PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
TRADIÇÕES E FOLCLORE

Jongo em Piquete

"O jongo tem que ser
Tem candogueiro pra bater, tem
Tem que ter, ter calo na mão,
  tem que ter."

Trecho de Jongo de João-Congo
Sérgio Santos e Paulo César Pinheiro


Jongueiros em Piquete, SP
Na fila da frente, todo de branco, Prof. Gil,
grande incentivador da preservação desta dança.

JONGO EM PIQUETE

O jongo é um patrimônio cultural do país presente na região sudeste. Considerado um dos pais do samba, foi uma das maiores contribuições dos negros para a cultura do Brasil e influenciou a formação da música popular brasileira. Em Piquete, o jongo sobreviveu graças aos esforços e empenho de muitos jongueiros que, ao longo de décadas, trabalharam para que essa manifestação cultural se mantivesse viva. Até os anos 40 e 50 do século XX, era comum a presença de grupos de jongo nas festas de 13 de maio, São Benedito, festas juninas, casamentos, etc. Muitos desses jongueiros são lembrados e reverenciados por antigos moradores de Piquete. Nos anos de 1980, Terezinha Generoso, incansável batalhadora pela valorização do negro e de sua cultura, manteve-se à frente de um grupo de jongo, que se dispersou com seu falecimento. Houve um retraimento do jongo, até que o professor Gilberto A. da Silva passou a liderar um novo grupo composto por netos e bisnetos dos antigos jongueiros, que vem crescendo e ganhando visibilidade, apresentando-se em diversos eventos, não apenas no município, mas em outras cidades. O atual grupo de jongo de Piquete conta com 40 integrantes e é sinônimo de sucesso onde quer que se apresente, como foi constatado em dezembro de 2004, quando participou do "9º Encontro de Jongueiros" realizado no Rio de Janeiro, do qual constou o I Seminário Nacional sobre o Patrimônio Imaterial do Jongo.  Chama a atenção a animação dos membros, a força e o ritmo da percussão e a presença de crescente número de crianças e jovens, que cantam e dançam fortalecendo os laços do grupo, contribuindo para a preservação desse patrimônio cultural.
O jongo ou caxambu é um ritmo cujas origens estão nas regiões africanas do Congo, Angola, e veio para o Brasil-colônia com os negros de origem banto trazidos como escravos para o trabalho nas fazendas de café do Vale do Paraíba paulista, fluminense e mineiro. Os bantos são membros da grande família etnolinguística dos negros chamados Angolas, Congos, Cambindas, Benguelas e Moçambiques, e foram os primeiros escravos que chegaram ao Brasil. A influência da nação Banto foi fundamental na formação da cultura brasileira. O negro, isolado nas fazendas de café, dançava o jongo para passar o tempo e acalmar o sofrimento. O jongo era um dos únicos momentos permitidos de troca e confraternização. É uma dança profana de roda e de umbigada, dançada para o divertimento, mas uma atitude religiosa permeia a festa. Antigamente, somente os mais velhos podiam entrar na roda. Os jovens ficavam de fora, observando. Os antigos eram muito rígidos com os mais novos e exigiam muita dedicação e respeito para lhes ensinar os segredos ou "mirongas" do jongo e os fundamentos dos seus pontos. Os pontos de jongo têm linguagem metafórica cifrada, exigindo muita experiência para se decifrar seus significados. Alguns jongueiros eram verdadeiros poetas-feiticeiros que se desafiavam nas rodas de jongo para disputar sabedoria. Com o poder das palavras e forte concentração, buscavam encantar o outro por meio da poesia do ponto de jongo. Quem recebesse um ponto enigmático tinha que decifrá-lo na hora e respondê-lo -"desatar o ponto". Caso contrário, ficava enfeitiçado, "amarrado".

