A Antiga
Matriz de São Miguel
Matriz de São Miguel! Nós crescemos à sua volta. Nós a amávamos e a achávamos
bela, solene, majestosa. Gostávamos de adentrá-la e contemplar no frescor
da sua penumbra o vôo das andorinhas, acalentados pelo tique-taque do relógio
Michelim. Crônica da autoria de Dóli de Castro Ferreira relata que o relógio veio
da Europa, na segunda metade do século XIX, presente do Sr. Ignácio Amorim, de
tradicional família piquetense. Não sabemos se o desembarque foi no Porto do
Rio de Janeiro ou no de Santos. De lá até aqui, imaginamo-lo almofadado em
caixas de madeira, em jacás, no lombo de mulas troteiras, pelos caminhos
serranos de Parati e Cunha. Centenário, continua intacto e pontual, a sonorizar
o tempo e nossas vidas. Nas torres arredondadas, dois galos de metal a rodopiar
às investidas dos ventos. Brancos, garbosos, parecem de verdade. Certa
vez, forte ventania, um deles bateu asas e foi parar no alto do Santo Cruzeiro,
motivo de comentários durante vários dias. Algumas pessoas já me questionaram
sobre a simbologia dos galos. Confesso que não sei. Avento duas hipóteses. A
negação de Pedro? -"Tu me negarás três vezes antes que o galo
cante." Ou ele, arauto do nascimento de Cristo? Diziam nossos avós
que um galo cantara com sonoridades argentinas na memorável noite de Belém.
Alguns até o colocavam nos presépios, bem no alto, em lugar de destaque. O
altar-mor, cheio de arabescos, veio da igreja de Santo Antônio de Guaratinguetá.
No nicho central a encimar o Sacrário, a pequena imagem de São Miguel, de
madeira, leve como uma palha, na mão esquerda a balança da justiça. Estilo
barroco, cores vivas, parecia uma festa esvoaçante, as asas abertas como as de
um pássaro mitológico. Tão pequeno, quase desaparecia no meio das flores, ele
mesmo uma flor mística das colinas eternas. No forro, pintura em tela, outro
Miguel, aguerrido, gestos viris, lembrava um deus olímpico: aos seus pés, demônios
cor de carvão subjugados por sua espada de guerreiro das milícias celestiais.
As crianças não se cansavam de o contemplar, num misto de curiosidade, espanto
e medo. Quantas vezes ouvimos que suas grossas paredes, de taipa, foram feitas
por escravos, mais tarde revestidas de tijolos. Nos quatro nichos das paredes
laterais, imagens bem feitas, embora de gesso, com ar de beatitude, que falavam
fundo à piedade dos fiéis. Gostávamos do quarto dos andores. Lá havia
imagens, andores, baús recheados de flores, toalhas brancas, panos pretos e
roxos, bandeiras, castiçais - tudo guardado com zelo para festas e procissões.
A sacristia era como um reduto sagrado, a ante-sala do presbitério. Cheirava a
incenso e a velas de cera. Lá ficavam os vasos sagrados, banhados a ouro,
sempre coruscantes - pareciam espelhos. Certa vez, um rapaz os roubou. Carregou
o cálice, a patena, as âmbulas, os cibórios e os ostensórios. Ainda profanou
o sacrário, as hóstias espalhadas pelo chão. Não satisfeito, defecou em
frente ao altar-mor. Foi no casarão de meu avô Chiquinho Máximo que ouvi pela
primeira vez a palavra "sacrilégio" e fui testemunha da indignação
de todos ante tamanha irreverência. Os quadros da Via Sacra eram belos e
artísticos - despertavam piedade e comoção. Infelizmente, foram substituídos
por uma Via Crucis de gesso, de mau gosto. As duas capelinhas laterais
foram demolidas. Por que? Os bancos foram nossos companheiros de
catecismo. Em cada uma plaquinha oval, branca, com a inscrição azulada -
"Lembrança de Tita Cardoso". Tita Cardoso, o nome de batismo
Edelvira, era filha do Capitão José Monteiro de Brito, um dos prefeitos de
nossa cidade. Casou-se bem jovem com o sergipano João Cardoso, que estudara em
Guaratinguetá e viera ministrar aulas de Francês no antigo Grupo Escolar de Piquete.
Por motivos imperiosos, ele teve que retornar a Aracaju, acompanhado de
nossa Edelvira. Lá, ela faleceu. Lá, está sepultada. E ele, em sua homenagem,
ofereceu à matriz os bancos de madeira. A antiga matriz, aos poucos foi
despojada de tudo. Deixou de ser a Matriz de São Miguel; hoje, "Capela das
Almas". Perdeu a coroa, mas não perdeu a majestade. Na boca do povo
continua Matriz - a "velha matriz" ou a "antiga matriz".
Nela fomos batizados e crismados, amigos e parentes abençoados para a
sepultura. Ela é uma relíquia; um repositório de lembranças mescladas de fé
e comoção. No topo da colina, destaca-se como uma das marcas emblemáticas de
Piquete. Na comemoração dos 109 anos de nossa emancipação política,
cumpre-nos reverenciar o velho templo plantado na nossa história e símbolo de
nossa fé.
Chico Máximo
Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - Coluna do Chico Máximo
Página formatada em 05 set 2004