Prezado
Pedro Albuquerque,
Em
primeiro lugar, quero pedir-lhe desculpas por só agora entrar em
contato com você. Há mais de cinco meses quero escrever-lhe para
prestar alguns esclarecimentos importantes sobre o livro Operação
Araguaia. Acompanhei pela internet e em conversas com amigos sua reação
ao conteúdo do livro. Respeitei todas suas reclamações e concordo
com algumas. Como você sabe, tive também uma longa conversa com
seu irmão Mário.
Começo pelos erros do livro. Devo-lhe confessar que perdi o
controle sobre o conteúdo nas últimas semanas antes da publicação.
Não faz sentido entrar em detalhes sobre o que aconteceu nesse período.
Importa dizer, apenas, que não participei do processo final de edição
nem consegui dar fazer uma leitura criteriosa, essencial para uma
obra que trata de fatos tão delicados. Essa perda de controle me
impediu, por exemplo, de vetar a legenda de sua foto. Quem conhece
os posicionamentos do PCdoB sabe que o partido nunca o tratou como
traidor. Quem teve essa opinião foi Ângelo Arroyo. No texto
principal do livro, escrito por mim, fiz uma interpretação que
passei a considerar equivocada depois da conversa com Mário e com
nosso amigo Luiz Carlos Antero. Trata-se do trecho em que eu
apresento a carta escrita pelo Maurício Grabois para a cúpula do
PCdoB. De fato, eu não poderia ter concluído que Grabois falava de
você ao se referir a um guerrilheiro chamado de Rib...
Gostaria, no entanto, de dizer que, na minha interpretação,
algumas de suas preocupações foram atendidas pelo livro. Acho, por
exemplo, que ficou clara a presença militar na área pelo menos
dois anos antes do início dos combates. Registrei a execução de
duas movimentações militares. Em novembro de 1970, a Operação
Carajás, e, em agosto de 1971, a Operação Mesopotâmia. Considero
importante esclarecer que adotei como critério não julgar os
personagens da guerrilha. Procurei contar a história com o máximo
possível de informações obtidas de documentos militares e do
PCdoB, depoimentos de sobreviventes, familiares dos guerrilheiros,
militares e moradores da região. Sem adjetivos e sem ficção.
Embora o critério seja o mais justo, do ponto de vista jornalístico,
reconheço que não é perfeito. Sob esse aspecto, acho que o fato
de os militares citarem seu nome, com insistência, na condição de
responsável pela descoberta da área, concentrou em você um peso
exagerado na derrota da guerrilha. Avalio, no entanto, que a seqüência
de documentos e depoimentos apresentada no texto principal do livro
permita uma visão mais completa a respeito dos problemas
enfrentados pelo movimento armado e da importância das informações
prestadas por todos os prisioneiros.
Meu principal objetivo ao escrever o livro foi reconstituir um dos
episódios mais relevantes da história da esquerda brasileira.
Julgava importante, também, prestar uma homenagem aos companheiros
que lutaram contra a ditadura. Minha geração deve muito aos que
puseram suas vidas a serviço da liberdade. Tanto aos que tombaram
quanto aos que sobreviveram, muitos depois de presos e submetidos às
mais bárbaras torturas. Na condição de jornalista profissional,
formado em universidade pública, e de ex-militante do PCdoB
considerava importante dar minha contribuição ao país. A experiência
que tive como repórter na área militar também me estimulou a
fazer um trabalho mais profundo e equilibrado sobre a guerrilha.
Espero que meus equívocos, involuntários, sejam menores do que a
história recuperada e contada no livro.
Acredito que todos os erros apontados no livro serão corrigidos na
próxima edição. Apesar de meus problemas com a editora, imagino
que minhas observações sejam atendidas. Pedi, antes de qualquer
outra coisa, que seja tirada a expressão "traidor" da
legenda da sua foto. Também solicitei que fosse retirada minha
interpretação em relação à carta do Maurício Grabois. Pedi que
fosse suprimida a referência que fiz a você. Nesse caso, temo que
meu pedido tenha chegado tarde à editora, sem tempo de ser atendido
na nova impressão. Se aconteceu, a responsabilidade é minha. Farei
o devido reparo, se ainda não foi feito, assim que for possível.
Caro Pedro, escrevo esta carta em respeito a você, à sua história,
à sua valentia e aos nossos amigos em comum que sofreram com seu
sofrimento, decorrente do livro. Quero, mais uma vez, dizer que não
me considero no direito de julgar as pessoas, muito menos as que
foram levadas ao limite da resistência humana. Os horrores da
tortura, na minha opinião, só podem ser avaliados por quem os
viveu.
Essas são as observações que julguei necessário fazer. Você está
autorizado a utilizá-las quando e como quiser. Não tenho qualquer
problema em assumir meus erros. Apesar dos deslizes, ainda acredito
ter prestado um serviço aos que lutaram por um país melhor. Por
fim, peço desculpas pelo sofrimento que lhe causei e, mais uma vez,
pela demora em escrever essa mensagem. Desejo a você e aos seus
familiares muita saúde e força para enfrentar as dificuldades
decorrentes de sua opção de lutar contra uma ditadura. Um forte
abraço
Eumano
Silva