forma consistente, aquilo com que todos os grupos armados
sonhavam: um movimento guerrilheiro no meio da selva. Desde seu
nascimento, em 1962, quando o Brasil ainda era uma democracia, o
PCdoB já planejava fazer uma revolução partindo do campo, com o
intuito de instalar uma ditadura comunista no Brasil. Sobre os
planos do PCdoB há farta documentação publicada anteriormente. De
inédito, Operação Araguaia traz relatórios militares redigidos
com base em textos oficiais do partido. Neles, o PCdoB fala das razões
de ter escolhido a região do Araguaia para a operação,
"adversa ao inimigo, criando imensas dificuldades à sua
atividade militar", e com um terreno "que possui condições
ideais para a utilização da tática de guerrilhas". Deixa
clara a intenção de criar uma "zona liberada" e a
organização de um "exército regular". Cita como modelos
os movimentos guerrilheiros do Vietnã, da Malásia e de Angola.
Parte dos guerrilheiros do partido foi treinada na China. Em 1972 o
PCdoB já havia assentado cerca de cinqüenta homens na região
conhecida como Bico do Papagaio, na fronteira tríplice entre os
estados do Maranhão, Pará e Tocantins. A movimentação dos
guerrilheiros comunistas foi monitorada desde o início, mas o Exército,
no princípio, não distinguia os militantes do PCdoB – que
estavam lá desde 1966 e eram treinados em operações na floresta
– dos integrantes esparsos de outras facções urbanas que haviam
apenas se escondido na região sem um plano definido. A real intenção,
o grau de preparo e o poder de fogo da guerrilha do PCdoB só
ficaram mais claros para o Exército com um lento trabalho de
espionagem e a colaboração de alguns guerrilheiros desertores. Um documento inédito incluído no livro reforça uma das teses a
respeito do assunto: a de que o Exército veio a saber da presença
e da liderança do PCdoB na selva brasileira pela boca do
guerrilheiro Pedro Albuquerque Neto. Casado com Tereza Cristina,
também militante do partido, ele resolveu desertar quando a mulher
ficou grávida – e o partido sugeriu a ela que fizesse um aborto.
Os dois fugiram do acampamento em junho de 1971, levando parte do
dinheiro da organização. Foram para Fortaleza. Pedro ficou lá,
enquanto Tereza seguiu para a casa de parentes no Recife. O
militante acabou preso em fevereiro de 1972. Torturado, revelou a
existência de um movimento guerrilheiro organizado pelo PCdoB. Um
resumo de seu depoimento foi enviado aos militares responsáveis
pela Operação Cigana. Outro documento inédito faz referência à
Operação Peixe, a primeira desencadeada contra a guerrilha.
Achava-se que o Exército tinha iniciado suas diligências no
Araguaia em meados de abril. A obra mostra que na verdade já havia
soldados na região desde o fim de março. Esse é mais um indício
de que o depoimento de Pedro desencadeou a operação.
No livro A Grande Mentira, de 2001, no qual o general do Exército
Agnaldo Del Nero Augusto reconta a história do ponto de vista dos
militares, aparece outro nome como o responsável por fornecer,
posteriormente, informações detalhadas sobre a guerrilha: o de
Geraldo, codinome do atual presidente do Partido dos Trabalhadores
(PT), José Genoíno. Escreveu o militar: "A prisão mais
importante, ocorrida em 18 de abril (de 1972), foi a de Geraldo, que
revelou a estrutura do PCdoB na área, fornecendo, também, a
localização geral dos três destacamentos em que o partido estava
organizado, bem como a constituição do seu próprio, que era o
destacamento B". Operação Araguaia reproduz em livro pela
primeira vez a íntegra dos depoimentos de Genoíno, nos quais o
atual presidente do PT – que havia sido barbaramente torturado –
realmente dá nomes de colegas, além de fornecer informações
sobre a estrutura dos destacamentos, seus comandos e as armas que
possuíam. "O que eu fiz não prejudicou ninguém. Meus
companheiros tinham ordens para abandonar os locais onde estavam
caso eu fosse preso, e isso efetivamente aconteceu", disse Genoíno
a VEJA. O episódio é polêmico por envolver Genoíno, um dos
cardeais do PT e um de seus líderes mais sensatos e de inequívoca
vocação democrática. O livro Operação Araguaia entra em
contradição no que se refere ao papel de Genoíno. No capítulo em
que a história é contada, está escrito que Genoíno deu apenas
codinomes. Nos depoimentos publicados nos anexos, no entanto, lêem-se
vários nomes reais com os respectivos sobrenomes, entre eles os de
João Amazonas e Maurício Grabois, principais dirigentes do PCdoB,
que chefiaram as operações num primeiro momento. "Todos
sabiam os nomes de Amazonas e Grabois, e os nossos também eram
conhecidos na região, uma vez que muitos guerrilheiros haviam
comprado propriedades usando a carteira de identidade
verdadeira", esclarece Genoíno. A verdade é que não existe
nenhum documento que comprove que algum integrante da guerrilha
tenha sido preso em decorrência de informações obtidas pelos
militares dos depoimentos de Genoíno.
