PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
TRADIÇÕES E FOLCLORE

Jongo em Piquete


Prof. Gil e Zezé Machado no 12º Encontro Nacional de Jongueiros, em Piquete-SP.
Dona Zezé é a mais antiga jongueira da cidade.
Foto de Lety

 

Jongo, Herança Cultural do Sudeste

Não podemos precisar quando os sons dos tambus e candogueiros foram ouvidos pela primeira vez na região de Piquete. É bem provável que eles já ecoassem pelos vales da Mantiqueira nas primeiras décadas do século XIX, nas fazendas de café formadas à época da expansão da lavoura cafeeira na região. Quando os negros foram trazidos como escravos para o Brasil trouxeram como bagagem suas práticas sociais, entre elas a música, a dança e a religião. Para eles, a música tinha conotação tanto religiosa como festiva, e, geralmente, era associada à dança e ao canto. É evidente que, com o passar do tempo, todas essas práticas sofressem modificações ou ajustes, uma vez que se mesclaram com a cultura dos que aqui habitavam, passando, então, a abordar novos temas. Também foram utilizados para essas evoluções instrumentos europeus e indígenas, pelo fácil acesso, e, sobretudo, ai adotada a língua portuguesa como a de expressão. Nas fazendas cafeeiras, após o término das tarefas diárias, ao fim da tarde acendia-se uma grande fogueira no terreiro, em frente à senzala, em torno da qual, nas noites de sábado e nos dias santos, os escravos se reuniam para dançar o jongo. Muitas vezes, a notícia de que haveria roda de jongo chegava até as propriedades próximas, e de lá vinham outros escravos. Dois tambores eram colocados próximos ao fogo e, do outro lado, sentavam-se os negros idosos. Ao tambor maior os escravos davam o nome de "caxambu"; ao tambor de acompanhamento, menor e de som mais agudo, chamavam "candongueiro". Um período de aquecimento precedia o jongo. Os percussionistas davam o ritmo batendo com a palma da mão, ensaiando junto aos "acompanhantes", enquanto os jongueiros cantarolavam os versos para si mesmos e também para os percussionistas. A fim de afinar os tambores, os mesmos eram levados para próximo do fogo, para que o calor lhes esticasse o couro. O jongo tinha início com a entrada de um líder na roda formada, que, se aproximando dos tambores, de maneira respeitosa ajoelhava-se, com a cabeça inclinada, e os cumprimentava. De pé, cantava as duas linhas enigmáticas do jongo, e os tambores percutiam na batida, enquanto os escravos repetiam o refrão, batiam palmas e entravam na roda. Os dançarinos moviam-se no sentido contrário ao do relógio. Quando se cansavam, dançavam em direção aos do mesmo sexo, convidando-os a substituí-los, tocando-os com as palmas das mãos. Mesmo as crianças entravam na roda para imitar os movimentos dos mais velhos. As melodias do jongo são construídas com o uso de poucos sons. A dificuldade reside no texto literário dos "pontos", pois são todos enigmáticos e metafísicos. A inexistência de textos de sentido simbólico que dão às palavras uma semântica peculiar aos jongueiros parece ter tido origem na escravidão, quando os negros necessitavam transmitir informações indecifráveis para os senhores. Os pontos são baseados em versos curtos e fáceis de ser cantados, que nem sempre são improvisados, pois há aqueles tradicionais, ouvidos em diferentes regiões. O ajuste das palavras à música é regulado por fortes compassos. Quando o solista quer desafiar alguém, canta um "ponto de demanda", que deverá ser decifrado pelo desafiado, numa resposta cantada; diz-se, então, que o "ponto foi desatado". Se não for decifrado, diz-se que "ficou amarrado". O decifrador deve colocar a mão em um dos tambores e gritar: "cachoeira" ou "machado", ocasião em que todos se calam. Em seguida, canta a resposta.

AC - Jornal "O Estafeta"
Abril de 2008


Prof. Gil e Élida no 12º Encontro Nacional de Jongueiros, em Piquete-SP.
No colo do pai, João Gilberto, da mais nova geração de  jongueiros da cidade.

Fotos de Lety
Ponto de Jongo na voz de Clementina de Jesus

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