Entardecia e, como sempre acontece
ao término de um dia de rotina e trabalho, o cansaço me
invadia. Um dia a mais, como tantos outros dias iguais.
Envolta pela luz do crepúsculo, extenuada, eu sentia
insípido aquele instante, de uma insipidez exacerbada
pela rígida padronização do consultório onde estava.
As paredes de ladrilhos brancos, impecavelmente limpos e
rutilantes, o chão de tijolinhos vermelhos, encerados e
lisos... Nem uma nódoa, uma manchinha sequer. Tudo
limpo, lustroso, cheirando a álcool e Asseptol. O teto
branco com sua lâmpada fluorescente acesa, os armários
cinzentos repletos de amostras grátis guardando material
ginecológico e obstétrico. Um fichário, uma
balança Filizola, a mesa de exame com lençóis imaculadamente brancos, a escadinha cinzenta gasta pelos
pés das pacientes no sobe e desce diário e
intermitente. Frente a mim, duas cadeiras vazias
cinzentas, até há pouco ocupadas por velhas, moças,
gordas, magras, gestantes barrigudas, paridas
satisfeitas, virgens e gonorreicas. Porisso estava tão
cansada... Sobre minha mesa também cinzenta e fria, a
estatística do dia revelava o número de pessoas
atendidas: vinte e oito. Como consegui vencer esta
maratona? Meu cismar foi interrompido por uma leve batida
na porta. Podia ainda haver gente?
- "Entre", eu disse.
-"Com licença", anunciou-se uma voz flácida e
acariciante.
Lentamente, a porta se abriu. Como se
deslizasse pelo chão, polindo o encerado, lesmoidemente,
ela foi entrando. Miúda, pele morena e acetinada,
cabelos negros e lisos cortados redondos, olhos
oblíquos, testa curta e malares salientes revelando
ascendência indígena, gestos delicados mas untuosos.
Atravessou a sala, parecendo à medida que se aproximava
da minha mesa, penetrar em meus poros, impregnar com seu
perfume as minhas narinas. Puxou a cadeira; sentou-se com
indolência e estendeu-me seu cartão, após olhá-lo
atentamente por alguns instantes, como se algo nele
pudesse não estar correto.
Enquanto eu anotava seus
dados pessoais, seu olhar vagava pela sala, passeava
lentamente, alisando os detalhe do consultório, curiosa,
valorizando cada ângulo. Surpreendia-se com as
saliências, detinha-se nas minúcias, deixando entrever
no olhar, no sorriso, no meneio lânguido da
cabeça, nos movimentos de mãos e corpo, as suas
emoções. Apesar de entretida em minhas anotações, eu
a sentia solicitando, insistente e mudamente, minha
atenção sobre sua pequena, mas já agora avantajada
figura. Observando suas reações, a frieza e rigidez de
minha sala, tão idêntica para mim às salas de
quaisquer outros ambulatórios públicos, desapareceu e
tomou até um colorido berrante. A despercebida rosa de
plástico vermelha sobre um dos armários, pareceu
tornar-se viva, aveludada, orvalhada e perfumada; o pôster da mãe amamentando, propaganda da Campanha
Nacional de Incentivo à Amamentação, desbotado e
rasgado, pelo brilho de seus olhos transformou-se numa
madona célebre de um mestre renascentista. Tudo cresceu
na sala. Ela conseguiu ocupar todas as gretas, todos os
espaços. E nada havia ainda dito a não ser um curto
"com licença". Bem vestida, maquilagem
discreta e perfeita, sem ser bonita era agradável à
vista. Diferente destas mulheres gordas e gordurentas que
atendemos por estes ambulatórios afora. Mas algo havia
em sua maneira de sentir, de cruzar e descruzar as
pernas, de olhar, de menear a cabeça, que parecia
envolver, grudar, sufocar...
- "Doutora, vim lhe procurar
porque tive excelentes informações a seu respeito.
Disseram-me que é muito humana e atenciosa. A verdade é
que eu não estou doente, apenas preciso de um
conselho", começou ela vagarosa e explicadamente.
-
"Pois não", respondi. "Se eu puder lhe ajudar"...
