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O Velho
Galo de Ferro
(Para Chico Máximo, o Tocador
de Sinos)
Da minha casa só se enxergava um pedaço da torre da igreja e nela... o galo. Lá
estava, garboso como se fosse o único a contemplar a paisagem. Inerte como um
guardião da rainha. Só o vento o fazia rodopiar na haste em que estava fixado.
De ferro forjado, para durar séculos, seu penacho era perfeito; talvez nenhum
outro artista, senão o que o criara, conseguiria uma linha curva tão perfeita,
porém não estava só. Na outra torre, da mesma velha matriz, tão férreo
quanto ele, outro galo rodopiava ao vento. Para mim estavam no topo do mundo.
Contemplavam a saída e a chegada da maria-fumaça, que lançava até eles o
cheiro do carvão queimado. Vigiavam o Santo Cruzeiro, testemunharam o último
abraço dos jovens enamorados que optaram pelo enlace eterno. Inspiração
shakespeariana, as juras do amor imortal. De lembranças... nada mais resta. Os
galos de ferro até cantaram em alerta, mas o canto, com certeza, foi confundido
com tantos outros que abundavam os quintais. Ao meio-dia, quando um menino imbuído de sentimentos cristãos badalava
caprichosamente os pesados sinos chamando o povo para se recolher em preces, o
velho galo se movimentava em todas as direções, como a conferir se todos
haviam ouvido. Então se espalhava pelas encostas a melodia da Ave-Maria. Uma
voz pura ressoava... "O anjo do Senhor anunciou à Maria..." Com o tempo o menino se fez homem, o sino não mais badala ao meio-dia, tampouco
às seis horas. O Santo Padroeiro ganhou nova casa. Há muito, a velha matriz ganhou nova função: receber em sua nave, para o
adeus final, os cristãos que partem para a eternidade. Em ocasiões muito especiais, o sino volta a badalar, movido pelas mãos de
outros meninos. O coro entoa melodias que penetram nossos corações e nos
remetem para a infância, para as lembranças sagradas de nossas primeiras
comunhões, com véus de filó cobrindo as cabeças e sob o olhar de felicidade
de D. Mariquinha. Seu Zequinha Meireles ia e vinha rapidamente no preparo das
galhetas. Após a missa, o chocolate quente preparado pelas senhoras beatas.
"Quem em pecado se encontrasse a hóstia cairia na hora da comunhão, em
sinal de reprovação." Sagrados sentimentos, sagradas estórias que habitam em nós.
De tudo que passou, resta a Igreja das Almas e o velho galo de ferro a
testemunhar nossas vidas...
Ana Maria
de Gouvêa Texto
transcrito do Jornal "O Estafeta" de julho de 1997 Página
formatada em 14 ago 2004
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