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Os
Gadelhas não têm sua história registrada nos livros de linhagens
portuguesas. O apelido aparece escassamente aqui e acolá, para logo
em seguida sumir, esconder-se na forma de outros sobrenomes, o que era
comum, então, pela facilidade com que se adotava um novo apelido e
como se costumava mudá-los, assumindo as armas de outras famílias
para sua descendência. Etimologicamente,
a palavra "Gadelha" vem de guedelha (ghê.dê.lha) que
juntamente com os antigos castelhanos "vedeja" e
"vedija" significa pêlo enrolado em qualquer parte do
corpo, mecha ou maranha de cabelos. Esses sinônimos provêm do latim
"viticula" - pequena videira e logo: cacho, anel e caracol
de cabelos. O vocábulo é rico em forma dialetal nas Astúrias como
"gedeyes", "guedeya" e no galego "guedella",
"guedello", todos com o sentido de "mecha de
cabelos". Com sentido figurado, Gadelha traduz-se por lucro, ou
antes confiança, esperança. Nesse sentido, poderia representar os
que buscavam essas necessidades através da atividade comercial. A
expressão "ter gorda guedelha" significa ter proveito,
lucro e "ter guedelha em alguém", ter arrimo, amparo.
Gadelha pode também significar mau gênio; "tener mala
guedeya" nas Astúrias traduz-se por ter mau gênio; "vê-se
com alguém às guedelhas" significa "travado,
pelejado." Parece que todas estas expressões estão
referenciadas aos cabelos, como ao aspecto desgrenhado de uma
cabeleira após uma luta corporal. Não fica difícil entender porque
Gadelha é sinônimo de diabo - o Gadelhudo. No
"Larousse du XXe. Siècle" lê-se: Guedalia ou Godolias,
ministro de Nabucodonosor e encarregado, por este príncipe, da
administração da Judéia após a destruição de Jerusalém. Ele não
pôde impedir as sedições e pereceu assassinado. Os judeus
comemoraram este acontecimento, como o "dia de Guedalia",
ainda observado hoje em dia. Um outro Guedalia, seu contemporâneo,
foi um dos três chefes dos juízes que fizeram encarcerar o profeta
Jeremias em uma cisterna.
Como apelido, Guedelha, Guedelia ou Gadelha é antigo em Portugal. Já
em 1141 aparecia este nome nos documentos de chancelaria de Afonso
Henriques: "et per eundem lombum diuiditor cum Martino Guedelia
usque ad." Umas
raras biografias aparecem nas enciclopédias e livros de História: um
tal Mestre Guedelha que foi piloto de Américo Vespúcio; os sábios
judeus Abrahão Guedelha, médico e astrólogo do Infante D. Pedro,
tio de Afonso V e o médico e astrólogo Guedelha Goleimo que serviu
aos reis D. Duarte, D. Afonso V e ao Infante D. Henrique. Este apelido
é comum entre os israelitas. Para Morais Silva, guedelha vem do
hebraico "ghedilim", floco de fios, torça e cabelos
grandes. Guedelha poderia ser o mesmo hebraico Guedalla ou Guedalias
(?). A Bíblia nos fala de um nobre Guedalias que governou Judá. Ben
José Jachija Gedalia era um rabino italiano nascido em Imola (1500 a
1558). Seu pai era português e havia se refugiado na Itália fugindo
das perseguições. Compôs uma obra intitulada "Hakkabbalah O'
Catena Tradicionum" que contém a história do povo judeu, desde
Adão, um tratado de cosmografia e uma notícia sobre anjos, demônios,
paraíso e inferno. Escreveu também a "Genealogia dos Jachijap",
desde 4656 até o ano 896. Praticou a Medicina e foi um notável
orador. Nas enciclopédias judaicas há uma profusão de biografias
sobre Gedaliah (Judah, Judah Ben Moses, Ha-Levi,etc.) e Guedalla (Haim,
etc). Neste último nome encontramos Philip Guedalla, escritor, filho
de David Guedalla (1815 - 1904)