- "Bem, doutora... como é mesmo seu
nome?"
- "Auxiliadora", respondi.
-
"Pois bem, Auxiliadora".
Meu nome nunca cresceu
como em sua boca e nunca faltou tanto a ele o título de
doutora. Ela continuou em sua intimidade não permitida,
recém-adquirida.
- "Pois bem, Auxiliadora, antes de
lhe contar meu problema atual, é bom que saiba que não
tolero críticas. Eu tenho uma vida... digamos... uma
vida autêntica... Faço sexo porque gosto, porque quero,
sem grilos. Sou... é... sou como dizem... garota de
programa, saca? Se tiver preconceito, diga que vou
embora", acrescentou ela numa estudada pose
defensiva, segurando a bolsa que anteriormente havia
deixado sobre a cadeira.
-"Ângela, eu sou médica
ginecologista", respondi. "Você não é a
primeira que me procura, nem será a última que me
pedirá orientação. Meu senso de moral pertence à
minha vida privada. Não estou aqui para criticar nem
tampouco justificar ninguém".
- "Ótimo,
doutora", retrucou ela após um demorado suspiro que
queria demonstrar alívio. "Assim poderemos nos
entender. Detesto gente mascarada, moralista. Eu tinha a
certeza que você, com esta carinha não poderia ser
assim. Eu vivo com meus pais, dentro de casa, mas tenho
minha vida sexual. Aliás, quem é hoje que não tem? Sou
uma moça moderna, emancipada. Estudo, trabalho, sou dona
do meu nariz".
Acendeu arrogantemente um cigarro.
Soltou uma baforada para o teto, como se todos os
espaços lhe pertencessem, até mesmo meus alvéolos.
Continuou, após mudar de posição na cadeira:
-
"Tenho dado azar, é verdade, mas por causa dos
homens que são uns canalhas. Nem todos, é claro.
Existem as exceções, só que são raríssimas".
Parecendo entrar em outra dimensão, uma dimensão da
qual só ela participava, parecia reviver suas
experiências naquele instante. Seus olhos, fixos e
brilhantes, não me enxergavam. Eu estava naturalmente
excluída de seu mundo, um mundo do qual só ela via os
movimentos. Contou sua história, como se saboreasse cada
palavra, cada frase, vivenciasse cada som.
- "Eu fui
deflorada aos dez anos por um de meus irmãos mas veja,
ele é o único que faz as coisas por mim, arranja
emprego e me empresta dinheiro quando estou dura. Meus
outros irmãos se pudessem me queriam ver é na lama. Só
que este gostinho eu não darei nunca. Todos eles tem
gana em mim. Já andei com mais dois deles, mas quando
era novinha, não tinha a cabeça no lugar. Um outro que
mora em São Paulo tem ódio de mim porque não dormi com
ele. E olhe que é um pedaço de homem. É o mais
branco lá de casa. Mas quando me quis, eu já havia
encontrado Jesus".
Apanhou o crucifixo que trazia no
pescoço e o beijou, ternamente.
- "Eu andava muito
doida, sem valores, tentei suicídio, não acreditava em
nada, até que Jesus entrou em meu coração. Passei a
ler a Bíblia e acompanhei os Meninos de Deus. Fugi com
eles para Recife e vivi lá sete meses. Fui muito feliz
ali. A gente ia para as ruas de mãos dadas sorrindo para
o dia que Deus nos dava, tentando transmitir todo o amor
de nossos corações para as outras pessoas. Foi lindo e
eu fui tão pura nestes meses... me lavei de todos os
meus pecados no amor de Jesus. Mas meu pai descobriu onde
eu estava e foi me buscar. Ai me mandou para a casa deste
irmão, em São Paulo. Vivia me perseguindo, era um
inferno. Um dia, minha cunhada saiu e ele se deitou
nu na minha cama e disse que não sabia como eu podia ser
tão fria que mesmo vendo como estava excitado, não ia
para a cama com ele. Eu nunca fui. Meu coração só
tinha amor por Deus e Jesus Cristo. Eu não me separava
da Bíblia Sagrada e encontrava forças para me proteger
do mal. Até hoje eu a carrego comigo, quer ver"?
