Perseu
Quando
o rei Acrisius recebeu o negro vaticínio do Oráculo de Apolo,
ele quase perdeu os sentidos. Porque isso acontecia a ele? O que
haveria de fazer ele para que o filho de sua filha o matasse um
dia? Esperou sua razão retornar e pôs-se a pensar no que faria
para evitar que fosse cumprida tão triste profecia. - Sim, de minhas mãos partirá um ato de grande crueldade, mas
também de grande necessidade. Trancarei minha filha, minha tão
amada filha, em uma torre para nunca mais sair. Assim confinada,
não poderá ter filhos, e não será cumprida a profecia de Apolo.
Ao retornar à sua cidade, fez com que sua vontade fosse cumprida
e a jovem Dânae foi levada a uma torre de bronze. Passaram-se
muitos dias e muitos meses. A bela Dânae continuava trancada
naquela torre, sem entender muito bem o motivo que a tornara
cativa de seu próprio pai. Não havia maneira de fugir de sua
prisão, pois aquela torre não possuía portas ou escadarias,
apenas uma pequenina janela por onde entrava os raios do sol e
através da qual passava longos momentos a espiar o mundo lá
fora. Um dia, colou seu rosto à janela para sentir o frescor da
manhã, mas a sensação de impotência perante sua situação
feriu de tal maneira seu ânimo que quedou para trás, a cabeça
segura pelas mãos e lágrimas nos olhos. Foi quando sentiu uma
presença estranha. Abriu os olhos e ficou estarrecida ante o que
viu: uma chuva de pingos dourados, brilhantes como o sol, entrava
através da pequena janela e tomava a forma de um homem. Era uma
figura majestosa e carregava em sua mão um raio. Dânae
percebeu que quem estava à sua frente não podia ser um homem,
mas um deus. O ser aproximou-se dela e disse: - Não temas, bela donzela. Sou um deus poderoso e vi o que seu
pai fez a ti. Seu sofrimento e resignação me fizeram querer
fazer de ti minha esposa. Dito isso, transformou a prisão horrível em um lugar
maravilhoso, ensolarado e cheio de flores. A beleza era tanta que
fez a torre assemelhar-se aos Campos Elísios. Porém, os guardas
encarregados de levar a comida à Dânae estranharam a luz que
emanava de dentro da torre e correram para avisar ao rei.
- Senhor, algo de maravilhoso acontece naquela torre. Estamos
todos temerosos de até mesmo espiar lá dentro.
O rei apressou-se a ver o que estava acontecendo na torre, e ao
notar a claridade que partia da pequena janela, mandou que os
guardas arrombassem as paredes para que ele pudesse entrar.
Quando finalmente as paredes foram postas ao chão, o rei pode
ver que sua filha trazia nos braços uma criança forte e
saudável. - Como podes ter dado à luz uma criança, se te mantive trancada
nesta torre por tanto tempo, sem contato com nenhum ser vivente? Dânae sorriu ante a confusão do rei e contou-lhe toda a
história. - Ele chama-se Perseu, e é teu neto.
Que um milagre ocorrera era certo. Porém, ele não podia deixar
que a previsão do oráculo de Apolo fosse cumprida.
Precisava acabar com aquela pequena vida. Sem coragem para mandar
matar a criança, que era de sua descendência, trancou
mãe e filho em uma caixa, atirando-os ao mar. Zeus não deixaria
que sua prole fosse tão cruelmente assassinada e, de um modo
misterioso, aquela caixa chegou seguramente à ilha de Seriphos,
da qual um certo Polydectes era o soberano. Seu irmão Dictys, um
pescador, acabara de abrir suas redes na praia quando avistou
aquela caixa que boiava perto da linha do horizonte. Pegou em sua
mão uma rede e entrou no mar, correndo em direção à caixa,
até parar com água na altura do peito. Lançou então a rede e
pegou a caixa, puxando-a fortemente para a praia. Imaginem a sua
surpresa ao abrir a caixa e encontrar uma linda mulher com uma
criança em seus braços! O pescador ficou comovido com a
história contada por Dânae e prometeu cuidar de ambos, até que
se sentissem seguros para partir. Nesta ilha, Perseu cresceu e se
tornou um jovem forte e habilidoso. Um certo dia, o rei
Polydectes passou pela casa do irmão e se encantou com a beleza
de sua hóspede. Desejou tê-la e, mesmo sendo rejeitado,
cumpriria seu intento, se Perseu não o impedisse. O rei ficou
com muita raiva de Perseu, mas temia matar um hóspede de sua
ilha e atrair a ira de alguma divindade. Polydectes armou,
então, um plano que o livraria da presença importuna de Perseu.
