| Era
uma vez na madrugada
Esta
madrugada fui acordado pelo namoro de
gatos no meu telhado. A miadura foi
terrível:
Uiuiquerominhamãeuiuinãoqueronãouiuiquero...
Porém, logo serenou. Acho que fui
desperto no final da transa. Depois
disso, não mais conciliei o sono.
Fiquei absorto olhando para o teto.
Lembrei-me de você. No silêncio da
madrugada fui buscá-la. Você estava
longe... muito longe. Em longes
terras. Minha saudade era forte
demais, impulsiva. Num piscar de olhos
você estava no meu quarto. Deitou-se
na minha cama, grudou-se em mim. Senti
seu hálito gostoso e o pulsar do seu
coração choroso. Dizem que coração
não chora! Chora sim! quando se quer
bem. Não sei porque, dei um clique no
radinho. As músicas eram
orquestradas. Pela doçura das
melodias, o locutor deveria estar
sonhando. Ele nunca falava. O maestro,
com certeza era o Mantovani. Ouvi
passos pela calçada. Passos
desiguais. Julguei serem de algum
casal chegando do baile. O cricri dum
grilo martela nos ouvidos. Eles
cricrilam para atrair as namoradas. Os
bichos são fantasiosos no sexo.
Agora, o bem-te-vi canta. Outro
responde: te-vi, te-vi. Tenho certeza
que são 5h10min. Eles são precisos
no horário. O galo cocorica lá
longe... O concerto inicia-se. Assim,
prevêem a antemanhã. E os angorás?
Ah, os angorás! Nessas alturas devem
estar no forro, num flozô que dá
gosto. Viro de bruços, coloco o braço
esquerdo debaixo do travesseiro, a mão
direita na testa, estico a perna
esquerda e encolho a direita. Hoje
posso ficar até mais tarde na cama -
aos domingos meu patrão é o bem-bom.
O sono adentra-se pelas minhas pálpebras
e abate-me profundamente. O radinho
foi programado - o “sleep” dar-se-á
em 30min.
Edival
da Silva Castro
Crônica enviada gentilmente pelo
autor
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