Jogou fora o cigarro e
abriu sua bolsa, mostrando-me um pequeno livro de capa
preta envolto num plástico bege. Guardou-o novamente e
sem se deixar interromper, continuou:
- "Voltei de
São Paulo, porque comecei a namorar um cara. Ele queria
ficar noivo, mas meu irmão ficou morto de ciúmes.
Seguiu a gente uma noite e nos encontrou fazendo amor no
carro. Cego de raiva me mandou de volta para o Ceará,
dizendo que eu - imagine - o tinha envergonhado por lá,
que ele era um gerente de banco, respeitado, e não podia
ter uma irmã piranha que vivia dando por aí a qualquer
um. Mas o que queria mesmo, é que eu só desse para ele. Vim para Fortaleza, mas tão traumatizada que passei
seis meses trancada no meu quarto. Engordei dez quilos.
Quer ver meu retrato desta época? Olhe, não estou
diferente? Nem pareço a mesma, não acha? Pois bem... Um
dia eu reagi. Esse meu irmão, sabe, meu primeiro homem,
conseguiu para mim, um emprego na firma em que trabalha.
Emagreci, fiquei engraçadinha de novo. Porisso não tomo
pílula. Tenho pavor de engordar novamente. Mas aí eu
comecei a sair outra vez, uns e outros, homens mais
velhos, bem situados na vida, casados, até que há um
ano, parei totalmente com sexo livre".
- "Está
então só?", perguntei.
- "Não,
criatura", retrucou surpresa. "Parei de sair
com desconhecidos. Assim, este negócio do cara buzinar,
eu gostar do bigode dele e topar ir para a cama".
-
"Sim", disse eu, "você agora então só
sai com rapazes de sua idade?"
- "Corta essa,
doutora", respondeu ela com um sorriso malicioso. "Estes não estão com nada. Ou são empregadinhos
ou vivem de mesada. Comer cachorro quente na beira da
praia, prato feito em restaurante sujo, refrigerante em
pé no bar da esquina? Estou em outra, doutora, qual é?
Sou telefonista, ganho pouco, tenho que me virar. Saio
com homens casados, mas conhecidos, colegas de trabalho,
situação definida, bom status, coisa e tal. É
mais garantido".
-"Você se prostitui, então?", indaguei.
- "Como pode me perguntar
isso?", disse ela entre surpresa e magoada.
"Tenho por acaso cara de mulher da vida? Menina de
programa, vá lá. Prostituta é outra coisa".
-
"Se você não cobra pelo sexo que pratica, porque
então disse que ganha pouco e tem que se virar?", insisti.
- "Ah! sim. Entendi sua confusão".
Seu corpo
tenso, há pouco, caiu, novamente relaxado na cadeira.
Tomando ares de mestra explicou:
- "A gente ganha um
agrado aqui, uma lembrancinha ali, uma ajuda para pagar
as contas, um bom jantar, uma boite para se divertir, um
chopinho no fim da tarde, fazer sexo num motel decente,
não numa pensão vagabunda da Rio Branco".
-
"E você não chama isto prostituição?" - eu
estava realmente disposta a provocá-la.
- "Nunca. A
senhora chama?"
Seus olhos arregalaram-se surpresos.
- "Ora doutora, se mulher casada pode ser sustentada,
vestida e alimentada, exigir do bom e do melhor, porque
que para a gente não vão dar nada? Depois, eles gozam
mais comigo, moça emancipada, do que com a burra da
mulher deles, mulher sem vontade, cheia de filhos e de
resmungos. E que nem sabem trepar... Fazem por
obrigação! Cavalo velho gosta de capim novo, sabia? Só
saio com homens sérios, maduros, boa situação
financeira. Depois eles são mais experientes, fazem sexo
melhor do que os rapazes".
- "Você é então
realizada sexualmente?" perguntei.
-"Bem, isto
é outro problema. Gosto de sexo, sinto falta, preciso de
uma cama, mas... nunca consegui gozar. Só que eu deixo
prá lá, não encuco. E também não conto para eles
pois precisam acreditar que eu sou AQUELA
MULHER!!!"
Descruzou as pernas, acendeu outro
cigarro, modificou sua expressão de devaneio e mais
presente, retomou a palavra.
