HISTÓRIA E GENEALOGIA
"Ninguém é bastante rico para comprar o seu passado"
Oscar Wilde

 


Guerrilha do Araguaia

 


Pedro Albuquerque  ladeado por suas filhas Joana e Izabela.
Canadá, 2005.


Em 2005, no Canadá, a família reunida: Pedro e Tereza sentados. 
Em pé, da esquerda para a direita, os filhos: Bergson, Joana e Izabela.


Canadá, 2005.

 

Carta de Eumano Silva, um dos autores do livro "Operação Araguaia",
 a Pedro Albuquerque, em 14/11/2005.

 

 Prezado Pedro Albuquerque,

Em primeiro lugar, quero pedir-lhe desculpas por só agora entrar em contato com você. Há mais de cinco meses quero escrever-lhe para prestar alguns esclarecimentos importantes sobre o livro Operação Araguaia. Acompanhei pela internet e em conversas com amigos sua reação ao conteúdo do livro. Respeitei todas suas reclamações e concordo com algumas. Como você sabe, tive também uma longa conversa com seu irmão Mário.
Começo pelos erros do livro. Devo-lhe confessar que perdi o controle sobre o conteúdo nas últimas semanas antes da publicação. Não faz sentido entrar em detalhes sobre o que aconteceu nesse período. Importa dizer, apenas, que não participei do processo final de edição nem consegui dar fazer uma leitura criteriosa, essencial para uma obra que trata de fatos tão delicados. Essa perda de controle me impediu, por exemplo, de vetar a legenda de sua foto. Quem conhece os posicionamentos do PCdoB sabe que o partido nunca o tratou como traidor. Quem teve essa opinião foi Ângelo Arroyo. No texto principal do livro, escrito por mim, fiz uma interpretação que passei a considerar equivocada depois da conversa com Mário e com nosso amigo Luiz Carlos Antero. Trata-se do trecho em que eu apresento a carta escrita pelo Maurício Grabois para a cúpula do PCdoB. De fato, eu não poderia ter concluído que Grabois falava de você ao se referir a um guerrilheiro chamado de Rib...
Gostaria, no entanto, de dizer que, na minha interpretação, algumas de suas preocupações foram atendidas pelo livro. Acho, por exemplo, que ficou clara a presença militar na área pelo menos dois anos antes do início dos combates. Registrei a execução de duas movimentações militares. Em novembro de 1970, a Operação Carajás, e, em agosto de 1971, a Operação Mesopotâmia. Considero importante esclarecer que adotei como critério não julgar os personagens da guerrilha. Procurei contar a história com o máximo possível de informações obtidas de documentos militares e do PCdoB, depoimentos de sobreviventes, familiares dos guerrilheiros, militares e moradores da região. Sem adjetivos e sem ficção. Embora o critério seja o mais justo, do ponto de vista jornalístico, reconheço que não é perfeito. Sob esse aspecto, acho que o fato de os militares citarem seu nome, com insistência, na condição de responsável pela descoberta da área, concentrou em você um peso exagerado na derrota da guerrilha. Avalio, no entanto, que a seqüência de documentos e depoimentos apresentada no texto principal do livro permita uma visão mais completa a respeito dos problemas enfrentados pelo movimento armado e da importância das informações prestadas por todos os prisioneiros.
Meu principal objetivo ao escrever o livro foi reconstituir um dos episódios mais relevantes da história da esquerda brasileira. Julgava importante, também, prestar uma homenagem aos companheiros que lutaram contra a ditadura. Minha geração deve muito aos que puseram suas vidas a serviço da liberdade. Tanto aos que tombaram quanto aos que sobreviveram, muitos depois de presos e submetidos às mais bárbaras torturas. Na condição de jornalista profissional, formado em universidade pública, e de ex-militante do PCdoB considerava importante dar minha contribuição ao país. A experiência que tive como repórter na área militar também me estimulou a fazer um trabalho mais profundo e equilibrado sobre a guerrilha. Espero que meus equívocos, involuntários, sejam menores do que a história recuperada e contada no livro.
Acredito que todos os erros apontados no livro serão corrigidos na próxima edição. Apesar de meus problemas com a editora, imagino que minhas observações sejam atendidas. Pedi, antes de qualquer outra coisa, que seja tirada a expressão "traidor" da legenda da sua foto. Também solicitei que fosse retirada minha interpretação em relação à carta do Maurício Grabois. Pedi que fosse suprimida a referência que fiz a você. Nesse caso, temo que meu pedido tenha chegado tarde à editora, sem tempo de ser atendido na nova impressão. Se aconteceu, a responsabilidade é minha. Farei o devido reparo, se ainda não foi feito, assim que for possível.
Caro Pedro, escrevo esta carta em respeito a você, à sua história, à sua valentia e aos nossos amigos em comum que sofreram com seu sofrimento, decorrente do livro. Quero, mais uma vez, dizer que não me considero no direito de julgar as pessoas, muito menos as que foram levadas ao limite da resistência humana. Os horrores da tortura, na minha opinião, só podem ser avaliados por quem os viveu.
Essas são as observações que julguei necessário fazer. Você está autorizado a utilizá-las quando e como quiser. Não tenho qualquer problema em assumir meus erros. Apesar dos deslizes, ainda acredito ter prestado um serviço aos que lutaram por um país melhor. Por fim, peço desculpas pelo sofrimento que lhe causei e, mais uma vez, pela demora em escrever essa mensagem. Desejo a você e aos seus familiares muita saúde e força para enfrentar as dificuldades decorrentes de sua opção de lutar contra uma ditadura. Um forte abraço