O Exército fez três campanhas no Araguaia. Nas duas primeiras, os
melhores resultados foram obtidos na área de inteligência. Apenas
na terceira ofensiva, iniciada no fim de 1973 com o uso intensivo de
pára-quedistas e outras tropas de elite, conseguiu exterminar o
inimigo. Foi uma operação de guerra que visava a matar os
insurgentes. Fazer prisioneiros não era prioridade. Os corpos de 59
militantes do PCdoB estão desaparecidos até hoje. Um dos
documentos mais impressionantes contidos no livro é o relatório da
Operação Marajoara, realizada na terceira campanha, que traz duas
revelações. A primeira é o relato de integrantes do PCdoB que se
entregaram e, mesmo tendo se rendido, não mais apareceram vivos ou
mortos. O relato da Operação Marajoara deixa claro que houve execuções
ou mortes acidentais de guerrilheiros submetidos a interrogatório.
Sobre isso não há muita novidade. Diversos depoimentos
reproduzidos em outras obras dão conta dessa brutal faceta da
guerra no Araguaia. O livro Operação Araguaia, no entanto, fornece
uma prova documental. Outro trecho interessante do relatório, que
é de junho de 1974, é o que faz o balanço oficial do estado dos
militantes da guerrilha naquele momento. Os depósitos de alimentos
e medicamentos haviam sido destruídos, grande parte das armas tinha
sido confiscada, vários dos militantes estavam doentes e parte
deles começava a desertar. Ou seja, a guerrilha estava exangue.
Mais adiante, no mesmo documento, os militares do Exército
envolvidos na operação expressam sua disposição de persistir até
a "eliminação total das forças guerrilheiras". Eles
adiantam que "uma interrupção da Operação Marajoara, antes
da destruição total do inimigo, poderá possibilitar seu
ressurgimento, ainda com maior vigor e experiência". Do ponto
de vista estritamente estratégico, não se pode discordar da análise
dos militares. As guerrilhas comunistas em outros pontos da América
Latina ressurgiram quando parecia que haviam sido totalmente
desbaratadas. Não se pode esperar, também, que enfrentando
guerrilheiros do Terceiro Mundo o Exército brasileiro pudesse agir
como uma instituição militar do Primeiro Mundo. Mas tais circunstâncias
incontornáveis não justificam a decisão de matar todos os
inimigos e não fazer prisioneiros, como parece ter sido a determinação
na terceira e decisiva fase do combate à insurgência comunista no
Araguaia. O inglês John Keegan, um dos maiores historiadores
militares da atualidade, diz em seu relato espetacular dos choques
armados A History of Warfare (Uma História da Guerra) que nesses
casos são comuns as hostilidades, mas "são também sempre uma
afronta à honra militar".Não
existem provas de que houve uma decisão oficial do Exército de
eliminar fisicamente todos os guerrilheiros. Sabe-se, de forma
indireta, que houve desacordo interno sobre a questão. Vários
militares que se pronunciaram recentemente sobre o assunto
condenaram a solução radical e, de acordo com a autora Taís
Morais, muitos dos que foram ouvidos por ela também repudiaram o
desfecho. "Era uma decisão polêmica na corporação, e até
hoje não se sabe exatamente de onde partiu a ordem", diz Taís.