- "Doutora,
isto é um pouco da minha história. Na verdade se eu
fosse lhe contar toda a minha vida daria um romance. Mas,
vamos agora ao que importa no momento", enfatizou
como se eu estivesse desperdiçando seu tempo. "Acabei de fazer um
exame de urina. Estou grávida. Como lhe disse, não tomo
a pílula anticoncepcional, porque tenho horror à
gordura, sempre me safei bem. Agora entrei nesta e não
tenho coragem de abortar. Acredito em Deus e não quero
cometer um crime. Esta criança inocente tem o
direito de nascer. Eu não posso cometer um pecado
mortal. Jesus vai me amparar se eu assumir meu filho.
Depois, estou namorando um cara maravilhoso, diferente de
todos os outros. Ele pintou na minha vida como uma
aventura mas me liguei nele. Ele é solteiro, rico, tem
uma firma de representações e está se formando
engenheiro. Chama-se Mauro".
- "Qual o
problema, então?", perguntei.
- "O problema é
que minha última menstruação foi no dia quinze de
junho. E ele sabe, porque viajou justamente neste dia,
véspera do aniversário da mãe dele. A gente já não
ia para a cama há uma semana e não pudemos nos despedir
porque assim ele não gosta. Só voltamos a transar no
dia trinta de agosto. Ontem, dia três de setembro, meu
exame de gravidez deu positivo. Eu queria uma forma de
fazê-lo aceitar que o filho é dele".
Tirando da
bolsa um calendário cheio de marcas vermelhas e azuis,
cruzes e bolinhas, acrescentou:
- "Eu sai...
vejamos... Sim! Saí dia vinte e oito de julho com
o... José... Tivemos relações à noite e na
manhã de vinte e nove, pois dormimos juntos, num motel.
A mulher dele tinha ido com os filhos para Sobral. Quinze
mais quatorze, vinte e nove. Justamente o dia perigoso,
estou certa? Minha regra vem sempre de vinte e oito em
vinte e oito dias. Posso sair até forrada porque vem
mesmo. Bem... acontece que no dia trinta à noite...
não... dia trinta à tarde eu saí com o... com o
Marcos. Foi isto. Exatamente... Vinte e oito e vinte e
nove com o José e trinta com o Marcos. Com certeza!
Um deles é o pai, mas qual? Doutora" - e a mão pegajosa e
solicitante segurou meu braço - "o Mauro tem que acreditar
que é ele. É o único que pode assumir esta barra.
E eu estou ligadona nele. A senhora tem que me
ajudar".
Expliquei a ela a impossibilidade de
imputar ao tal Mauro, a paternidade da criança. Isto era
evidente, não era preciso ser médico para constatar
isto. Como também seria impossível estabelecer qual dos
dois outros seria o responsável pela concepção.
Imediatamente, sem hesitar, ela mudou de atitude.
-
"Então, não há outra solução para o meu
problema. Não sei quem é o pai e é um pecado maior que
o aborto, colocar uma criança no mundo sem saber quem a
gerou. Vou tirar o menino e tenho certeza que Deus vai
considerar o meu ato, um gesto de amor e respeito
para com o neném".
- "Em que mudou a
situação?", perguntei. "Você já sabia que o
Mauro não era o pai. Tinha certeza que um dos outros
dois seria o responsável sem poder definir qual".
-
"Mudou, doutora, mudou muito... mudou
demais...", disse ela lenta e pausadamente.
"Mauro tem dinheiro, pode casar comigo... tem
condição de me dar uma mesada se não quiser casar...
Aliás, ele tem mesmo uma noiva com quem namora
já há alguns anos. Mas é rico e tudo bem. Os
outros dois são casados, com filhos, vivem de ordenado.
Ordenado bom, está certo, mas sempre é dinheiro
contado. Quase nada podem fazer por mim".
Apagou
agressivamente o cigarro de encontro ao pé da mesa e
acrescentou agora fria e incisivamente:
- "Já sei o
que vou fazer. Mauro viaja agora na Semana da Pátria e
eu vou aproveitar para acabar com a fofoca".