Eumano Silva 

 


Pedro Albuquerque entre seus familiares no Brasil


Os três filhos: Izabela, Bergson e Joana


Pedro Albuquerque e seus netos Lucas e Leonardo.

 

Texto sobre a Anistia lido por Lucas, primeiro neto 
de Pedro Albuquerque em seu colégio.


Anistia é congraçamento, é perdão. Eu e o Léo só existimos por causa da Anistia. Eu vou explicar isso para vocês. 
Minha mãe, Izabela foi, em 1973, para Santiago do Chile, quando tinha apenas um ano e oito meses de idade, encontrar-se com seus pais, os meus avós maternos, Pedro e Tereza, que hoje vivem no Canadá. Lá no Chile eles viviam como exilados políticos porque lutaram contra a ditadura militar no Brasil e, por isso, tinham sido perseguidos e presos aqui na nossa Pátria. Como os militares chilenos derrubaram o governo democrático do Chile, meus avós e minha mãe tiveram que se exilar no Canadá. Viveram nesse país durante seis anos. 
Eu e toda minha família estivemos lá no mês passado. É lindo o Canadá!

Meus avós só puderam voltar para o Brasil por causa da Anistia, em 1979.  Minha bisavó Lourdes lutou muito pela Anistia, juntamente com familiares de outros perseguidos políticos. Por isso a Anistia foi aprovada. Minha mãe tinha a idade que tenho hoje, quando voltou para o Brasil. Aqui todos eles passaram a viver em liberdade, sem serem perseguidos, tudo por causa da Anistia. Meu tio Mário, que está aqui presente passou nove anos preso e foi solto. Com a volta para o Brasil, minha mãe e meu pai, Aurillo se conheceram, tornaram-se namorados, depois casaram-se. Sem a Anistia nem meus avós, nem minha mãe teriam voltado para o Brasil, e meu pai não teria conhecido minha mãe. Por isso sou grato à Anistia que permitiu que meus pais se conhecessem, se amassem e, com amor, dessem a vida a mim e ao meu irmãozinho Léo.
A Anistia não só trouxe a liberdade, ela trouxe vida, também.

 


Izabela, Pedro Albuquerque, Lucas e Leonardo, no Canadá.

continua


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