O relatório da Operação Marajoara incluído no livro leva o
carimbo do Ministério do Exército. No livro A Ditadura Derrotada,
o jornalista Elio Gaspari, ex-diretor adjunto de VEJA, reproduz uma
frase do general Ernesto Geisel, em conversa sobre subversão com o
general Dale Coutinho, em que ele diz: "Esse troço de matar é
uma barbaridade, mas eu acho que tem que ser". Um trecho de
conversa entre generais é evidência insuficiente de que havia
ordens superiores para eliminar os guerrilheiros, mesmo os que se
rendessem. Evidência maior pode ser o fato de, até onde se sabe,
nenhum militar ter sido punido por seus excessos no combate à
guerrilha. As famílias dos militantes do PCdoB que morreram no
Araguaia foram indenizadas pelo Estado brasileiro. Um documento inédito
revelado pelo novo livro é um relatório produzido pelo Ministério
do Exército, datado de 1985, com uma lista de baixas do Exército
durante a guerrilha. O levantamento contabiliza sete mortos e oito
feridos. Os autores acreditam que houve mais baixas. Nem todas as
famílias de militares foram indenizadas, pois a algumas se omitiu o
fato de que seus parentes estavam em combate contra a guerrilha.
Entre as cinco ouvidas pelos autores do livro, apenas duas haviam
recebido indenização – uma terceira recorreu à Justiça civil e
duas simplesmente não ganharam nada. A primeira morte de militar, a
do cabo Odílio da Cruz Rosa, é descrita em detalhes no livro,
reconstituída por meio de entrevista com o tenente Nélio da Mata
Rezende, que presenciou a cena. Odílio foi abatido com um tiro de
espingarda na virilha, disparado provavelmente por Osvaldo Orlando
da Costa, o Osvaldão, um dos líderes da guerrilha. Os dois
militares estavam no meio da floresta, a léguas do posto de saúde
mais próximo, de forma que Odílio sangrou até morrer e seu corpo
só foi resgatado dias mais tarde. O próprio Osvaldão seria morto
por um tiro de espingarda, dois anos depois, disparado por Arlindo
Piauí, um mateiro que servia de guia para os militares. Também
sangrou até morrer. Seu corpo foi exibido pelo Exército em vários
povoados da região para servir de exemplo. Os dois episódios
servem para ilustrar a violência que reinou no Bico do Papagaio
entre 1972 e 1974. Além de se embasar em farta documentação,
Operação Araguaia tem o mérito do equilíbrio, prendendo-se aos
fatos e evitando o tom panfletário. O defeito do livro é a ausência
de notas de rodapé e de uma melhor contextualização dos
documentos. Em busca de uma narrativa fluente, os autores preferiram
dar ênfase à descrição das manobras militares e ao perfil dos
personagens. O Brasil que emerge de Operação Araguaia é um país
radicalizado cujos habitantes se matavam uns aos outros como se
fossem talibãs. Esse país, felizmente, pertence ao passado.
MILITANTE
TORTURADO DENUNCIA O PCdoB
O guerrilheiro Pedro Albuquerque Neto desertou do Araguaia quando
sua mulher, Tereza Cristina, ficou grávida e o PCdoB recomendou que
ela fizesse um aborto. Os dois fugiram com parte do dinheiro da
agremiação. Pedro foi preso em Fortaleza e revelou a existência
do movimento organizado. O documento acima, da chamada Operação
Cigana, mostra que o combate começou logo após o seu depoimento.
MILITARES
MORTOS EM COMBATE
Até pouco tempo atrás não se sabia quantos militares haviam
morrido na luta com a guerrilha. Um levantamento feito em 1985
contabiliza sete mortos e oito feridos. Os autores de Operação
Araguaia contataram cinco famílias de militares que perderam
parentes na operação. Dessas, apenas duas haviam recebido algum
tipo de indenização do governo

José Genoino no
Araguaia
Foto publicada pela Revista Veja
A
GUERRILHA E JOSÉ GENOÍNO
O atual presidente do PT já recebeu acusações, à direita e à
esquerda, de ter entregue companheiros do PCdoB. Operação Araguaia
traz cópias de seus depoimentos à ditadura. Barbaramente
torturado, Genoíno realmente deu nomes de militantes e revelou
detalhes das operações. Ele alega que o que revelou não
prejudicou ninguém, pois os guerrilheiros tinham ordem de se
esconder caso um deles fosse preso. O fato é que não existe prova
de que o Exército tenha prendido alguém baseado nas declarações
do atual presidente petista
Texto
publicado na "Revista Veja" de 13 de abril de 2005
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