Estava
decidido. Após a última aula daquela sexta-feira, ele iniciaria
a peregrinação boêmica-afetiva do final de semana. Todavia, não
pôde esquivar-se do repetido convite de uma das suas alunas. E lá
se foi com toda a turma visitar a Casa de Passagem - ou unidade de
abrigo de idosos - por ela dirigida. Abrigo público, que acolhia
os indigentes, os abandonados das famílias e os deserdados da
sorte. Como professor de Gerontologia Social na pós-graduação,
ele lucraria com a visita. As suas horas de lazer a menos seriam,
portanto, recompensadas pelas reflexões colhidas in loco.
Durante a visita, um dos internos se sobressai aos demais. Da sua
cadeira de rodas, uma das pernas amputada e a outra com os dias
contados, o velho parece ter o comando do lugar. Controla o horário
das refeições, as filas do banho, a programação da televisão,
o volume do rádio. E até as enfermeiras. Aquele rosto não lhe
era de todo estranho. Curioso, o professor pergunta-lhe o nome. O
velho interno dispara à queima-roupa:
- Antônio Brioso de Mesquita.
A cor daquele nome perturba-lhe os olhos. O som daquele nome rompe
as travas do seu doloroso compartimento de memórias. Num
instante, um filme projeta-se na tela da sua mente. Em segundos o
professor revisita os momentos mais cruéis da sua vida.
Recorda-se de 1964, quando era ainda adolescente em Fortaleza, líder
estudantil no que hoje é o Centro Federal de Educação Tecnológica
- CEFET. A sala de aula. A aula de física. O oficial do Exército
que chega para prendê-lo. A exigência da renúncia. A recusa da
exigência. O interrogatório na 10ª Região Militar. A intervenção
na entidade. A soltura. O filme avança. Os dias passam. Vê-se
pronto para a visita dominical à namorada Sueli. O jipe militar
que chega. Os dois homens que dele saem. De novo, a detenção. O
tour de tarde inteira por todas as delegacias e puteiros da
cidade. A exibição dele às putas como o troféu dos dois
homens. As humilhações. A longa genuflexão forçada em cada
puteiro. O revólver apontado para a sua cabeça. Os nomes dos
comunistas exigidos. Os nomes dos comunistas negados. Ao fim do périplo,
o novo interrogatório. A prisão no 23 BC. O mergulho na cela
como rito de passagem à maturidade precoce. Os anos de
clandestinidade, a resistência na guerrilha do Araguaia, as
torturas ferozes nas mãos da repressão. O nascimento da filha na
clandestinidade, a quem só conheceu aos nove meses. A reunião
com ela, pelas mãos da Cruz Vermelha Internacional, já no exílio
no Chile. A ida, pós-queda de Allende, para o exílio no Canadá.
Os anos de aculturação, ao gelo do clima e dos afetos, no novo
país. O retorno ao Brasil com a Anistia. As seqüelas irreversíveis.
As crises depressivas. Os remédios tomados.
Como quem ouve o estalar da fita que se finda, o professor
recupera o senso de presença. Sua a cântaros. Uma vez a tortura,
torturado para sempre. Aquela voz ainda reverbera ameaças aos
seus ouvidos. Mas, e se fosse apenas um mero engano? De voz, de
figura, de nome e de tudo? O professor, enfim, reage. Quis saber o
que Brioso fizera no passado. Fora corneteiro do Exército por 12
anos.
- E prendi muitos comunistas, completa, orgulhoso.
Então era ele mesmo, não havia dúvida. De língua solta, o
velho desfila o nome de todas as suas vítimas. Todas conhecidas
do professor. Muitas delas seus amigos.
- O senhor conheceu alguém de nome Pedro Albuquerque?,
indaga o professor.
- Pedro de Albuquerque Neto, corrige o velho. Prendi-o
duas vezes. Ainda nem era homem feito, arremata.