Texto publicado no Jornal "O Estafeta" 
Piquete, SP - fevereiro de 2005

 

 

 


Jongueiros em Piquete, SP

Depoimento de Dogmar Brasilino

“Do jongo me lembro muito bem!”
Aos 79 anos de idade, Dogmar Brasilino diz que desde menino tomou conhecimento dessa dança. Escapava de casa para espiar uma roda de jongo. Diz que se sentia atraído pelo batuque e pela fogueira acesa à noite – os tambores eram aquecidos no calor da fogueira, para ficarem afinados. Havia um ritual em que um jongueiro mais velho preparava o tambor no fogo e todos, ao redor, em círculo, o observavam.  Batia, então, uma vez no tambor e os outros o acompanhavam. A seguir, puxava um ponto. Assim iniciava-se a dança. As mulheres seguravam a barra da saia e entravam dançando no meio da roda. As poderosas batidas atraíam crianças curiosas como ele. De sua casa, era o único que gostava de jongo. Achava tudo muito bonito. Apesar de apreciar, só assistia; nunca dançava. Recorda-se de rodas de jongo que aconteciam nos anos 30, no final da rua da Mantiqueira e início da Capitão José de Brito, onde hoje se localiza a venda do Valdemar. Lá havia uma família negra – do João Tijoleiro – em que todos os filhos dançavam. Quando havia festas juninas, eles faziam uma grande fogueira e chegava gente de todos os lugares. Nos início dos anos 40, onde hoje se encontra a praça Duque de Caxias, grandes rodas de jongo eram formadas num descampado em que mais tarde foi construído o cinema “Estrela do Norte”. Também ali as festas juninas atraíam renomados jongueiros e curiosos, que dançavam até o amanhecer.
Outro lugar em que os jongueiros se reuniam era a casa do sr. Virgílio, no alto da rua Cel. Pederneiras. Esse senhor, que não era negro, fazia uma “festança”, da qual se lembra da fartura de comida e animadas rodas de jongo. Havia a elevação de um mastro dedicado a um santo e reza de terço e, em seguida, reuniam-se em torno da fogueira para dançar. Seu Virgílio era devoto de São Benedito e foi ele quem pediu para Juca Brito, dono das terras da antiga Fazenda São José, para que se construísse uma capela em louvor ao santo negro, no lugar da antiga sede, local onde haviam trabalhado muitos escravos. Foi atendido e ganhou um terreno de 15x8m, onde foi construída uma capela. Lá, as festas anuais de São Benedito atraíam inúmeros jongueiros. Dogmar refere ter na memória todas as rodas de jongo que assistiu ao longo dos anos e a fisionomia de antigos jongueiros. No entanto, esqueceu-se dos nomes da maioria. Lembra-se do jongueiro Amaro Salgado e suas filhas:  “todos dançavam muito bem”;  João Miguel; o Egídio (maquinista do ramal ferroviário); Jacó e suas filhas; a família do Alcides, em que todos dançavam; o pai do Alfredo Rosa; Mariano Machado; dona Zezé e o marido, José Machado; José Benedito e dona Laurinha. Dogmar diz que no bairro da Raia havia muitas famílias negras e bons jongueiros. Recorda-se de que as rodas de jongo chegavam a ter entre trinta e quarenta participantes, todos negros; no meio “pintavam” uns três ou quatro brancos. Lembra-se de um fazendeiro branco – “lá dos lados do bairro do Ronco...” –, que vinha dançar na Raia. Chamava-se Sebastião Mendes. Sua esposa, dona Ritinha, o acompanhava, mas não dançava. Diz, ainda, que era presença constante nas rodas de jongo a Conceiçãozinha e suas filhas Zezé, Angelina e Vanda. Mais recentemente, Terezinha Generoso, grande jongueira e divulgadora dessa dança, muito atuante em prol da cultura negra.  Outra figura lembrada é a de José Custódio, o tradicional “Zé das Moças”. Apesar de dizer não se lembrar de muita coisa, após breve bate-papo, Dogmar achou que a conversa foi boa e, que, aos poucos, “foi clareando a cabeça da gente...”. “Estou enxergando uma roda de jongo e vejo todos dançando..." Canta um ponto:

Ai, ai, ai, mamãe...
Ai, ai, ai, mamãe...
Mamãe mandou varrer cisco de casa
Mamãe mandou varrer cisco de casa
E mandou eu tirar cisco da suruca
É da suruca
É da suruca
 
Concluiu dizendo que eram tempos bons aqueles em que o jongo acontecia com freqüência na cidade e atraía muita gente amiga. O jongo era (sic) muito importante.

Texto gentilmente enviado pelo Prof. Gil.
Material pertencente ao acervo da Fundação Christiano Rosa
Piquete, SP

FOTOS DE LETY
Ponto de Jongo na voz do Prof. Gil

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