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Um
Rastro de Lembranças
O trenzinho dos operários percorreu, durante 71 anos, os
caminhos da nossa história... e deixou um rastro de lembranças.
Recém-saídos do grupo escolar, freqüentávamos o Ginásio
da Fábrica Presidente Vargas, íamos de trem até a Estação
da Estrela e de uniforme cáqui passeávamos pelas classes
cheias de operários a nossa vaidade de estudantes. Foi nele
que fizemos a nossa iniciação charadística. Salta-me da memória
a primeira charada proposta, desconexa e absurda, diria hoje,
surrealista: "Aqui, o buraco é animal -1-2".
Paulatinamente partimos para construções poéticas e ousadas
como "Fruta, fruta, fruta-Terra, terra, terra-Água,
água, água-2-2." Um ou outro, em atitude esfíngica,
desafiava-nos com novas combinações de sílabas e vocábulos
e, aos poucos, fomos dialogando com as mais complexas formas
de decifração. O nosso espírito comprazia-se com esses
exercícios mentais que nos aguçavam o raciocínio e nos
davam uma aura de superioridade. O trajeto do trenzinho entre
as estações "Rodrigues Alves" e
"Estrela" tinha a duração da beleza: casas à
beira-linha com quintais decorados de flores, bananeiras,
bambuais ramalhudos e cachos de melõezinhos a tingir de
maduro a aspereza das cercas de taquara; o esverdinhado dos
morros em contraste com o azul da serra e o ribeirão sempre
limpo, convite para mergulhos e braçadas... Crianças em
adeuses e gritos estrangulados pelo barulho da locomotiva. Uma
cruz de madeira, rodeada de imagens, junto a um pontilhão,
falava-nos de morte e bafejava de mistério a
fragilidade de nossas vidas. Tive a oportunidade de ver, numa
exposição, uma fotografia dessa cruz. Vestida de
crepom, pareceu-me um pássaro de papel, asas abertas,
colorindo a solidão. Após a sua passagem, mulheres
humildes, munidas de latas, recolhiam as borras incandescentes
do carvão. Outras lamentavam pelas roupas dos varais
manchadas do preto das fagulhas. O velho trem esteve sempre
vinculado à nossa paisagem social, a momentos de alegrias e
tristezas; às romarias a Aparecida, com a veneranda figura do
Padre Juca, Nossa Senhora entronizada num andor todo de
flores, sinos e foguetes no silêncio da madrugada; as festas
natalinas, o trenzinho chegando de Lorena, um Papai Noel na
cara da locomotiva, as crianças às janelas sonhando com
brinquedos; os operários cansados e sonolentos, e a lembrança
amarga das explosões, a cidade de luto marcada pela dor.
Soube, pelos meus familiares que, em 32, conduziu nossa gente
para São Paulo, entregue a cidade às mãos das tropas
constitucionalistas. Canhões pipocavam na Mantiqueira e
soldados, muitos ainda imberbes, os "pátria-amadas",
invadiam nossas ruas. Três dias de viagem crivada de cansaços
e incertezas. Vômitos de crianças, diarréia, carência de
comida e leite, malas e trouxas feitas às pressas. Fato
pitoresco o de uma mulher que, no afã de levar muita coisa,
fizera uma enorme trouxa, grande demais para portas e janelas.
Certa vez, eu menino, não recordo o ano, vi o trenzinho
apinhado de pessoas importantes, gente bem vestida e um
corre-corre para a estação - Getúlio Vargas visitava
a Fábrica de Pólvora sem Fumaça. Ao longo da linha férrea,
adultos e crianças acenavam e o Presidente passava,
distribuindo sorrisos, orgulhoso da dignidade de chefe supremo
da nação. Durante muitos anos foi ele o nosso único meio de
transporte. Pela manhã uma viagem até Lorena, rápidas
paradas para embarque do leite. À tarde, ele retornava com as
noticias dos jornais e os segredos das correspondências. E a
estação tornava-se ponto de encontro para recepção de
parentes e amigos que vinham rever a cidade natal. Nos
quintais, os meninos brincavam com trenzinhos de caixas-de-fósforo,
faziam-se de maquinista e imitavam os apitos da maria-fumaça.
Infelizmente, um dia ele deixou de circular. Fez a última
viagem no dia 31 de dezembro de 1977. Despedida sem aparatos,
apenas alguma pessoas - o chefe da estação, os três
maquinistas e poucos operários. Arrancaram os trilhos,
deixaram desabar as estaçõezinhas onde ele costumava parar.
Hoje, tudo não passa de fotografias nos álbuns e arquivos. A
Estação da Estrela, na zona militar, continua firme, a armação
de ferro importada da Europa. A Estação Rodrigues Alves,
inaugurada com festas, no início do século, jaz ao abandono,
cada dia mais descaracterizada, vítima das intempéries e
pichações, ninho de ratos e morcegos à espera do socorro
das autoridades. Marco duma época e página da nossa história;
urge restaurá-la e salvá-la da morte, para que no futuro se
saiba que por ela passava, no dia a dia, um trenzinho cheio de
operários, as frontes coroadas de suor e ungidas de sacrifício.
Chico
Máximo Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - Coluna do Chico Máximo Página
formatada em 17 set 2004 Background executado a partir de uma foto de Lety |