Os alunos se entreolham, boquiabertos. A memória de Brioso navega
veloz nas águas do seu passado "glorioso" e ele relata
ao professor do presente todas as ameaças e constrangimentos
impostos ao seu prisioneiro do passado. Agora certo do que vira e
ouvira, mas ainda cauteloso, Pedro toma coragem e atira:
- O senhor não está me reconhecendo? Sou eu, Pedro, diz o
professor.
O velho pára, o olhar se embaça, e agora cada palavra na sua
boca trêmula pesa uma tonelada. O silêncio desaba sobre alunos e
internos, sobre o professor e o velho. Sim, ali estava um homem
velho, digno de piedade e compaixão. Sob o impacto do momento
ninguém consegue antecipar o próximo lance.
- Posso dar-lhe um abraço?, quis saber Pedro.
- Sim, mas somente se você não tiver ódio de mim, faz
saber o velho.
Abraço longamente dado. Perdão sinceramente concedido. Brioso
faz-se lágrimas e agradecimentos.
- Foi Deus quem enviou você aqui, concede.
De sua parte, Pedro, o professor, também sabe que aprendeu algo
naquele momento. Sabe mais, que alguma coisa se curara dentro dele
naquele abraço.

Pedro
Albuquerque e Brioso, em Fortaleza-CE
Arquivo
Pedro Albuquerque
A aluna-diretora informa que, quando assumiu a direção do
abrigo, Brioso lá já se encontrava. Mas recorda-se dele de anos
atrás, sempre bem vestido em roupas de ginástica da marca
Adidas, nas vezes em que ia com o marido manhãzinha comprar
frutas no Mercado São Sebastião de Fortaleza. Ela conta que ele
fora recolhido como indigente, alguns anos depois, ao dormir sob
as marquises do velho mercado, onde comia de favores e de sobras.
Revela ainda que o serviço social do abrigo procurara o Exército
para recuperar o histórico do velho Brioso, agora nos seus
presumidos 73 anos, já que ele não tem certidão de nascimento,
e dar entrada num pedido de pensão para ele. O Exército
informara desconhecer tal pessoa. E mesmo confrontado com
testemunhos de cidadãos que viram Brioso acompanhado de vários
oficiais, em ocasiões diversas, mantera a negativa. Agora, ante a
curiosidade de Pedro, algum muro se erguera no superego de Brioso.
A qualquer tentativa de trazer o seu passado à luz da razão e ao
escrutínio do tempo, o velho contesta com frases desconexas.
- O EMFA - Estado-Maior das Forças Armadas - está vindo me
tirar daqui, diz ele.
- E para onde vai levá-lo?, demanda o professor.
- Para o quartel-general do contingente da Europa; não vou
ficar no Brasil, responde o interno.
Algum vento misterioso varreu para sempre todo e qualquer traço
escrito da história de Brioso. Todas as buscas feitas pelo
pessoal do abrigo a parentes e aos registros nos cartórios na
cidade de Itapajé, onde ele alega haver nascido, têm resultado
em nada. Durante o período natalino, numa segunda visita, Pedro e
Brioso, apaziguados com os seus fantasmas do passado, novamente se
abraçam. O professor vem trazer a caixa de biscoitos Pilar que o
velho interno havia pedido. Pedro, então, quer saber se Brioso
arrepende-se de alguma coisa do seu passado de agente da ditadura.
Brioso responde que arrepende-se unicamente de nunca haver feito
sexo na vida.
- Nunca tive desejos de manter relações sexuais,
confessa.
A conversa segue pelos caminhos da lógica. Mas quando o professor
se oferece como advogado para abrir um processo contra o Exército
e pleitear o reconhecimento do seu trabalho e uma pensão para a
sua velhice, Brioso responde cerrando os olhos e fingindo
adormecer:
- Papai não me deixa fazer isso. Só posso falar com você
quando sair desta prisão.
Brioso continua no abrigo. Esquecido de todos. Pedro recuperou
parte da sua vida profissional no Brasil depois de voltar do Canadá.
Atualmente ele vive um exílio voluntário em Ottawa, capital
federal, onde faz PhD em Criminologia. Pedro é a única visita
que Brioso tem recebido em um longo tempo.
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