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O Velho
Casarão
Emocionante
a crônica "Casa demolida", de Rubem Braga, que li recentemente: um dos antigos moradores a contemplar os escombros
atirados ao léu, a poesia da
infância sepultada nos destroços. Ela trouxe-me à lembrança o velho casarão do meu avô Chiquinho Máximo, demolido há
anos. Mesmo o abacateiro que
coroava o quintal com sua copa imensa já não existe mais. Ele ficava alegre de flores e seus galhos tocavam
as altas janelas, das quais apanhávamos
frutos para comê-los na própria casca. Era à sua sombra que os meninos brincavam com trenzinhos de caixas-de-fósforo
e criavam boizinhos de
chuchu. O casarão erguia-se como uma fortaleza - cômodos espaçosos, janelões azuis, portadas com
bandeiras, assoalho de tábuas largas e um porão sempre
atulhado de coisas úteis e inúteis, muitas vezes levadas pelas enchentes. Quando as águas
despencavam com força do céu e o ribeirão cantava grosso, as mulheres acendiam velas
junto a um oratório cheinho de santos, queimavam
palmas bentas e invocavam Santa Bárbara. Espalhados pela casa, móveis de jacarandá e peroba -
reminiscências da fazenda Bela Vista - desafiavam
o tempo e exibiam alfaias em porcelana, prata e cristal, algumas ainda hoje cuidadas com carinho. Meu
avô nunca adentrava os quartos dos filhos,
casados ou solteiros, que considerava território sagrado e indevassável. Comandava a família
com silenciosa autoridade. Perdeu a fazenda
e a esposa, mas não perdeu a dignidade - estoicamente continuou lutando e vivendo sem lamúrias ou
travos de amargura. Nunca se entretinha com
conversas frívolas. Terno de brim, colete e abotoaduras, botinas lustrosas, relógio com corrente
(parecia personagem saída de um livro de Machado)
ocupava-se com coisas sérias ou distrações saudáveis: a Política, a leitura diária do jornal, o solfejo
de partituras musicais, o tabuleiro de damas,
ele sozinho no ataque e na defesa. Na cozinha imperava a preta Adelina, filha de escravos
alforriados, cria da casa, as panelas de ferro bem
areadas a tagarelar no fogão sempre aceso. Das suas mãos luzidias brotava o tempero que nos aguçava o
apetite à volta de urna longa mesa ladeada
de bancos. Perita em doces e bolos, sobre a mesa a compoteira para a cidra ralada ou as folhas de caetê
para a pamonha. Simpáticas as tigelinhas de
louça com flores coloridas para a canelinha de São João, sorvida pelas crianças em pequeninos goles, bem
demorados... O rocambole marcado com vareta
de ferro quente assemelhava-se a uma onça listrada; dava vontade de só admirá-lo. Foi nessa cozinha
aquecida com o calor perfumado da lenha que ouvi
histórias do meu Piquete antigo: a abolição da escravatura, as negras de sombrinhas abertas, num sobe e
desce pelas ruas, dançando e cantando o presente
da liberdade; os morros cobertos de cafeeiros com respingos amarelos e vermelhos; os carros-de-boi
apinhados de gente para as festas do Embaú;
a Revolução de 32, o tiroteio incessante na Mantiqueira, a cidade vazia com a fuga precipitada para São
Paulo e o desfile de soldados travestidos,
atitudes irreverentes... Paralelos a essas crônicas, lendas e "causos" que nos provocavam
prazer e medo, como o de uma mulher que chorava dia
e noite, inconformada, a morte prematura do filho. Certa vez, horas mortas, debruçada à janela, assistiu
à passagem de uma procissão luminosa, túnicas
brancas, cânticos e ladainhas. Bem atrás, distanciado do cortejo, um menininho com as vestes molhadas,
passos trôpegos e vacilantes, encharcados das
suas lágrimas. Reconheceu o filhinho, que por ela passou triste e desamparado. A partir daquela noite
tomou a decisão de nunca mais chorar. O nosso
imaginário recriava essas histórias que nos povoavam o mundo dos mitos e dos sonhos. Volta e meia recebíamos
a visita da Maria Turca, que veio lá da Síria para fazer fortuna por aqui. Chegava
de mansinho, voz macia, tamancos
e duas enormes malas recheadas de novidades - rendas, linha colorida, retroses, agulhas, panos,
lingerie - que espalhados sobre a mesa, aguçavam
a cobiça das mulheres. Calma e paciente ela se despedia, e lá ia, as malas menos pesadas e um brilho
diferente nos olhos, a mascatear em outras
portas. Quando havia visitas importantes, nós, pequenos, argüidos, exibíamos conhecimentos de Teologia,
enquanto meu irmão, deitado no assoalho,
imitava o Menino do presépio, sob o olhar complacente do Sagrado Coração de Jesus entronizado na sala
principal, na mão direita o cetro e na esquerda,
o globo terrestre, rei e protetor da família, que se orgulhava do Catolicismo. Das paredes, os
antepassados nos contemplavam com seriedade. O velho
casarão ficava à rua Major Carlos Ribeiro, pertinho do Hotel das Palmeiras. Não faz muito visitei o
local onde ele fora erguido. Com os olhos vasculhei
o quintal à procura da minha infância. Revi vultos, lembrei conversas e risadas. lmaginei como
seria bom se todos voltassem, as janelas abertas,
o fogo aceso, o abacateiro florido... No entanto, o Casarão, invulnerável, indestrutível,
atemporal, reerguido dentro de mim, na solidez da
poesia!
Chico Máximo Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - Coluna do Chico Máximo Página
formatada em 07 set 2004 |