Somente aqui no Brasil aparece um registro sistematizado da família
portuguesa Gadelha, desde sua vinda nos tempos coloniais, por ocasião
das Guerras Holandesas, para o Nordeste Brasileiro. Antonio José
Victoriano Borges da Fonseca, antigo governador do Ceará-Grande,
dedicou dois títulos de sua monumental obra, a "Nobiliarquia
Pernambucana", prefaciada em 1748, à origem e primeiras descendências
do casal Manuel da Costa Gadelha e D. Francisca Lopes. Inicia sua
descrição referindo-se aos Gadelhas como uma "nobre família"
e que Manuel da Costa Gadelha era português, natural de Lisboa ou
Cartaxo, batizado na Pia de São João e que aqui veio para lutar
contra os holandeses. Afirma que Manuel da Costa Gadelha era Cavaleiro
da Ordem de Cristo, Governador das Armas do Rio São Francisco em
1675; que deixou testamento de 1633 e faleceu em 1694. Está sepultado
na Matriz de São Cosme e Damião em Igarassu (Igaraçu). Chegou
primeiramente na Bahia onde se casou com D. Francisca Lopes, da família
Leitão Arnoso, fidalgos da Casa Real. Cita o nome de seus pais e de
dois irmãos; um que voltou para Portugal e outro que de lá nunca
saiu, que exercia as funções de Familiar do Santo Ofício. Descreve
a linhagem dos Gadelhas e as vinculações com outras famílias
nobres, inclusive com a dele e a dos Albuquerques, antigos donatários
de Pernambuco. Tenho
ainda duas outras referências. A primeira, um manuscrito encontrado
na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro sobre Genealogias, da autoria
de um Mendonça, referindo-se à família Gadelha. A segunda, uma
indicação de uns escritos de um advogado chamado José Inácio da
Silveira Gadelha, conservados no Mosteiro de São Bento, também no
Rio de Janeiro. Quanto
à Heráldica, percebe-se que o brasão do Padre José Gomes da Costa
Gadelha, nascido em 1743 e neto paterno do Coronel de Cavalaria de
Igaraçu, Jorge da Costa Gadelha (o primeiro do nome) e de sua segunda
esposa D. Mariana Teixeira da Silveira e Albuquerque, é cópia do
brasão de seu avô materno Antônio Gomes Pacheco, capitão vitalício
de Itamaracá e com carta de brasão de Armas em 20 de novembro de
1696. Seu brasão tinha as Armas dos Gomes e dos Pachecos; "de
azul, com um pelicano de ouro, ferido de vermelho no ninho", como
Armas dos Gomes e "de ouro com duas caldeiras de negro, uma sobre
a outra, cada caldeira carregada de três faixas de veirado de ouro e
de vermelho, com as asas veiradas dos mesmos esmaltes, serpentíferas
de quatro peças de negro, duas para dentro e duas para fora",
dos Pachecos.
No Brasonário de Portugal de Armando de Mattos, encontramos na figura
844, o brasão dos Gadelhas que se identifica totalmente na figura e
descrição, com o número 908, dos Lacerdas. Não sei porque esta
identidade heráldica. Estaria ela ligada à etimologia das duas
palavras? Lacerda, ou como se dizia primitivamente "La
Cerda", é um substantivo feminino que como Guedelha significa
cabelos, na língua castelhana. Diz-se que esse apelido Lacerda provém
do rei Afonso X, o Sábio de Castela e de sua mulher, D. Violante de
Aragão, por seu filho mais velho, D. Fernando de La Cerda, ter
nascido em 1256 "com uma Guedelha de cabelos no peito". Essa
família real de Castela não sucedeu nos reinos de D. Afonso, o Sábio,
pois D. Fernando de La Cerda morreu em vida do pai e seu irmão D.
Sancho usurpou o trono de sua descendência. Teria esta descendência
se ligado consanguineamente aos Gedalias ou Guedelhas, assim
justificando a adoção de seu brasão de Armas?
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