Aproveitou o casamento da filha de um amigo e, dizendo-se
protetor de tal matrimônio, obrigou que todos os convidados
trouxessem algum presente. Perseu era muito pobre, pois vivia na
ilha apenas ajudando as pescarias de Dictys. O rei fingiu estar
furioso quando o jovem Perseu entrou no santuário de mãos
vazias. Acusou-o de vagabundo e insolente, ao que Perseu
respondeu: - Aponte-me um presente que possa ser conseguido apenas com meu
trabalho e bravura, e não com posses, e eu o trarei. Qualquer
um. - Pois traga-me a cabeça da Górgona Medusa, então.
Seu plano havia funcionado e Perseu caiu em sua armadilha. O
herói não podia mais voltar atrás e teve que aceitar a tarefa,
de tão grande risco que certamente pereceria sem completá-la.
Ninguém jamais havia visto uma górgona e continuado vivo.
Segundo contavam, eram seres abomináveis com serpentes pretas em
lugar dos cabelos, pele de escamas, asas douradas e mãos de
bronze que estraçalhariam qualquer homem que delas ousasse se
aproximar. Mas, pior que tudo, seus olhos tinham o poder de
converter qualquer um que os olhasse, em pedra. Perseu sentiu
medo apenas de pensar em tais criaturas, mas não querendo
quebrar sua palavra, partiu em uma viagem desesperada. Já durava
dias a sua busca e Perseu não havia visto nenhum sinal da
Medusa. Exausto, sentou-se em uma pedra que estava à beira do
caminho para recuperar suas forças. Subitamente, uma mulher
muito alta e bela e um jovem forte com sandálias aladas
apareceram em seu caminho. - Estás procurando pela Medusa ou
já desististes de teu
intento? disse o jovem de sandálias aladas.
- Quem são vocês e o que querem comigo?
- Sou o deus Hermes e esta é a deusa Atena. Nosso pai ordenou
que viessemos ajudá-lo a cumprir sua missão, pois corres grande
risco. Dito isso, o deus pegou suas sandálias e as entregou a
Perseu: - Estas são minhas sandálias. Elas podem te sustentar no ar e
levar-te rapidamente a qualquer lugar que desejes ir. Toma
também essa foice que foi usada por Cronos para castrar Urano e
pelo grande Zeus para vencer o poderoso Tifon. - E este é meu presente, disse a bela deusa Atenas. Segure meu
escudo; com certeza ele te protegerá do poder da Medusa. -
Ah, sim, estava quase me esquecendo, disse Hermes. Deves ir até
a caverna das Greias e conseguir que elas te indiquem o
caminho para as Ninfas do Norte, que te darão o gorro da
escuridão e uma sacola mágica para guardares a cabeça da
Medusa. Elas também te indicarão o caminho para a toca das
górgonas.
Sem demora, Perseu colocou as sandálias mágicas e voou em
direção à caverna das Greias. Lá chegando, ficou escondido
próximo à entrada, de onde pôde observar o interior. As Greias
(Pemphredo, Enyo e Dino) eram três mulheres idosas que possuiam
apenas um olho e um dente, os quais tinham de compartilhar para
que pudessem enxergar ou comer. Essa fraqueza das Greias fez com
que Perseu elaborasse um plano para extrair das mulheres a
informação que necessitava. Perseu escondeu-se entre uns
arbustos no interior da caverna, enquanto as Greias preparavam
algo em seu caldeirão. Ele atirou uma pedra em direção a
entrada, o que fez com que a Greia que estava com o olho se
voltasse para aquela direção enquanto as demais questionavam
sobre a origem do ruído. Quando ela estava passando o olho para
outra Greia, Perseu tomou o olho de sua mão. Ante os gritos de
ameaça e confusão das mulheres, Perseu exigiu que lhe fosse
indicado o caminho para as ninfas do Norte, em troca do olho
roubado. Só depois de perceber que Perseu estava disposto a não
retornar-lhes seu olho, foi que as Greias concordaram em revelar o
caminho. Querendo ganhar tempo para fugir, Perseu deixou o olho
sobre uma pedra na caverna, forçando as três mulheres à
procurar o olho e ganhando, assim, tempo para fugir. Novamente
usando suas sandálias aladas, alcançou rapidamente o bosque das
ninfas, seguindo o caminho indicado pelas Greias. As ninfas do
Norte eram criaturas simpáticas aos homens, e sabendo da sua
missão, deram o gorro e a sacola ao herói. - Esse gorro tem a qualidade de fazer qualquer pessoa que o esteja
usando invisível, disseram as Ninfas, e indicaram a ele o
caminho para a toca das górgonas. Perseu então voou para norte,
pelo caminho que as ninfas lhe disseram, até que chegou à uma
ilha, cercada de estátuas de pedra. Perseu aproximou-se de uma
dessas estátuas e sentiu seu sangue gelar: compreendera que
aquelas mórbidas estátuas de pedra na verdade eram os corpos
transformados em pedra das pessoas que ousaram aproximar-se do
local das górgonas. Escondeu-se atemorizado atrás da estátua e
colocou o escudo de Atenas na altura de seus olhos. Pelo reflexo
do escudo começou a vasculhar a ilha procurando sinal dos
monstros, até que viu a entrada da toca onde habitavam. Perseu
continuou a andar de costas para a toca, guiando-se pelo reflexo
do escudo. Viu que em seu interior Medusa e suas irmãs estavam
adormecidas e aproveitou essa oportunidade para realizar seu
feito. Aproximou-se de Medusa e, tendo seus braços guiados pela
deusa Atena, cortou sua cabeça com a foice de Zeus no exato
instante que esta abria os olhos. O grito que a górgona soltou,
combinado ao barulho de seu corpo caindo ao chão, acordou suas
irmãs. Da cabeça cortada da Medusa saíram dois seres
fantásticos: o cavalo alado Pégasus e o gigante Crisaor, ambos
filhos de Posseidon. Perseu colocou a cabeça na sacola
mágica e alçou vôo para fugir da caverna, enquanto as irmãs
de Medusa, agora despertas, tentavam ferir o herói. Perseu podia
agora retornar ao seu lar, pois havia cumprido o que prometera.