Era quase noite quando Ângela foi
embora. Eu tentei imaginar o desfecho da aventura: ela se
livraria da gravidez incômoda e recomeçaria com o tal
Mauro, rico e quase engenheiro.
Não pensei que voltasse.
Já havia me esquecido de Ângela quando, um dia,
retornou. Um entardecer semelhante, idêntico maneirismo,
o mesmo falar macio.
- "Doutora, lembra-se de mim?
Lembra... não é? Também... lhe aluguei tanto outro
dia... Trouxe este talco da Avon para você... Topaze,
gosta? É uma lembrancinha minha... simples, mas de
coração. Se mais tivesse, mais lhe dava. Olhe doutora,
já resolvi tudo, vim lhe tranqüilizar. Já me livrei
daquele problema. Fui me confessar, cumpri minhas
penitências. Estou pura como um anjo. Abortei com uma
parteira que me cobrou dois mil cruzeiros. Caro, não é? Mas enfim, o que eu poderia fazer? Consegui o
dinheiro até que fácil, sabia? Pedi primeiro ao José,
pois ele é quem tinha a culpa maior, saímos duas vezes
no período de perigo. Ele não queria me dar, imagine...
Como se eu tivesse feito o menino sozinha... Provei com
datas que era ele, ameacei fazer escândalo na firma e
ele não teve como fugir. Deu dois mil limpinhos e
disse que não quer mais saber de mim. Mas já está
encompridando o olho para o meu traseiro. Bem... falei
com o Marcos também. Foi outra história. Choramos
juntos, ele me confortou, me abraçou, pediu desculpas
por não ter usado a camisinha. A única solução era o
aborto. Não podíamos ter o nosso filho. Ele já tem
quatro com a mulher e eu não queria estragar o lar
dele, deixar as crianças abandonadas. Por elas, pela
mulher dele não. É muito cheia de si; era até bom
para ela aprender a não empinar o nariz nas festas da
firma. Ele não tinha o dinheiro mas pediu emprestado e
me deu os dois mil também. Agora, doutora, eu
fiquei com um probleminha. Queria que a senhora me
examinasse".
Angela estava com uma infecção
ginecológica e necessitava de tratamento, remédios
caros. Pediu-me amostras grátis que não dei. Eu as
guardo para as pessoas realmente necessitadas e ela pelo
que contara tinha dois mil cruzeiros de reserva.
-
"Estes remédios vão ficar uma fortuna, não
é, doutora? Não tenho condições agora. Mas..."
- seu rosto se iluminou - "já sei o que vou fazer. Existe
um terceiro pai que eu esqueci de lhe contar. É meu
professor de matemática. Digo a ele que abortei por
minha conta, que o menino com certeza era dele, e
sei que ele me pagará os remedios".
- "Mas
você havia conseguido quatro mil cruzeiros, gastou dois.
Que fez com o resto?", perguntei intrigada.
-
"Ah! sim. Vou lhe mostrar".
Abriu a bolsa e tirou uma
pequena e delicada agenda e máquina de calcular.
-
"Veja só! Não é uma fofura? Veio de
Manaus e é importada. Paguei um mil e
oitocentos cruzeiros. Vou dar ao Mauro, como
presente de formatura..."
Autora: Mª Auxiliadora Mota G. Vieira (Maux) "Risos e Lágrimas de
Mulher"
Esta história aconteceu no
final da década de setenta. Ângela não se casou com
Mauro nem com ninguém. No afã de enriquecer,
prostituiu-se nas zonas de garimpo, quando do estouro das
corridas do ouro em Serra Pelada. Vinha a Fortaleza
arregimentar moças para a prostituição. Numa destas
vezes me procurou. Precisava desesperadamente de dinheiro
e me ofereceu por trocados (trocados mesmo) algumas
peças que estavam com ela. Eu sabia que não era ouro,
mas o que ela me pedia era mais barato do que o preço
dos zircônios que tentava fazer passar por brilhantes.
Comprei para ajudá-la e esta foi a última vez que a vi.
Há
cerca de dez anos soube por uma cunhada sua que ela
havia morrido contaminada pelo vírus da AIDS, sozinha e
pobre num hospital público de Salvador.
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