Em seu caminho de volta, avistou Atlas, sustentando a
abóbada celeste em suas costas, como punição por haver se
juntado aos gigantes na luta contra Zeus, e sentiu pena do seu
fardo. Voou próximo ao seu rosto e, tirando a cabeça da Medusa
da sacola mágica, transformou o titã em pedra, para que não
mais sentisse o peso que devia manter suspenso. Sobrevoando uma
praia, viu o que pareceu-lhe ser uma estátua acorrentada a uma
rocha. Ficou curioso com sua visão e resolveu pousar no
promontório de pedra. Surpreendeu-se ao verificar que a estátua,
na verdade, era uma belíssima jovem.
- O que fazes assim, presa, a uma rocha, deixada frente a fúria
do mar?, perguntou o herói. - Fui acorrentada porque minha mãe insultou
os deuses, dizendo
que eu era mais bela que as nereidas. Isso enfureceu a Posseidon
de tal maneira que ele exigiu que eu fosse sacrificada a um
monstro que surgiria do mar ou todo o reino seria devastado. Por
isso meu pai me prendeu a essas rochas. Mal terminara de ouvir a história,
um som terrível elevou-se do
mar às suas costas. Um monstro imenso saiu das ondas e, vendo a
jovem acorrentada, rumou em direção à pedra. Perseu avaliou
bem o tamanho do monstro e sua agilidade, e se lançou ao ar,
voando fora do alcance do monstro. Quando já havia se aproximado
o suficiente, tirou de sua sacola a cabeça de Medusa, e o
monstro instantaneamente teve a pele convertida em rocha,
afundando no mar. Perseu voltou à rocha e libertou a jovem.
- Sou Andrômeda, e meu pai é o Rei Cepheus", disse.
Perseu pegou-a nos braços e levou-a ao seu pai. Quando este o
viu chegando voando com a sua filha - ainda viva - nos braços,
ficou assustado e pensou estar vendo um deus. Perseu
explicou o que havia ocorrido e como derrotara o monstro. Ante a
estupefação do soberano, Perseu pediu a mão da linda
Andrômeda, que lhe foi concedida prontamente. Agora, Perseu
retornaria para Seriphus, para junto de sua mãe. No caminho
decidiu parar em Larisa e competir nos jogos que lá estavam
ocorrendo. A primeira prova consistia no lançamento de disco, no
qual Perseu era bastante hábil. O seu disco, porém, acertou um
velho homem, de nome Acrisius, que estava numa das arquibancadas.
Perseu lamentou bastante a morte do homem, sem saber que a antiga
profecia de Apolo havia finalmente se cumprido. Perseu chegou à
ilha de Seriphus, após tantas aventuras. Quando entrou na casa
onde morava, encontrou-a vazia e correu à praia para procurar o
pescador Dictys. Este informou-lhe que o seu irmão, não tendo
obtido sucesso em convencer Dânae a desposá-lo, obrigou-a a ser
sua camareira. Perseu ficou furioso. Deixou Andrômeda e Dictys
na praia e rumou para o castelo do rei. Entrou no palácio por
uma das janelas e posou bem em frente ao trono de Polydectes.
- Muito bem, Polydectes, disse o herói, trago comigo o que
prometi a você, mesmo havendo arriscado minha vida. Acho porém
que você não me acredita, e deseja ver para ter a prova. Enfiou
a mão em sua sacola e segurou a cabeça da Medusa.
- Os que são meus amigos que fechem os olhos!, gritou.
Polydectes não deu ouvidos ao seu aviso e olhou diretamente para
a cabeça da Medusa quando esta foi tirada da sacola. Ele e todos
os seus cortesãos foram transformados em estátuas. Perseu e Andrômeda viveram
alegremente por muitos anos na ilha
de Seriphus, e tiveram uma descendência muito gloriosa. Perseu
foi o avó de Herácles, que tornou-se um dos maiores heróis da
antigüidade. Tanto ele quanto sua amada Andrômeda foram levados
ao céu por Zeus e transformados em constelações. |